sábado, dezembro 22, 2007

Aquela fria tarde de Março

No dia em que chegou da guerra ouviam-se gritos de alegria, viam-se lágrimas de felicidade.
Pais, namoradas, filhos e filhas, noivas e mulheres corriam para os soldados regressados. Soldados, recentemente pais, apertavam contra o peito os filhos que ainda não tinham visto crescer.
No dia em que ele chegou da guerra ninguém o tomou contra o peito.
A ninguém disse quando a sua comissão terminaria, ninguém perguntou, ninguém procurou saber.
Olhando em redor percebeu que era o único nessa situação.
Ajeitou a sua boina vermelha púrpura milimetricamente, passando os dedos pelas fitas negras, passou as mãos na farda e colocou o saco esverdeado ao ombro…Sem olhar para trás, fugindo a alguns cumprimentos de camaradas, caminhou até à estação mais próxima.
“ Somos jovens e audazes, palmilhando metas sem fim…mostrando ser capazes de lutar até ao fim!”
O jovem de cabelo muito rente, com a barba perfeitamente desfeita, parecia chamar à atenção da multidão que circundava o cais de partida….tal atenção não era apreciada.
Sentou-se num banco, afastado o mais possível da multidão, e curvou-se sobre si mesmo, dando a entender sono no que era tristeza.
“ Aprendemos a ser duros, a lutar até morrer…e mostramos ser seguros, não faltando ao dever”
O comboio partiu e chegou ao seu destino, ninguém o esperava nesse local…não ficou surpreendido.
Caminhou até casa, cortando a corrente de ar fria com passos longos e decididos.
“ Ao perigo indiferentes, e na guerra destemidos…Nunca largamos as frentes, perseguindo o inimigo!”
Chegado a casa apanhou algumas das cartas que se encontravam na mesinha da sala…não as leu. Tirou a roupa do saco e separou-a metodicamente, orgulhosamente. Fez a sua cama de lavado e de seguida nela se deitou…
Passaram-se dois dias até que alguém soubesse que ele havia chegado. Naqueles dois dias pouco dormiu, pouco comeu, muito pensou…Naqueles dois dias soube que nunca mais seria o mesmo.
Não sabia, esse jovem homem, que passado quase oito anos escreveria sobre essa fria tarde de Março…Não sabia que estaria casado e com dois filhos…Sabia, no entanto, que a velha mágoa voltaria à tona, que o nó na garganta tornar-se-ia impossível de ultrapassar.
Nunca mais se esquecerá, esse jovem que se tornou homem, que, nessa fria tarde de Março ninguém o tomou contra o peito…
Não me esquecerei que fui eu que assim quis…
“ Esta é a voz do comando, que de regresso cantamos e bem alto vamos gritando…


MAMA SUMAE, aqui estamos!

sexta-feira, dezembro 14, 2007





Já agora! Selene...eu aposto que é menina =)

quinta-feira, dezembro 13, 2007


Finalmente desci à terra!! Fui obrigada. Recusei-me sempre a descer porque vivo num sonho e é lá que me sinto completa, mulher, mais eu…
Mas a realidade chamou-me uma vez mais, educadamente, e eu resolvi fazer uma visita, de médico, ao quotidiano, ao dia-a-dia, à rotina…
Confesso: tenho permanecido, adormecido, convivido num mundo muito meu… misturam-se, com frequência palavras como fantasia, sonho, desejo e vontade!! É uma sensação transcendente, quase embriagadora, que se dilata e não diminui…


Tenho olhado para o espelho mais vezes do que o habitual (alguns acharão que se já era exagerado, agora é intolerável), tenho fechado os olhos com o intuito de examinar o meu interior e, finalmente, tenho encarado o futuro de forma mais séria, responsável e madura. O futuro deixou de ser apenas meu! Passou a ser nosso: meu e deste bebé que cresce (e como cresce, Meu Deus!) dentro de mim…
A roupa não serve, não fica tão bem, a barriga está grande, o peito também ( ironia: as camisolas, camisas que ficariam maravilhosamente bem neste peito, agora avantajado, não me servem), o corpo envia sinais novos e desconhecidos e, frequentemente, sou assaltada por apetites vorazes!!! Sumol de manga (odeio manga) e bolo rei (vai ser um/a príncipe/princesa).


Sempre fui bem disposta e risonha mas, hoje em dia, sinto que os meus lábios têm fios presos às orelhas. Eu explico antes que me imaginem como o Joker do Batman!! Sorriso aberto, dente arreganhado e um súbito desaparecimento daquilo que alguns, muito poucos e mal informados, chamam de “mau feitio”.
Nada me incomoda, nada me abala, nada me faz sentir menos bem ou menos satisfeita.
No trabalho “ninguém faz aquilo”, não há problema: faço eu! O carro bloqueado pela milésima vez, uma espera paciente, um buzinar com calma com a certeza de que alguém, mais cedo ou mais tarde, aparecerá. Sou capaz, vejam lá, até de esboçar um sorriso ao desgraçado preguiçoso que estacionou o maldito carro exactamente a tapar a saída do meu. Fila de supermercado, muita gente… sem stress, o tempo arranja-se.


Aos meus olhos tudo me parece colorido e todo o esforço e paciência para estarmos bem fazem sentido. Aos meus olhos as minhas atitudes já estarão a ensinar alguma coisa minha ao meu/minha filho/a.


E agora o Natal!! Época de comoções e sensibilidades. Chamem-me piegas mas dou por mim de lágrimas nos olhos sempre que vejo um Pai Natal… até mesmo se não aparentar mais do que 40 anos, for magro e possuir apenas um mísero bigode.


E agora, para terminar, partilho convosco uma publicidade de há uns atrás e que, entretanto, desapareceu. Pode até parecer ridículo mas a mensagem adequa-se a mim, neste momento.


Uma senhora está na cozinha a fazer um bolo. Na imagem aparece apenas o rosto dela e o movimento que ela faz enquanto mexe, calmamente, a massa do bolo. Fala alto enquanto realiza todos estes movimentos e diz:” - Sabes, a vida é como uma caverna, tem eco. Se lá dentro gritarmos PARVO PARVO PARVO, o eco vai retribuir essas mesmas palavras menos felizes. Mas se lá dentro gritarmos coisas boas, o eco dá-nos de volta tudo de novo.”- No fim do anúncio aparece de novo a senhora, agora num plano total do seu corpo e vê-se a barriga, grande…

Se não nos “virmos” entretanto, desejo-vos um excelente Natal e um Feliz Ano Novo!!

segunda-feira, dezembro 10, 2007



Como os dedos trémulos percorreu o risco perfeitamente traçado entre os cabelos. Sacode a poeira imaginária do casaco preto, maniacamente, sistematicamente, engomado. Alisa o colarinho da camisa branca, novamente, e fixa um ponto intangível na parede caiada.
Como explicar a um homem de ciência algo tão abstracto como o seu sentimento?
Verifica as horas, novamente…Olha em frente e, finalmente, um homem elegante senta-se à sua frente.
“ Olá Rapaz!”
“ Olá Senhor S.”

Tenta arranjar um tema interessante, inteligente para iniciar uma conversa. Não se lembra de nenhum. Pergunta-lhe pela mulher…a mulher está boa. Pergunta-lhe pelo trabalho…falam da crise. É interrompido.
“ A minha filha falou de…casamento.” Declara o mais velho. “ Explica-me lá isso, se fazes favor…”
Eu…nós gostamos muito um do outro!”
“ Que bom…E? Eu gosto muito do meu vizinho…”

Engasga-se…tosse, bebe água, a impressão continua. Tenta falar e volta a tossir.
Calma rapaz!”
“ Não é gostar…É amar.”
“ O que é o amor, rapaz?”

Olha para o casaco, sacode a poeira imaginária, alisa o cabelo…fixa os olhos do homem que lhe retribuem a sua imagem…aterrorizado!
Explicar o amor é como contar todas as estrelas…impossível...mas posso tentar contar.
O mais velho sorri…sorri como se soubesse o que o jovem estava a pensar. No fundo…sabia.
O sorriso é retribuído…o jovem sente-se aceite.

domingo, dezembro 09, 2007

terça-feira, dezembro 04, 2007

Então é Natal ...



Mais um Natal se aproxima, e mais uma vez se fala no Natal.
E é nesta época que as pessoas, elevam em si, os seus sentimentos mais nobres, tais como fraternidade, amizade, amor e bondade ... Nesta quadra, as pessoas tornam-se bondosas, e aquilo que lhes parecia tão mau durante o ano inteiro, no Natal toma outra dimensão, outra perspectiva.
Até, pessoas com quem se zangaram, durante o ano, passam nesta quadra a ser os melhores amigos... É natal ... quadra de amor, paz, carinho .... e também de falsidades, falsos valores e consumismo.
Este natal, reflitam sobre o que foram o ano inteiro, elevando sempre a vossa postura, personalidade, e não se deixem levar na "onda" das circunstâncias ... este natal sejam vocês mesmos, fazendo com que o Natal seja sempre que nos apeteça, a qualquer dia, a qualquer hora e em qualquer lugar ... pois quem precisa de nós, precisa sempre, o ano inteiro e existem valores que deveriam permanecer sempre vivos, dentro de nós.
Então é Natal ... agora, sempre e para sempre!

Pandora

domingo, dezembro 02, 2007

Somos todos crescidinhos…espero eu!

Casal que é casal consegue dançar ao mesmo ritmo… vejam até ao fim!

…Imagino a cara dos pais dos noivos…
Best wedding first dance ever - Watch more free videos

quinta-feira, novembro 29, 2007

É teu o meu coração ....





Senti-lo bater assim, forte, vivo, com sentido de bater, é das sensações mais fortes que se pode sentir ... sabê-lo feliz, com direcção e caminho, bate sem medo e com pressa de viver...
Com pressa de te ter, de te sentir, respirar ...
Bate, bate sem parar ... dentro deste peito que anseia, por apenas um olhar.
Bate feliz, descompassado ... com pressa de te amar, sentir-te para ele é mais, que um alimento á alma, é amar sem limite, sem mágoa ...
Vem amor meu, fazer realidade esta minha ilusão .... pois tu sabes certamente, que é só teu, meu coração!

Pandora

sexta-feira, novembro 23, 2007

Humor de cão!

Quero dormir e não consigo dormir...Quando eu NÃO consigo dormir fico de mau humor...quando eu fico de mau humor faço coisas más como acordar a Al com a musica do dragon Ball...Ou com esta linda frase...



Amorzinho...Não consigo dormir e ainda faltam algumas horas para acordar!

quinta-feira, novembro 22, 2007

Enquanto o portátil da minha mulher solta uma melodia bastante perceptível ( woman like a man, nine crimes…tudo Damien Rice, o nosso poeta) decidi que tinha o dever de escrever alguma coisa neste espaço que é parte de mim.

Nas últimas semanas tenho percebido que o que tomo por certo nem sempre se concretiza…que penso coisas que não são verdadeiramente certas, ponho as minhas mãos no fogo por factos que são exteriores à minha pessoa…mas que não deixam de me pertencer.
O que leva uma pessoa a fugir a um pacto? Um pacto com uma pessoa que, teoricamente, é “ a pessoa”…o que é que leva um homem a infringir os tratos de uma relação?
A resposta que me deram foi “ Uma relação melhor”…não deixa de ser verdade.
Por vezes estamos tão encandeados pelo brilho da lua que não olhamos para as estrelas…claro que fazemos sempre a escolha mais agradável, mais fácil…pelo menos para aquele momento…Será que é a melhor escolha para o futuro? Quem é que pensa nisso naqueles momentos de paixão avassaladora, em que o nosso interior chocalha ao ritmo dos batimentos do coração, em que o sangue ferve nas veias…naqueles momentos em que as palavras tanto podem sair da nossa boca inúteis, desenfreadas…mas podem não ser exteriorizadas…pensamos “ Gosto, quero mais…” não pensamos “ Gosto? Será que há melhor?”…quando começamos a pensar nessa hipótese, a relação deixa de ter sentido…é nessa altura que pensamos mais…
“ Podia ter lutado mais…podia ter dito mais, podia ter insistido, amado, dito…feito…podia podia…”… Avançamos para o melhor deixando o que tínhamos certo, que nem sempre é pior, avançamos e abalamos convenções, moldamos a paisagem à nossa imagem…cá dentro é recíproco, inabalável…pensamos “ Estava tão cego…agora é tão obvio!”…mas será? Será assim tão óbvio?
Não é obvio… mas sempre foi dito que o obvio nem sempre é o certo…
Por isso, abalem todas as convenções, quebram pactos se for para fazer um pacto que vos faça mais feliz…acima de tudo façam-no sem racionalismos…o racionalismo é o oposto da paixão, porque a paixão…a paixão é tudo menos que racional, digam o que disserem…Se for para fazer alguém feliz e para ver uma ambição realizada…força!

Eu cá estarei…a cumprir um pacto, a honrar o meu juramento…pois para fazer este mesmo juramento, abalei muitas convenções e olhei para muitas estrelas…até que encontrei a minha, verdadeira, lua.

terça-feira, novembro 20, 2007


Desculpem-me caros colegas de blog mas realmente não consigo fazer "esticar" o meu tempo. Má gestão, eu sei!!!!

No entanto, tenho grandes e boas novidades!!! Mal possa contá-las-ei!!


See you soon!!!

sábado, novembro 10, 2007



Há vinte e nove anos, por esta hora, nasceu a mulher que se veria a tornar “ a tal”.
A minha linda mulher faz hoje vinte e nove anos, continua perfeita como quando eu a conheci, sempre com o mesmo espírito jovem e aventureiro…e cada vez mais rufia, cada vez mais dona do meu coração.

Sei que, no momento em que escrevo isto, não estás com muita vontade de me por a vista em cima…por vezes os homens fazem coisas sem pensar, coisas que magoam as pessoas que mais amam, sem intenção…e eu não sou excepção à regra.
Não penses que este post é uma maneira de pedir desculpas, não é…as desculpas não se pedem numa página online, não nestes casos…este post já estava a ser pensado há uns dias...

De onde escrevo, Al, consigo-te ouvir respirar, daquela forma que tão bem te caracteriza, pausadamente…consigo-te sentir o perfume, se estender a mão até te consigo tocar…apesar de me estares a tentar evitar…não estás a conseguir.

Quando te dei os parabéns, respondeste-me com um “ Obrigado” que ecoou no meu ouvido, aceitaste o meu beijo, mas não foi retribuído como costuma ser…doeu, é verdade…doeu muito. Mas, como sabes, não me vou contentar com um obrigado frio…nem falo no beijo, porque eu sei que não era aquele beijo que me querias dar…não insisti, naquele momento.

Agora levantaste-te e encerraste o computador…vou tomar isso como um sinal de que me posso aproximar…se não era, culpa o sangue que me corre nas veias…

Compreendo o motivo do teu silêncio, eu faria o mesmo…e tu farias o que eu vou fazer agora…
Sentar-te-ias junto a mim e explicavas o que, realmente, tinha acontecido…eu iria entender, penso eu.

Como só vais ler isto de manhã, se leres…não corro o risco de influenciar a tua decisão.

Podiam-me vendar os olhos, retirar-me a capacidade auditiva e olfactiva e eu iria continuar a identificar-te no meio de uma multidão…Podiam-me tirar todas as alegrias do mundo, podiam-me tirar o trabalho que adoro, os amigos que venero…de tudo abdicaria só para te ver sorrir…porque foi isso que jurei fazer, é isso que quero fazer…é isso que farei, se mo pedires.

Por vezes não controlamos os factores exteriores, que nos tentam derrubar, que nos tentam ferir onde nos dói mais…não controlamos mas podemos superar e, eu sei, que nós conseguimos…sempre o fizemos.

AL, que neste dia importante percebas o quanto és importante para mim e para todos aqueles que te amam…que te sintas realizada em todos os aspectos…que sejas sempre mais feliz, porque se tu o fores…eu serei.

És a minha vida…Vivo-te, amo-te…ab mio pectore...

Para sempre, completamente, teu…

L.

quinta-feira, novembro 08, 2007



Não tenho tido muito tempo...

sábado, outubro 27, 2007

E se o amanhã nunca chegar ?



"Falar em perdas é falar em solidão, tristeza, desesperança, medo. Quando digo perdas, não estou apenas me referindo aos que morrem, mas a todos que de alguma forma, nos deixam prematuramente, antes que estejamos preparados.
Um amigo que se muda para longe, um namoro interrompido abruptamente e até mesmo um ente querido que se vai, provoca sempre em nós uma sensação de vazio.
E porquê isso? Porque sofremos tanto, mesmo sabendo que estas perdas ou partidas inesperadas são inerentes á vida, e que portanto, náo podemos controlá-las?
Não saberia responder com precisão á pergunta feita em cima, mas, o que me parece mais coerente é que nunca estaremos prontos para nos acostumarmos com a falta dos que amamos. Por mais que saibamos, que a qualquer momento eles nos faltarão, temos sempre a predisposição em acreditarmos que quem nos ama nunca nos traíria , nos privando do seu carinho, afecto e amor.
Ledo engano. São justamente os que mais amamos, que mais nos machucam com suas partidas inesperadas. Vão-se sem aviso prévio, e levam a nossa felicidade, a fé na vida, o equílibrio ...
O que fazer então? Não amarmos? Não nos permitirmos gostar de alguém pelo simples facto de que seremos, mais cedo ou mais tarde, deixados para trás na vida, entregues ás nossas angústias e remorsos por não termos dito tudo ou não termos feito o suficiente por eles? Creio que não. Se há algo na vida que mais nos trás felicidade, é sabermos que somos queridos e não seria honesto nos privarmos de tal sentimento por covardia.
Um amor de pai e mãe, o carinho de um amigo ou o afecto de uma relação a dois, deve sempre se sobrepor ao medo da perda. Porque ela é inevitável; o sentimento não. Deve de ser exercitado, todos os dias de nossas breves vidas.
Ele é o que nos move, nos dá o chão para que possamos caminhar pela vidacom a certeza de que, haja o que houver, teremos sempre alguém com quem contar, que nos apoiará mesmo nos momentos em que não tenhamos razão.
Esta, meus amigos, deve de ser a maior lição deixada pelos que partem sem nos avisar: lembrar-nos que devemos sempre curtir aqueles que amamos com a intensidade proporcional á brevidade de uma vida. Porque quando nos faltarem, saberemos que amámos e fomos amados, que demos e recebemos todo carinho esperado, que construímos um sentimento que nenhuma perda poderá apagar. Este sentimento transcende o espaço e o tempo, não se limita ao contacto físico.
Torna-se parte de nós, impregnado em nossa alma, nos confortando nos dias dificeís, sendo cúmplices de nossas vitórias pessoais, norteando nossa conduta, nos fazendo sentir eternamente amados.
Que me perdoem os físicos, mas neste caso, acredito sim que dois corpos podem ocupar o mesmo lugar no espaço. Basta que permitamos, sentir a presença dos que amamos, dentro de nós, como se fossem parte de nossa alma.
Só assim seremos inteiros. "

Luiz Henrique Zanforlin

Por vezes somos afectados por estados de espiríto, provocados por situações inesperadas, confusas e tristes. Estou num desses momentos da minha vida, e este texto acima transcrito, foi-me enviado por email, por uma pessoa muito querida, e traduz na perfeição o estado em que me encontro. Ao descrever-me neste exacto momento, eu própria não encontraria melhor forma.... por isso decidi partilhar com quem me lê ...

Pandora

segunda-feira, outubro 22, 2007


Conheceram-se como se conhecem a maioria dos amantes, por acaso. Não viram nada de especial um no outro, não trocaram números, não tiveram intenção de se voltar a ver, dormiram sem pensar um no outro…mas, o acaso uniu-os de maneira inesperada.

“- Mariana? – perguntou ele numa das muitas ruas que percorria até casa.
- Sim…- disse ela sem se lembrar, ao certo, da pessoa que falava para ela.
- Sou eu, o João…Conhecemo-nos no…
- João…lembro-me!”



Tão fulminante como o primeiro encontro, foi o segundo, daí partiram para o terceiro…arranjando sempre algo mais para fazer…algum tempo mais para pensar se era realmente aquilo que estava previsto…assim passaram uns meses… não, não estou a exagerar…assim passaram uns meses.

“-Tens sonhos? – perguntou-lhe ele numa daquelas em que se dedicavam um ao outro.
- Sonhos? Que tipo de sonhos?
- Tens objectivos para o futuro? Por exemplo…comprar um Ferrari! – brincou ele.
- Tenho…- disse ela tristemente.
- Posso saber quais?
- Não importa…não vai haver futuro…”


Ainda agora se culpa por não ter questionada aquela afirmação…ainda se culpa por não a ter agarrado e dito que sim, que tinha futuro…que ela era o futuro dele…ele o dela…Ele sabia, mas ela sabia mais.

Costumam dizer que as más notícias correm depressa, às vezes deviam correr mais depressa, ser mais, talvez assim poupassem algum sofrimento.

“- E putos?
- Putos? – perguntou ela amparando-se no ombro dele.
- Sim, putos..Bebés, chorões, miúdos, crianças, filhos..aquelas coisinhas pequeninas?
Ela riu e não disse nada.
- Não queres coisas pequeninas para te chatearem? – insistiu ele.
- Não.
- Não? Não acredito, Mariana!
- Não tenho tempo…
- O trabalho não é tudo…E eu quero ter milhentos!
- João, tenho que te contar uma coisa..”


Naquela noite chorou, chorou muito, como prometera não fazer…Ela embalava-o junto ao peito, como quem embala um bebé de colo. Sussurrava-lhe coisas impensáveis ao ouvido, secava-lhe as lágrimas com os seus beijos…a doença já era parte dela, já não a surpreendia apesar das fortes investidas…

“- Vamos consultar outros médicos, vamos a outros países…tem de haver cura..tudo tem cura!
- Não há, João.
- Vem comigo, eu encontro…prometo-te que encontro! – dizia enquanto lhe agarra a mão branca.
-Não quero passar o tempo a viajar de hospital em hospital…eu nunca estive melhor.
- O que é que eu posso fazer?
- Nada.
João levou as mãos à face tentando conter a nova investida das lágrimas.
- Podes fazer uma coisa… - emendou ela.
- Diz..Eu faço tudo!
- Abraça-me.”



Passaram-se dois anos…A doença não se manifestava todos os dias, não se manifestava com muita força, deixando espaço para alguns sonhos…para algumas esperanças.

“ E putos? – perguntou ele novamente.
- Putos?
- Sim, putos…bebés, chorões, crianças, filhos…aquelas coisas pequeninas..
- Não tenho tempo, eu…
- Tens! – interrompeu-a ele. – E vais ser uma excelente mãe!”
Era Verão quando ele a encontrou a chorar, era Verão quando ele viu a fiada de cabelos que havia caído…era Verão quando a doença decidiu mostrar-se…Foi no Outono que se revelou…

“ Não imaginas a raiva que aquele homem me mete…- desabafou ele. – Não merece respirar..
- Sai. – disse ela olhando para a porta.
- O quê? Que se passa?
- Nunca imaginei que fosses fútil ao ponto de dizer uma coisa dessas…
- Amor..estou a falar por falar…então?
- SAI! SAI DAQUI PARA FORA! – disse ela empurrando-o. – Não te quero ver mais há minha frente, João! Nunca mais.
- Mas Mariana…
- SAI!.”
Ele fez-lhe a vontade…Saiu, olhando para trás a cada passo…pensando que tudo se resolveria no dia seguinte…que era apenas uma discussão, que tudo se resolveria…ela sabia mais.
Passadas quatro horas recebeu a notícia…Tinha desfalecido e nunca mais acordara…Mariana tinha morrido.

Vestiu o seu fato preto…colocou o papel no bolso interior. Pegou na flor preferida dela, em tons de amarelo e colocou-a no bolso…

Quanto todos se afastaram, a muito custo, debruçou-se sobre a cova fresca…amaldiçoando Deus e os Deuses…olhou para o fundo castanho debruado a dourado, tirou o papel que tinham escrito…pigarreou e começou a ler…o que ele leu…só eles sabem…o que eles sentiam, é obvio.




Em memória de Alexandra...

sexta-feira, outubro 12, 2007

Longa vai a noite ....


Quando o caminho percorrido, não custa, e olhamos para trás e constatamos que o fizemos através das pegadas nele existentes ... a vida torna-se real!
Dados concretos levam-nos a sentir a realidade daquilo com que lidamos diariamente ...
E é tão fácil abstraírmo-nos da realidade ...
Basta um fechar de olhos, e voamos. Para aquele sítio onde sem dúvida gostariamos de estar, onde imaginamos tudo perfeito, e a frase : " Aqui vou ser feliz " se aplica na perfeição ...
É, apenas naquele Mundo que gostaríamos de permanecer e dele disfrutar ao máximo.
Caminhando já há algum tempo, dou-me conta que não saí do mesmo lugar e um " Terra chama Ana " traz-me de volta á realidade ...
A realidade que eu escolhi, que eu criei para mim, que bem ou mal tenho que a viver porque assim escolhi ...
Além disso, cada vez que me apetecer, posso sempre fechar os olhos, e voar ...
Longa vai a noite ...
São horas de regressar!

Pandora

terça-feira, outubro 09, 2007

Sento-me. Ligo o computador. Ultimamente este é o meu porto de abrigo, a minha ligação preferida, o meu tempo... e usufruo dele com a alma cheia, o coração aberto e um sorriso nos lábios.

Os anos que já vivi sempre se pautaram, felizmente, por acontecimentos maioritariamente fáceis. Deles retirei a alegria de viver, de trabalhar, de lutar pelos meus objectivos e de construir uma vida, de certa forma à minha maneira: simples, clara e objectiva.

Quando todos os outros achavam que estava na altura de sair, de conhecer pessoas, de romper as noites até à madrugada, já eu me tinha cansado e decidido fugir dali. Não isolar-me dos que me acompanham desde que me conheço, apenas seguir um rumo diferente e tentar perceber se os outros me respeitam pela opção. Quase sempre o fizeram...

Quando tinha tudo para vingar numa profissão escolhida por mim, num local certo, com horário certo, com colegas certos, com casa certa, decidi fazer as malas e partir para uma ilha. Queria sentir-me útil, queria estar só, queria fechar os olhos e tentar conhecer-me... Sei hoje que a minha utilidade teve os seus dias, a minha solidão quase me endoideceu mas conheci-me. Completamente!

Quando tudo o que me rodeava estava mais do que preparado para que a minha vida estabilizasse, com a casa dos sonhos, com o marido ideal, com a perspectiva de filhos, com o cão no jardim… decidi fugir dos planos, envergar pelo incerto sem rodeios, tomar as minhas decisões, arriscar, bater com a cabeça mas aceitar esse erro como forma natural de aprender, usufruir do não planeamento, do caos, da anarquia de sentimentos que me invadiram… Sei hoje que o egoísmo se paga caro, que não nos podemos desligar daqueles que se unem a nós, que há sentimentos que não podem e nem devem ser quebrados com facilidade, até porque, são dolorosos, e, acima de tudo, sei hoje que a verdade magoa. Muito.

Quando todos diziam que a realidade era o que existia, que os factos não se discutem, que as tristezas são incontornáveis e que as lágrimas são um caminho e não uma reacção já eu acreditava que a realidade só faz sentido vivendo em sintonia com o sonho, que os factos só são factos porque podem ser discutidos, que as tristezas são perfeitamente combatidas quando lhe atiramos à cara alegrias, por mais pequeninas que sejam, e que as lágrimas não são nem caminho nem reacção. São antes gotas de nós que, aqui e ali, se mostram… gotas que têm sabor a mar. E, arrisco-me a dizer que, só por saberem a maresia já são imensas…
Simples, clara e objectiva!! Não vos parece, pois não??!!

quinta-feira, outubro 04, 2007

Who Will Cry for the Little Boy?



Who will cry for the little boy?
Lost and all alone.
Who will cry for the little boy?
Abandoned without his own?

Who will cry for the little boy?
He cried himself to sleep.
Who will cry for the little boy?
He never had for keeps.

Who will cry for the little boy?
He walked the burning sand.
Who will cry for the little boy?
The boy inside the man.

Who will cry for the little boy?
Who knows well hurt and pain.
Who will cry for the little boy?
He died again and again.

Who will cry for the little boy?
A good boy he tried to be.
Who will cry for the little boy?
Who cries inside of me?
Antwone Q Fisher

segunda-feira, outubro 01, 2007

Não te amo..

Não te amo..
Já te amei, muito, mas já não te amo.
Custou-me a perceber que sensação era esta que me corrompia a mente noite e dia, que me mantinha acordado a pensar em tudo e em nada…custou-me a perceber porque já não olho para ti da mesma maneira…agora percebo, já não te amo.
Não penses que deixei de te amar de um dia para o outro…é mentira. O processo já começou há muitos meses…muitos mesmo...
O verbo amar não tem qualquer significado na nossa relação, já teve…O amor não explica o que sinto por ti, fica muito aquém…
Eu não te amo, eu vivo-te. Tu não és a minha amante, tu és a minha vida, conheço-te como me conheço a mim…e o “eu” sem “tu” não faz sentido…nós seremos, sempre Nós…
Há quem diga que é impossível morrer por amor…mentira, tu sabes…Eu era capaz de morrer por amor…porque se te levassem de mim, levavam a minha vida…

Eu vivo-te e viverei..porque a finitude não é para aqui chamada!~

"I hope you don't mind, I hope you don't mind That I put down in words"

domingo, setembro 30, 2007

Ela seguia-o…

Inconsciente, torpe e quase levitando… caminham calmamente por entra a multidão mas a ela, parece-lhe, que vão quase a correr. Ele prende-lhe mais a mão e lança olhares por cima do ombro talvez com o intuito de se certificar que é a mão dela que segura firmemente…
O percurso não foi em nada planeado, surge naturalmente, e os corredores cresceram e multiplicaram-se estupidamente… Impunha-se sair dali. Era fundamental estarem apenas os dois. Ninguém falava, nem sequer era preciso. Ele tomava as rédeas e ela concordava com as atitudes… Uma comunicação perfeita e bilateral mas, ao contrário do normal, apenas feita e pensada com o corpo…

A noite já ia alta e apenas umas luzes aqui e ali iluminavam o caminho que o carro dele, velozmente, percorria. Não sabiam para onde estavam a dirigir-se. O caminho era totalmente desconhecido mas o que realmente era importante é que estavam juntos novamente. Respiravam o mesmo ar e podiam olhar-se sempre que quisessem… Ele conduzia concentrado. Ela colocou a mão dela na perna dele para não perder o sentido da realidade. Desta vez, recusava-se veementemente a sonhar. Queria a terra, queria o chão, queria a objectividade, queria algo físico e material… por um momento que fosse exigiria a verdade, os factos em detrimento das suas ficções, da sua imaginação, dos seus sentidos! Aquele indelével e mero toque de perna certificava tudo isto…

A estrada estava deserta e as luzes deixavam ver apenas alguns buracos e defeitos do percurso que faziam… sinuosas curvas e um deserto de casas. O céu estava pintalgado de estrelas. Ela olha pela janela e observa-as. Para ela são velas acesas… muitas…

Pensou que talvez aquela fosse a altura ideal para falar qualquer coisa que fosse e colocar algumas interrogações mas vendo-o tão calado e sério, optou apenas pela quietude das palavras e pensamentos. Não o queria perturbar mas era um facto que a sua curiosidade começava a alcançar o limite máximo. O que fazia ele ali naquele dia? Teria sido a primeira vez? Como a encontrou? Procurava o mesmo que ela procurou naquela loja? O que tinha feito durante todo o tempo que não se viram, ouviram e sentiram? Continuava só? Será que ele a vê como ela o vê em quase tudo que a circunda? Sente a falta do seu corpo, da sua voz, do seu sorriso? Tinha a certeza que qualquer coisa que dissesse naquele momento iria parecer inevitavelmente disparate e despropositado. Tentou desviar a sua atenção e os seus olhos fixaram-se nas mãos que seguravam masculamente o volante. Grandes e finas. Suaves sabia. As mãos que conheciam o seu corpo, aquelas que percorreram como não outras cada pedaço do mesmo… Estavam ali, paradas. Ao alcance das dela.

Subitamente ele pára o carro. E pára num pedaço de terra, no meio do nada…

O que se passa a seguir é pautado pela impulsividade, pelo desejo, pela ansiedade e pelo ímpeto de corpos que se reconhecem até porque são feitos da mesma massa, exactamente na mesma altura…

Sai bruscamente do carro. Atrás de si bate uma porta furiosamente. Fica parado do lado dela segundos apenas, mas que a ela, lhe pareceram uma eternidade. A barreira que os separa foi destruída e ele arranca-a dali. Encosta-a ao carro. Olham-se e despem-se totalmente com o olhar. Nada os impede hoje. Estão sós. Amam-se e vão continuar a amar-se… mesmo que amanhã acordem em camas diferentes, em quartos diferentes, em cidades distintas…

Ele aperta-a contra si e ela enrosca-se nos seus braços. Um abraço apertado, sem medida nem definição possível! Uma lágrima cai pelo rosto dela e, suavemente, ele trava-a e desenha o seu fim nos seus dedos… Beijam-se, num beijo que nasce tímido e depois se transforma em intensidade, ritmo e movimento. As mãos deixaram de ter lugar certo: as dela agarram-lhe o pescoço, as dele percorrem o cabelo dela e partem para as costas…

As velas continuam acesas agora numa noite que era prevista ser passada da mesma maneira que todas as anteriores… sem ele. Naquele instante de tempo, ela entrega-lhe e partilha o seu corpo. Ele faz parte dela. Misturam-se respirações, oos peitos disparam e exigem-se partilhas... daquelas que só são possíveis quando se ama profundamente, quando se é metade, quando se assumem definitivamente cumplicidades e vontades...

E... finalmente... no meio do nada mas com o mundo todo nas mãos... amam-se...