quinta-feira, janeiro 04, 2007

“Os meus olhos viram o que jamais olhos humanos deveriam poder ver…”

Vi sangue, mortes e cinismos. Vi o emergir e o submergir, quase simultâneo, de uma sociedade degradada. Vi acções sem sentido, cumpri ordens sem olhar para o lado…vi erras e errei e errei, continua e exaustivamente.
Vi sorrisos sobre escombros de orfanatos e escolas, hospitais de campanha a abarrotar, capacetes debaixo do braço, boina na cabeça dos “ pequenos” e o olhar a pairar sobre o que não vemos.
Observei castelos a ser construídos e ouvi o som da onda a aproximar-se. Vi isso e muito mais…vimos e ouvimos calados.
De um lado os gritos do outro as mórbidas gargalhadas, Alás e Cristos armados, com o olhar a inundar de raiva e sede de vingança.
Vi os filhos dos seguidores nas ruas, sem um Deus que os protege-se, sem nada de bom a esperar…Variadas vezes ouvi os passos dos mestres religiosos a espezinhar famílias e a trespassar corpos à muito sem fé…Fugindo e mandando lutar… saltando as barreiras que tinham criado sem olhar para trás, deixando o rasto religioso do sangue a…inundar os castelos….

NÃO PASSARÃO - MIGUEL TORGA

Não desesperes, Mãe!
O último triunfo é interdito
Aos heróis que o não são.
Lembra-te do teu grito:
Não passarão!

Não passarão!
Só mesmo se parasse o coração
Que te bate no peito.
Só mesmo se pudesse haver sentido
Entre o sangue vertido
E o sonho desfeito.

Só mesmo se a raiz bebesse em lodo
De traição e de crime.
Só mesmo se não fosse o mundo todo
Que na tua tragédia se redime.

Não passarão!
Arde a seara, mas dum simples grão
Nasce o trigal de novo.
Morrem filhos e filhas da nação,
Não morre um povo!

Não passarão!
Seja qual for a fúria da agressão,
As forças que te querem jugular
Não poderão passar
Sobre a dor infinita desse não
Que a terra inteira ouviu
E repetiu:
Não passarão!

Miguel Torga in Poemas Ibéricos, 1965

terça-feira, janeiro 02, 2007

Num café...

Numa conversa de mulheres, daquelas que os homens nunca entenderão (pela simples razão de serem homens), surgiu o tema da desconfiança, insegurança, mentira e traição. (O tema compras e saldos foi o seguinte, mas sobre esse não me pronunciarei).
Uma de nós é uma mulher que, vivendo a esperança de uma relação que adia o inevitável, desconfia da própria sombra e sustém a respiração sempre que se fala em traição e mentira. Tenta esconder o fracasso pessoal e, sempre que pode, balbucia qualquer coisa do género “ A mim não me assusta a solidão. Se for necessário dou um passo em frente e nem olho para trás...”
Ambas sabemos que se engana a si própria. Não o dizemos porque somos amigas mas somos mulheres!!
Outra há que vive sozinha, num prédio com demasiados andares... acorda sozinha, vai trabalhar, almoça no local de trabalho, com colegas entediantes e sem “sal” (segundo ela), faz ginástica num local intitulado “in”, regressa a casa, só, come qualquer coisa rápida e senta-se no sofá a ver a(s) novela(s). Não se cansa dizer “Assim é que estou bem! Ninguém me chateia. Sou independente” mas todas sabemos que reserva em si o medo de se relacionar, a insegurança da entrega e da partilha. Ainda não esqueceu o passado. Aliás é lá que vive!! Mais uma vez, ficámos caladas cientes da nossa condição feminina.
E há a L. Chamemos-lhe assim. A L. vive uma vida de sonho. Um trabalho que a preenche, um marido que a idolatra e a presenteia com palavras e actos inesperados, festas sociais nas quais se destaca pela beleza e carisma naturais. Da boca da L. nunca se ouviu uma lamentação, uma queixa, um sentimento menos positivo porque, segundo ela, “ a nossa vida é como uma caverna com eco. Se lá dentro gritarmos exclusivamente coisas boas é isso exactamente o que o eco / vida nos vai devolver.” Admiramos-lhe a força, a confiança e a “sorte”. Mas somos mulheres, caramba. Caladas até ao fim...
Como diria Álvaro de Campos “três tipos de idealistas e eu nenhum deles...”
E enquanto falam, olho para dentro e penso que somos seres relacionais mas, por maior que seja o paradoxo, é-nos muito difícil relacionarmo-nos com os outros. Nem sempre, claro, mas talvez mais vezes do que as que gostaríamos. Seja porque a vida afasta as pessoas, porque há demasiado sofrimento à nossa volta ou porque temos medo de amar e ser magoados, ficamos, muitas vezes, isolados no nosso canto.
Mas... Quanto menos damos, menos recebemos.
Partilhar emoções, confiar nos outros e amar sem medos é a única maneira de crescer e criar laços fortes e seguros... Nada é definitivo na evolução das pessoas, tudo muda, e ,a boa qualidade das relações afectivas que se vão estabelecendo ao longo das nossas vidas, tem a capacidade de mudar profundamente possíveis dificuldades.
A ideia de que são as relações com as pessoas com quem vamos lidando nas mais variadas situações que nos moldam, dá-nos a noção da nossa verdadeira dimensão. Têm o poder de nos revelar. É por estes laços que se correm perigos, vivem alegrias e se conhecem as tristezas que permitem edificar quem realmente somos... levam-nos a uma procura, constante, da perfeição!!
Diariamente temos o desejo de pertencer ou possuir alguém ou alguma coisa... apesar do individualismo, cada vez mais evidente, todos nós procuramos algo ou alguém em quem nos possamos apoiar... no entanto, temos vindo a perder o tempo e a disponibilidade para estar atentos aos que nos rodeiam. Os dias de hoje não promovem a proximidade e paira no ar a ideia de perigo de contágio de sentimentos piegas indesejáveis e sobretudo passados de moda, que nos expõem e enfraquecem... sentimentos que mostram exactamente aquilo que somos...
No fundo, tudo se resume ao facto de alguns de nós se sentirem ansiosos numa vida cujo objectivo principal é encontrar uma “relação ideal”. Nela se investem todos os sonhos e se criam expectativas exageradas, esperando invariavelmente receber o máximo de amor, amizade ou afecto... aquilo a que temos naturalmente direito!
A ideia de perdermos relações significativas torna-nos pessoas deprimidas e até em luto quando as nossas ligações sofrem danos... por outro lado, sentimo-nos profundamente sós quando não as temos.
É absolutamente necessário encontrar um equilíbrio entre intimidade necessária e a expressão de independência e autonomia pessoais, sem cair na desconfiança contínua do exterior, que transforma os elos em pedaços poucos transparentes, defensivos e muito tristes...

“Que conversa deprimente a vossa!! Vamos às compras para desanuviar!!”

Interrompida nos meus pensamentos, paguei o café e preparei-me para a batalha!
Mulheres!!

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Ohhhhhhhh Selene

Selene... Carrega no play =D

Quem não tem uma música própria??
Quem não acha que aquele poeta escreveu aquele poema a pensar na sua pessoa??
Quem não recorda um cheiro específico de alguém, de algum sítio, de uma ocasião qualquer?
Quem não sonha ao ver um filme romântico, daqueles com aquelas histórias quase utópicas, e deseja que essa história se repita na sua vida??
Quem nunca visitou um local pela primeiríssima vez e se “lembrou” de já lá ter estado?
Começo pelo fim:

Vivi no estrangeiro, numa cidade, sozinha, durante um ano. Não precisei de mapas. Sabia exactamente onde estava, para onde ía, e nunca me perdi na imensidão das ruas... senti que já tinha vivido lá. Não faço ideia quando, nem quem era...

Vi atentamente o filme “Jerry Maguire” e sonhei com uma história daquelas para mim... aquela famosa frase “You had me at hello!” fez-me ver que há realmente coisas muito simples. Até no amor...

Há um cheiro que nunca esquecerei de um perfume, já antigo, que o meu avô usava. Aliás, sempre achei que ele exagerava na dose diária. Disse-lhe umas quantas vezes. Nada mudou de qualquer maneira. Há pouco tempo, sentada num banco de um combóio, lia o meu livro calmamente. À minha volta o entra e sai próprio da hora de ponta... entretanto sinto que alguém se senta no banco em frente ao meu. Não tirei os olhos do livro até o meu nariz ter presenciado aquele odor... era o mesmo perfume. As pernas tremeram. Não me contive e pousei o olhar naquela pessoa. Devorei-lhe cada partícula do cheiro que emanava dela. E vi o meu avô. Senti-o claramente...

“Conheci” Fernando Pessoa ainda nova. Cruzámo-nos de forma natural. Uma descoberta entre os milhentos livros religiosamente guardados do meu pai. Não me lembro o porquê dessa minha curiosidade repentina mas recordo-me que me “prendi” ao livro para sempre. Ainda hoje o tenho. Revi-me nos seus textos... senti-me algo nua, despida de alma porque ele a tinha descoberto. Uma empatia perfeita entre um génio da palavra e uma leitora desfasada do tempo...

Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender -
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada
Deixa esquecer
Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz
Não digas nada."

Fernando Pessoa

E chego finalmente ao início do texto. A música. Não referirei uma música minha e de mais alguém. Também as há. Vou antes dar a conhecer uma música que me dedicaram há uns tempos atrás. Marcou-me pela pessoa que a escolheu, pela ocasião de ruptura em que nos encontrávamos e pela analogia simples de uma mulher e do vento... Ninguém fala no vento. Fala-se, escreve-se, canta-se sobre o mar, sobre a lua, sobre o tempo, sobre o amor, sobre o sofrimento... esquecem-se frequentemente das brisas de todos os dias!!
Partilho-a ...

http://www.youtube.com/watch?v=pi7cmNDgCz8

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Mulher!

Não é dia da Mulher, eu sei, mas precisamos de miminhos destes todos os dias...

"Enquanto houver uns olhos que reflectem
outros olhos que os fitam,
enquanto a boca responda a suspirar
aos lábios que suspiram,
enquanto sentir-se possam ao beijar-se
duas almas confundidas,
enquanto exista uma mulher formosa,
haverá poesia!"

Gustavo Adolfo Bécquer

Poema Matemático

Bem, eu vou colocar aqui um poema que li num outro blog...Achei tão estranho o poema, mas tão estranho...que não podia deixar de partilhar...



Um Quociente apaixonou-se um dia doidamente por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável e viu-a, do Ápice à Base...
Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, Boca trapezóide,Corpo ortogonal, Seios esferóides.
Fez da sua uma vida Paralela à dela.
Até que se encontraram No Infinito.
"Quem és tu?" indagou ele
Com ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.Mas podes chamar-me Hipotenusa ."
E de falarem descobriram que eram
O que, em aritmética, corresponde
A alma irmãs Primos-entre-si.
E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz.
Numa sexta potenciação
Traçando ao sabor do momento
E da paixão Rectas, Curvas, Círculos e Linhas Sinusoidais.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidianas
E os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E, enfim, resolveram casar-se.
Constituir um lar.
Mais que um lar. Uma Perpendicular.
Convidaram para padrinhos O Poliedro e a Bissectriz.
E fizeram Planos, Equações e Diagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade Integral
E diferencial.
E casaram-se e tiveram uma Secante e três Cones muito engraçadinhos.
E foram felizes.... Até àquele dia
Em que tudo, afinal, se torna monotonia.
Foi então que surgiu O Máximo Divisor Comum...
Frequentador de Círculos Concêntricos.Viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela, Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum.
Ele, Quociente, percebeu que com ela não formava mais Um Todo.
Uma Unidade.
Era o Triângulo, chamado amoroso.
E desse problema ela era a Fracção Mais Ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade.
E tudo que era espúrio passou a ser Moralidade
Como aliás, em qualquer Sociedade.


Millôr Fernandes

quarta-feira, dezembro 27, 2006

O meu herói


Durante a nossa infância crescemos a ouvir histórias de heróis, príncipes encantados que salvam as belas princesas no castelo longínquo, guardado por dragões, ou bruxas malvadas…ouvimos falar dos grandes conquistadores, dos soldados rebeldes, dos grandes marinheiros e na nossa mente acaba por se estruturar um objectivo, mesmo que de curta duração… queremos ser como eles.
Quem nunca quis ser como o polícia que um dia visitou a sua escola, como o cantor que encanta multidões, o soldado que luta em países distantes, o artista de cinema, que conquista todas as donzelas e elimina os inimigos? Todas as pessoas têm o seu heróis, o seu ídolo.
Lembro-me que durante as férias, quando era pequeno e ia passar as férias grandes com os meus avós paternos, seguia um carabinieri para todo o lado, via como é que ele andava e tentava andar da mesma forma, imitava as expressões faciais, as frases, as acções. Esse carabinieri é o meu avô.
Quando falávamos dos nosso ídolos, uns mencionavam cantores, outros jogadores de futebol, o meu ídolo sempre foi o carabinieri do passo largo, voz grossa, e cavalheiresco, o homem que luta pelo que quer e que, quase sempre, tem.
Sei que ainda agora, quando me chateio, ou tenho um problema, penso “ O que faria o meu avô se estivesse na minha situação?”, tento fazer o que ele faria, tenho-me saído bem.
Por isso e por muito mais … Grazie nonno!


O cabelo loiro, preenchido por caracóis,estava desalinhado... os olhos azúis, grandes e expressivos, observavam-me e a tua boca, perfeitamente desenhada, tinha um rasgo de um sorrido tímido... as tua unhas sujas pertenciam a umas mãos finas e débeis... Pena. Foi o que senti no nosso primeiro contacto. Pena de ti, da tua vida tão curta ainda mas já tão preenchida de infortúnios. Pena das vezes que já deves ter chorado, das vezes que já tiveste fome e frio... Hoje, continuo a sentir pena. Mas de mim. Por não ter sido a primeira pessoa a ver-te quando nasceste...
Os nossos primeiros dias foram de descoberta total e de entrega a cada segundo vivido! Eu interpretava os teus sinais, tu lias os meus olhos. Eu adivinhava a tua dor e os teus medos, tu sabias que o teu lugar estava garantido na minha vida. Eu teimava em vasculhar tudo o que é teu, tu insinuavas um passado esquecido e uma esperança num futuro melhor... como me ensinaste... Conheces o “menos bom” e mesmo assim só sabes ser meiga, grandiosa e sorridente...

- Beatriz, desenha o teu animal preferido!
- Pode ser um cão?
- Pode ser o que tu quiseres desde que seja o teu preferido.
- Vou desenhar um cão. Grande.
- Grande?! Porquê, não gostas de cães pequeninos?
- Gosto mas um cão grande protege-me mais. Além disso podia ensiná-lo a pegar em mim para olhar pela janela pequena. Eu não chego lá.
- Uma janela pequena. Não há portas Beatriz? Para que possas ir brincar com ele lá para fora?
- Há uma mas está sempre trancada. Só posso olhar pela janela...

Viveste sempre enclausurada não foi? Anda cá, deixa-me abraçar-te e dizer-te que vamos as duas abrir outras portas com a mesma mão. Abrimo-las e nunca mais as fechamos...

- Beatriz, tu choras?
- Choro tu não?
- Sim, choro. Mas eu nunca te vi chorar...
- Pois não. Eu escondo-me quando me apetece.
- Escondes-te? Podes dizer-me onde?
- Na almofada...

Quem te ensinou que chorar é uma fraqueza?! Quem te assustou ao ponto de teres um sítio só teu para chorares?? És uma criança. As crianças choram, riem, brincam, fazem asneiras naturalmente. Nós, os adultos, somos os únicos a procurar refúgios porque temos medo de nos mostrarmos...

Desde que te conheço que me tornei em alguém melhor. A ti devo o entendimento perfeito das palavras “perdão” e “sofrimento”. Não me esqueço do nosso primeiro fim de semana juntas. Quando te perguntava se estavas a gostar e tu respondias com abraços... Quero continuar a lutar por ti... e por mim!! Quero continuar a aprender ao teu lado. Quero sentar-me no chão contigo, brincar ao que tu quiseres, tocar-te na cara e nos cabelos loiros e dizer-te que és uma menina linda e que tenho orgulho em ti! Quero que acredites em mim quando digo que podemos confiar nas pessoas. Podemos realmente Beatriz, no entanto, temos de estar sempre preparados para decepcionar e sermos decepcionados. Faz parte da vida...
Quero acordar sabendo-te cá em casa, num quarto que já é teu... Quero dar-te banho, vestir-te a tua roupa preferida, colocar-te os ganchos no cabelo rebelde... quero que me puxes pelas calças e digas que está na altura do colo porque sentes que vais chorar... deixaste a tua almofada e agora sou eu o teu porto de abrigo... quero passear de mãos dadas contigo, mostrar-te ao mundo e deixar que digam que és linda mas que és “minha”... quero não ter de me despedir de ti por mais tempo do que o essencial e não ver as tuas e as minhas lágrimas... quero dar-te o cão grande... quero que preenchas a casa com o teu cheiro, o teu sorriso, os teu sons... quero que abras as portas sem medo, que descubras o que está lá dentro e que não tenhas medo em partilhar...
...quero tanta coisa Beatriz porque és a minha metade...





terça-feira, dezembro 26, 2006

É mentira...

Era muito nova quando me apercebi que os adultos mentiam. Sem vergonha.
A mãe dizia que me dava a boneca na viagem de regresso mas o que é engraçado é que, no regresso, nunca vinhamos pelo mesmo caminho...
- “Mamã, a boneca?!”
- “Agora não vamos por lá. Fica para a próxima!”
O pai ensinava-nos que devíamos respeitar os animaizinhos, tratá-los com respeito, educá-los como se de pessoas se tratassem, no entanto, aquele cãozinho que me deram, aquele que fazia cócó demais no terraço lá de casa, foi “recambiado” para a casa de um amigo...distante
- “O meu cão?”
- “Olha, deixámos o portão aberto e o cão fugiu...”
Chorei. Berrei
- “Não te preocupes. Ele é tão bonito e esperto que já arranjou uma casa quentinha e maior do que esta para brincar à vontade!”
Acreditei, não tinha por que não o fazer. Acreditei e continuei a viver feliz na minha ingenuidade.
E aquela professora que prometeu, solenemente, não castigar quem tinha feito aquela (horrível) asneira?!?! Eu assumi-me, revelei ter sido eu. Fortemente convencida de que nada me aconteceria, claro! Acreditei nela, piamente. Errado. Ainda hoje me dói o rabo só de pensar nisso...
Cambada de mentirosos. Todos. Pior do que eles serem mentirosos é, consciente ou inconscientemente, ensinarem-nos a mentir
- “O que aconteceu ao avô?”
- “O avô foi para longe, achamos que não vem mais. Mas disse que vai estar sempre a pensar em ti...”
- “Ou comes a sopa toda ou vem aí o Papão”
- “Papão?! Não sei quem é mas pelo nome não deve ser como o Noddy. Dá cá a sopa. Marcha tudo”
O que é isto???? É uma verdade, uma meia-verdade, uma mentira ou uma meia-mentira?? Será que há “meias” nestas coisas?!? As crianças podem não entender muito bem enquanto crianças. Mas crescem. Toda a criança cresce mais cedo ou mais tarde... é só aí que vão entender que as fizeram de parvas...

Intimidar para vencer


As coisas que me enviam... A mim... Um Anti-clerical...ateu assumido

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Pormenores!

Às vezes páro um pouco... Olho à volta, observo os que me rodeiam.
Sempre me disseram que era boa observadora... Talvez porque presto demasiada atenção a detalhes que, provavelmente, passam despercebidos ao primeiro contacto. Os pormenores definem as pessoas. De uma maneira geral, à primeira vista e ao primeiro toque, somos todos muito parecidos. O que realmente nos distingue são as pequeninas coisas... aquelas que alguém designou de “pormenores sem a mínima importância”!

Tive um namorado, há alguns anos atrás (como o tempo passa), que me surpreendeu muito com algumas palavras. Quando lhe perguntei o que gostava mais em mim (hoje já não faço perguntas dessas, amadureci e como tal receio a resposta) respondeu-me desta forma: “Gosto da forma como andas e da forma como falas”... Na altura pensei “Este gajo é parvo de certeza!!! Da forma como falo até nem é mau mas... podia dizer que gostava do meu cabelo, podia dizer que gostava dos olhos ou dos lábios, até podia dizer que não gostava de nada... agora da forma como ando??” Bem, lembro-me que, durante uns tempos, antes de sair de casa, me virava de costas para o espelho e andava em direcção à porta com a cabeça virada, observando como era o meu “andar”... Para mim, normal!! Para ele, pelos vistos, não. O que é realmente curioso é que ainda hoje, depois de alguns anos, essas são as palavras que mais me lembro ditas por ele. Já esqueci o cheiro, já não me lembro dos gostos, não sei o que queria ser quando fosse “mais crescido” mas recordo-me perfeitamente daquele comentário... Pormenores!

E o mesmo se passa com os locais que conhecemos... adoro viajar e tenho o privilégio de já ter conhecido alguns pontos interessantes! O que guardo deles são, igualmente, pequenos grandes momentos.
Há um lugar, escondido entre as serras quase inóspitas de Trás os Montes que, de tão natural e simples que é, me transmitiu uma sensação de paz, nunca antes vivida em qualquer outro local. É uma aldeia, daquelas que têm só uma estrada que acaba na Igreja. As casas, meia dúzia, são próximas (não vá o Diabo tecê-las) umas às outras e exalam aquele cheiro a fumo, a quente, a gente que vive em comunhão com o que a terra lhes oferece. Na única rua há bancos de pedra e num deles está um ramo de flores. Soube depois. Uma homenagem singela a alguém que tinha partido recentemente e que se sentava ali. Era dele aquele sítio. Durante uns tempos ninguém tem a coragem de o ocupar. Pormenores! Aqui, enquanto andamos, conseguimos ouvir cada um dos nossos passos (e lá vem o andar novamente, aquele rapaz traumatizou-me) porque o que realmente caracteriza esta aldeia é o silêncio! O silêncio que incomoda tanta gente... o silêncio que muitas vezes é mal compreendido porque se teima em pôr em palavras o que, às vezes, é perceptível apenas com um olhar ou com um simples toque... O silêncio vivia ali! Descobri eu... talvez de mãos dadas com a solidão. Não uma solidão que assusta e que preenche os dias de coisas vazias mas uma solidão consciente, sã... uma solidão que já se tornou aliada contra o tempo! E o tempo, neste sítio, é vivido não em horas, minutos ou segundos mas antes em manhãs, tardes e noites...
Solidão, Silêncio e Tempo. Três palavras fantasmas do corre corre do nosso dia-a-dia: somos exigentes demais para estarmos sós, falamos bem demais para estarmos calados e somos reais demais para sermos efémeros como o tempo...
Pormenores...

Vinicius de Moraes

Eu sei e você sabe
Já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe
Que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos
Me encaminham a você.

Assim como o Oceano, só é belo com o luar
Assim como a Canção, só tem razão se se cantar
Assim como uma nuvem, só acontece se chover
Assim como o poeta, só é bem grande se sofrer
Assim como viver sem ter amor, não é viver
Não há você sem mim
E eu não existo sem você!

DIVAGAÇÕES


Longe de ti são ermos os caminhos,
Longe de ti não há luar nem rosas;
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!


Florbela Espanca

Silêncio

Quando estava a escrever o comentário para a Selene, abri o meu livro de “apontamentos”, o livro onde eu escrevo, onde eu escrevo o que leio e gostaria de ter escrito… Coisas do género… Pois bem, encontrei uma frase que diz tudo:

“ Bateram à porta, hesitei, não quis abrir… Bateram de novo, com mais força, mas depois não insistiram mais, desceram as escadas em silêncio… Para sempre partiram… Deixando estas palavras fatais “ Eu sou a Felicidade e não voltarei jamais”.

Num sentido mais pessoal, dirigido a alguém ( a pessoa saberá), não AL não é para ti…
Tiveste-me, completo…desde o cabelo mais rebelde à ponta das botas, até à última fibra de mim…Tiveste…Não mais voltarei…

Num sentido mais lato… Gozem a vida… Carpe Diem!

Ai Ai Ai

Após a tempestade vem a bonança…Suponho que deve dar ao contrário…Ou então, “ Azar ao jogo sorte no amor…”, “ Quem tudo quer tudo perde”…
O certo é que já tive dias melhores…para ajudar à festa não conseguia entrar no blog!

Porque te foste assim?

- Porque te foste assim? Não te despediste...
- Não sabia como!
- Não sabias como?! Como é isso possível? Não gostas de mim?
- Sim, demais.
- Não vais sentir saudades minhas?
- Vou, demasiadas.
- Não vais sentir pena de não te rires comigo?
- Sim, mas vou lembrar-me sempre do teu sorriso...
- Não me vais ver...
- Vou-te sentir ao meu lado todos os dias...
- És egoísta.
- Sou corajoso!
- Corajoso? Não. És cobarde. Foges dos problemas.
- Quero que entendas: desliguei-me da vida, desliguei-me de ti e de todos porque para mim a felicidade só é possível quando temos uma caminho pela frente e quando vale a pena tentar e arriscar... a mim não me restava nada! Apenas a morte...
- E vês-me a chorar?
- Vejo, sinto e choro contigo!
- É um sofrimento atroz... sabias? Saber que deveria ter-te dito mais vezes que te amava, que me fazias bem, que no teu colo encontrava a paz, que as tuas histórias me faziam sonhar, que o teu abraço era perfeito, que quando ralhavas ficavas vermelho de ira mas tinhas o coração apertado... dizer-te que eu era aquela princesa que falavas tanto... era eu, tenho a certeza... e as tuas cantigas perto do meu ouvido. Ainda sei a letra e hei-de cantá-las um dia.... Porque te foste assim?? Arrependo-me de tanta coisa que não fiz por ti...
- Senta-te no meu colo.
- Eu cresci.
- Eu sei mas senta-te no meu colo. Não envelheci.
- E posso ler-te um texto? Descobri-o para ti... e podias ter sido tu a escrevê-lo...
- Agora tenho todo o tempo do mundo... lê-o...
- E amanhã estarás cá?
- Estarei. Numa solidão acompanhada, numa existência permanente...

Se, por um instante ,Deus se esquecesse de que sou uma marionete de trapo e me presenteasse com um pedaço de vida,possivelmente não diria tudo o que penso,mas ,certamente pensaria tudo o que digo. Daria valor às coisas,não pelo o que valem, mas pelo que significam. Dormiria pouco,sonharia mais, pois sei que a cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz. Andaria quando os demais parassem, acordaria quando os outros dormem. Escutaria quando os outros falassem e gozaria um bom sorvete de chocolate. Se Deus me presenteasse com um pedaço de vida vestiria simplesmente , me jogaria de bruços no solo,deixando a descoberto não apenas meu corpo, como minha alma. Regaria as rosas com minhas lágrimas para sentir a dor dos espinhos e o encarnado beijo de suas pétalas. Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida!... Não deixaria passar um só dia sem dizer às gentes- te amo, te amo. Convenceria cada mulher e cada homem que são os meus favoritos e viveria enamorado do amor. Aos homens, lhes provaria como estão enganados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam de se apaixonar. A uma criança,lhe daria asas,mas deixaria que aprendesse a voar sozinha. Aos velhos ensinaria que a morte não chega com a velhice, mas com o esquecimento. Tantas coisas aprendí com vocês, os homens... Aprendí que todo mundo quer viver no cimo da montanha,sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a escarpa. Aprendí que quando um recém-nascido aperta com sua pequena mão pela primeira vez o dedo do pai, o tem prisioneiro para sempre. Aprendí que um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se. São tantas as coisas que pude aprender com vocês,mas,finalmente não poderão servir muito porque quando me olharem dentro dessa maleta,infelizmente estarei morrendo " GABRIEL GARCIA MARQUEZ

Comentando o texto da Selene

O homem sempre foi e sempre será mais aberto que a mulher, talvez por não ter receio de se magoar, por ter um espírito mais empreendedor, como disseste… romântico.
Penso que nós, os homens, nos aproximamos mais das crianças nesse aspecto, não no aspecto da infantilidade, mas sim da ingenuidade, o que um homem pede, luta, sua e sangra, é a nossa natureza.
Mas, sinceramente, algumas senhoras não percebem que apesar de aparentarmos espíritos de pedra, força de leão… sofremos. Certas coisas deveriam ser evitadas, outra retribuídas… tipo os telefonemas…LIGA-ME! ( brincando).
É tudo.
Muito obrigado… Adorei o texto :D

terça-feira, dezembro 19, 2006

Mulheres Vs Homens

Em tudo, mas em tudo mesmo, os homens são diferentes das mulheres! Ontem dei por mim a pensar que tanta diferença só pode realmente dar confusão…
Sou romântica. Admito! Gosto de tudo o que tenha a ver com actos de amor, de surpresa, de paixão e de erotismo… Chego a ser exigente com os pormenores… e normalmente é evidente que… me desiludo! Uma desilusão já esperada, confesso! Mas, e por muito que me custe a admitir, os homens são mais românticos do que as mulheres. Vejamos.
As mulheres gostam de surpresas, os homens gostam de surpreender;
as mulheres são envergonhadas nos seus desejos, os homens são exímios a revelá-los;
as mulheres escondem-se num “não” que significa (quase sempre) sim, os homens não se escondem em palavras e revelam-se em actos simples;
as mulheres são excelentes sonhadoras de fantasias, os homens também sonham mas procuram realizá-las;
a mulher, mesmo apaixonada, não se mostra, o homem fá-lo de uma forma natural e espontânea…

Na literatura temos alguns exemplos de textos românticos escritos por uma mulher e por um homem que denunciam claramente esta diferença…
Florbela Espanca dizia assim:

“Eu quero amar, amar perdidamente ! Amar só por amar: Aqui ... além... Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente ... Amar ! Amar! E não amar ninguém !”

Ok, ela quer amar! Entendido. Mas quem?? Faz de propósito… misteriosa como só as mulheres o sabem ser!!! E termina o poema com a palavra mais vaga do mundo… “ninguém”!!

Pablo Neruda, no entanto, disse assim:
“Do teu passado
Não tenho ciúmes.
Vem com um homem às costas,vem com cem homens nos cabelos,vem com mil homens entre o peito e os pés,vem como um rio cheio de afogados que encontra o mar furioso,a espuma eterna, o tempo!
Trá-los a todos ao lugar onde te espero:estaremos sempre sós,estaremos sempre, tu e eu,sozinhos sobre a terra para começar a vida!”

Directo. Não está a falar para as mulheres todas do mundo. Não. Nem sequer está a escrever para “ninguém”. Dirige-se simplesmente a uma. A eleita. Essa pode vir de qualquer maneira…
No fundo, e na minha humilde opinião (as mulheres que me perdoem), só os homens sabem realmente amar. Repito. Os homens quando amam é realmente de coração, alma e corpo… amam tudo. As mulheres dizem que amam mas, o que realmente importa, é sentirem-se “amadas”…

segunda-feira, dezembro 18, 2006

Perdi-me

Hoje acordei e senti-me... terrivelmente... só.
Sozinha num silêncio que só eu entendo, talvez porque os silêncios são pessoais e escondem-se atrás das palavras!
Pensei em chamar-te.
Pensei em quebrar este som sem som que se instalou na nossa cama.
Pensei em puxar-te para mim e dizer-te baixinho que me apetecia falar sobre qualquer coisa que ainda nos una.
Pensei em pensar em nós.
Pensei na primeira manhã de uma noite em claro, incomodada com os meus movimentos, cautelosos demais para não te acordarem.
Pensei nos teus olhos frios de luz, na tua boca seca de palavras, no teu cabelo com um odor que já não mais conheço.
Pensei na minha voz e na tua voz e nos caminhos onde já não se cruzam.
Tu estavas lá. Aninhado nos teus sonhos, dos quais não faço parte (alguma vez fiz?), enrolado num lençol desarrumado... como a nossa vida.
Olhei para ti na esperança de encontrar uma razão que me prendesse ao teu corpo e ao teu cheiro.
Toquei-te suavemente no ombro esperando encontrar o calor do teu abraço dos dias mais difíceis.
Sussurrei o teu nome e pacientemente aguardei uma palavra...
Então, o quarto, o nosso quarto, tornou-se demasiado pequeno e eu demasiado grande para caber nele.
Levantei-me e saí sabendo que o meu lugar na cama deixára de existir. Como eu. Como nós. Como a nossa vida.
No espelho, apenas uma prova da minha existência: um papel amarelo no qual escrevinhei: “Perdi-me e tu não me vais encontrar!!”.