quarta-feira, maio 16, 2007

É um rapaz…


Finalmente o excelentíssimo D. Afonso permitiu que o pai e a mãe pudessem vislumbrá-lo correctamente!
Pesa já duas mil e sessenta e sete gramas, tem cento e vinte batimentos cardíacos por minuto e encontra-se na posição ideal…tudo a caminhar bem para o dia vinte e sete de Julho…ou nas proximidades do mesmo…Qualquer que seja o dia…vai ser muito especial para nós.
Para ser sincero, era o rapaz que queríamos…claro que não se dizia a ninguém, nem um ao outro… “ Que venha com saúde…que seja boa pessoa!”…mas no fundo, sonhávamos com as roupinhas azuis e os carrinhos espalhados pela casa.

As tecnologias actuais dão aos pais um contacto com o bebé que há uns anos seria impossível de imaginar…eu garanto que vi as feições da mãe na carinha pequenina do meu filhote…mas ela diz que é parecido comigo…só no dia é que se verá.

Agora a questão em que os pais entram em acordo…Vai ser lindo!

sábado, maio 12, 2007

Os meus pais...

Esta é a primeira vez que escrevo um texto deste género. Uma homenagem??
Nunca antes os meus textos tiveram apenas um destinatário... os meus pais!! No entanto, agora, partilho-o convosco...

Amo-os da mesma forma. Com a mesma intensidade, admiração e respeito... mas o meu pai marcou-me, e marca-me, de uma forma especial. É o meu exemplo máximo. Representa aquilo que eu quero ser quando for grande.
Quando olhamos para o meu pai vemos um homem sério, a barba branca, meticulosamente aparada, confere-lhe aquele ar autoritário que nunca perdeu... os olhos são pequenos, castanhos, mas expressivos. Sabia perfeitamente interpretar os seus olhares e todas as mensagens que passavam sem proferir uma única palavra: “estás definitivamente de castigo” (mais vezes do que desejei), “horas de deitar”, “já estudou?”, “esta miúda dá-me cabo dos nervos”... e lembro-me com bastante frequência da frase dita por ele infinitamente: “Devia dar-te os parabéns?! Não. Os resultados são teus, para o teu bem. Fico feliz.” Muitas vezes o achei injusto e mau porque sobre as minhas falhas e os meus erros conversávamos sempre... sobre os meus sucessos nem por isso!!
A minha mãe é muito bonita e fica toda contente quando vamos a alguma loja e, enquanto ela experimenta uma roupa lhe perguntam: “ Quer que vá chamar a sua irmã para dar a sua opinião?”; “É minha filha e sim, pode chamá-la se faz favor.” É vaidosa, herdei isso dela, e diz que nunca tem nada para vestir apesar de ter um casaco para cada dia do mês, se assim o entendesse.
É uma verdadeira dona de casa, uma excelente cozinheira (nunca hei-de saber fazer um arroz como o dela) e, apesar de não ser muito dada a expressar os seus sentimentos, era a primeira a sair do trabalho a correr quando nos acontecia alguma coisa. Nunca me contou histórias, como o pai, mas ensinou-me a ser mulher.

Quando era ainda pequenina tinha medo de ficar sozinha no quarto. A minha irmã, mais valente, ficava sempre na sua cama em dias calmos ou de tempestade. Eu não. Nos dias de trovoada (ainda hoje fico nervosa), nas noites dos pesadelos, nas insónias, lá ía eu, de almofada em punho para a cama dos meus pais. O meu pai abraçava-me, contava-me uma história ao ouvido, adormecia e no dia seguinte acordava sempre na minha cama...
Enquanto adolescente dei-lhe algumas dores de cabeça. Nada de grave, sei-o hoje. Coisas de miúda que, sendo a mais nova, se queria impôr, redefinir e questionar regras antigas, galgar terreno nunca antes conquistado. Como me custou caro esta atitude, às vezes. “Esta miúda vai ser comunista”, brincava o pai... Era boa aluna apesar de não me dedicar como ele gostaria.
(fim do 2º Período Lectivo)
- Pai, hoje tenho treino.
- E?
- Levas-me?
- Qual foi a tua nota a Matemática?
- Mas às outras disciplinas tive 4s e 5s.
- Perguntei: qual foi a tua nota a Matemática.
- 2.
- Não preciso de dizer mais nada, pois não?
- Mas...
- Já devias saber distinguir um Não. (Com aquele ar impávido e sereno. Não valia a pena tentar mais. Era irredutível)
O meu treinador elogiava-me a velocidade de passe, a força, a garra... porém, uma boa andebolista, na opinião do pai, tem de ser boa aluna a Matemática. Esta disciplina destruiu a minha carreira desportista...
Saídas à noite. Pesadelo. Cheguei a escapar-me pela varanda do meu quarto à sucapa... (esqueci-me que ele vai ler isto). As minhas colegas saíam todas, encontravam-se com os rapazes, davam uns beijitos e eu em casa a olhar para a televisão!!??
- Pai, posso sair logo à noite?
- Vai falar com a tua mãe.
- Mãe, posso sair logo à noite?
- Vai falar com o teu pai.
- Posso decidir eu então?
(Nunca resultava!!) Era o jogo do empurra. Nem a minha irmã se chegava à frente. Raios!! Eu não queria propriamente estar colada a ela. Era só para o disfarce caramba!! Mas a minha irmã não ía em cantigas. Sabia que eu não era de confiar. As duas de manhã dela eram as minhas quatro!!
Resultado: varanda. Nunca fui apanhada. E feliz ficou o meu cão “Sebastião” com as bolachinhas extra. No íntimo ele adorava e ansiava pelas noites de sábado.

Hoje, já adulta, reconheço-lhes todas estas precauções e cuidados. Creio que, quando tiver um filho não mudarei muito a educação e as regras que me foram impostas. Cresci feliz, realizada e sei que a pessoa que sou hoje é exclusivamente mérito deles. Prezo todos os valores que me foram incutidos: o respeito pela diferença, a honestidade, a responsabilidade, o poder do sonho e das palavras, o saber chorar, o significado da palavra “ajudar”, os amigos...
- Estás a mentir.
- Não estou.
- Estás.
- Não estou.
- Se disseres a verdade eu vou ficar feliz...
- Pai, menti...
Apesar de abominar a palavra “mentira”, o meu pai nunca me castigou quando, finalmente, contava a verdade. E isso ensinou-me que dá trabalho mentir. É bem mais fácil dizer a verdade de uma vez por todas...

Há uma altura das nossas vidas que os papéis, inevitavelmente, se invertem. Antigamente cuidavam de mim, vigiavam-me os passos, preocupavam-se se comia, se dormia bem, ficavam doentes se me sentia menos bem... Hoje, assumo na plenitude o papel outrora protagonizado por eles. Vejo-os e sinto-os a envelhecer. E o meu coração envia-me sinais de aviso. Agora, o tempo, pode ser quase contabilizado e não consigo passar um dia sem lhes dizer: “Adoro-vos”...

E aquela música que a mãe nos ensinou...

“Quero levar-te para longe
a um lugar
Onde nunca na vida
Pensaste chegar
Construir um abrigo
Onde estejas comigo
E o teu nome ao vento
Bem alto
Gritar!
...”

sexta-feira, maio 11, 2007

Vem comigo


Vem comigo… ensinar-te-ei o que é amar para sempre.
…aprenderás a descodificar cada suspiro, cada palavra…dita ou não dita…a ouvir o sussurro mais longínquo.
Vem comigo e até o mais profundo sonho será realizado, só peço que venhas comigo. Confias em mim?
Dá-me a tua mão, dá-me todo o teu corpo…vou ensinar-te a sentir o que não imaginas ser possível sentir…mas tens de vir comigo.
Larga tudo…tudo o que te afasta de mim…eu tudo largarei, só para fugir contigo.
Que me dizes?
Vem, não precisamos de mais nada…apenas eu de ti…tu de mim, não negues.
Que me dizes?
Vem comigo, vamos abalroar fronteiras, cortar preconceitos, estabelecer novas metas…tu e eu, nada mais.
Prometo que te ensino a respirar o oxigénio dos abraços…a viver apenas de beijos e longas conversas…Mas tens de vir comigo!
Confias em mim?
Não voltaremos…jamais. Fecharemos portas aos sujeitos passados, rasgaremos as fotografias da mesinha de cabeceira…construiremos uma nova história, só nossa. Tu proteges-me, eu protejo-te…Vem comigo.
Levar-te-ei a lugares apenas palmilhados em sonhos…descobriremos as sensações perdidas…ou por descobrir…tu e eu…que me dizes? Vens comigo?
Dá-me a mão, o corpo, o teu ser… dar-te-ei tudo o que tenho e o que terei.
Vem comigo e far-te-ei feliz…sorrirás dia e noite…eu sorrirei só por te ver sorrir.
Confia em mim e ensinar-te-ei o que é amar para sempre.

quinta-feira, maio 10, 2007

Diz-me alguma coisa…


Diz-me alguma coisa…- pediu-me ela fitando o campo infinito à sua frente.
- Que tipo de coisa?
- Qualquer coisa.
- Não sei que te dizer…Que queres ouvir?
- Diz-me o que vez quando olhas para ali. – pediu apontando para a frente, onde o velho celeiro abandonado se erguia e abrangendo de seguida toda a vastidão verde.
Levantei-me ligeiramente e apoiei-me nos cotovelos, captando a paisagem que já sabia de cor.
- Vejo relva, árvores, pássaros…hum…um tronco caído, o ribeiro lá ao longe, vejo o céu azulinho…ah, vejo o celeiro. – Olhei para ela que continuava a olhar para a frente, sorvendo algo mais, algo que a fazia sorrir, não só com os lábios mas também com os olhos…aqueles olhos verdes e brilhantes que me encantavam. – Que vês tu? – perguntei, embevecido pelo seu sorriso.
Olhou para mim e depois apontou para o terreno do celeiro.
- Ali vejo uma casa…branca, de madeira. Pequenina, só tem um piso. – apontou para as “árvores gémeas”, que se erguiam uma em frente da outra. – Ali vejo uma rede para descansar numa tarde solarenga…Não ouves as gargalhadas?
Olhei para ela e novamente para a frente.
- São os meninos…estão a nadar no ribeiro.
Sorri e deitei-me para trás colocando um braço ao longo do corpo e outro na nuca. Ela imitou-me encostando a cabeça ao meu peito.
- Já ouço…- Disse passados uns minutos. – Estava distraído.


Passou-se mais ou menos dez anos.
O celeiro foi restaurado e agora está lá uma casa…branca, muito, muito, simples. Com o tempo vou trabalhar nela…
O ribeiro está mais pequeno e parece ficar mais distante…mas ainda é perfeito para nadar…Depois dos longos banhos nas águas frias, a rede “ olha” para nós como a pedir que nos deitemos…a vontade dela é quase sempre cumprida.
Não é O paraíso…mas é um local que aspira a isso.

quarta-feira, maio 09, 2007

Continuo desta forma:

Coisas que faço muito mal ou pessimamente:
- passar a ferro (por isso gosto mais do Inverno já que me preocupo mais com os colarinhos, afinal de contas a camisola tapa o resto)
- mudar pneus (que nome estranho deram àquela coisa que levanta o carro – macaco – faz-me logo lembrar algo que me irrita)
- esticar o cabelo (aqulas máquinas milagrosas das duas uma: ou são publicidade enganosa ou não funcionam nas minhas mãos. Estico à frente, tudo bem, encaracola atrás. Lindo!!)
- fazer a depilação com cera nas pernas (choro, faço caretas, grito, praguejo e, o resultado final, é quase sempre apenas uma perna depilada)
- feijoada ( não sei porque carga d’água o meu feijão desaparece sempre. E garanto-vos que ponho muito. Fica a carne, os chouriços, arroz... feijão, nem vê-lo!)
- escolher roupa de criança (a última prenda que dei a um bebé está a ser usada nos dias de hoje. Dois anos depois)
- dar indicações a pessoas que andam perdidas ( desconfio que os perdidos que me reencontrassem não me diriam palavras muito bonitas)
- beber vinho maduro (admito, não sei. Ao primeiro copo dá-me logo ganas de cantar o fado)
- maquiar-me (fico sempre com um aspecto duvidoso)


Coisas que me envergonham:
- corar (acontece sempre quando estou a ser observada e a tendência é a intensificar, para mal dos meus pecados) Nota: normalmente o corar acontece quando me maquio!!
- partir tacões e cair (aquela vez que caí aos joelhos de um colega fica para a história)
- ir com a cadela à rua, às seis da manhã, ainda a dormir, e ser “agrafada” por um vizinho no elevador (xiii)
- engasgar-me com água (ridículo)
- cometer gaffes ( como aquela em Cabo Verde. Sala cheia de gente local. Todos sentados. Dirijo-me à secretária e vejo que não tenho cadeira. Digo à minha colega, caboverdiana também, com o ar mais idiota do mundo: “E eu? Sou preta, não me sento?? – ai Jesus)

Coisas que me irritam:
- todas as que referiste Aquiles mais
- gente inconveniente (sem explicação possível)
- ver um homem a cuspir para o chão ( reco!!!!!)
- ouvir uma mulher a dizer palavrões (aos homens também não fica bem)
- sandes de presunto (será que ainda ninguém reparou que à primeira dentada o presunto desaparece?? É que é difícil cortar aquela coisa... depois fica só o pão!)
- praias cheias de gente (tanto espaço mas aquele casal, com dois filhos, um cão, quatro cadeiras, dois guarda-sóis, uma lancheira, e quatro sacos tem mesmo de se encostar à minha toalha. Tudo bem, eu até gosto do convívio mas... quero paz e só ouço roncos!)
- gente que rumina no cinema ( abaixo as pipocas e coca-colas. Aquele ruído tira-me do sério)
- o Pedro (irrita-me ao ponto de, cá no intimo, lhe chamar “pain in the ass”)
- gente que faz crochet (fico sempre com a sensação que sou pouco feminina já que as agulhas daquelas coisas, para mim, são pauzinhos)
- não acertar num único número no Euromilhões ( nem unzinho,nem estrelinha)

Coisas que me comovem:
- uma criança a sorrir (felicidade plena)
- um atleta ou equipa portuguesa a esforçar-se para ser o melhor (chorona até dizer chega durante o Euro, por exemplo)
- um bilhete que me deixaram no carro uma vez (“foi-se o tempo e a oportunidade, permanece o sonho e a saudade)
- o rosto do meu pai (como tem mudado!!!!)
- a força da minha mãe (Mulher!!)
- gente que deixa o conforto de uma vida para se dedicar a causas nobres e pessoas desfavorecidas (sinto-me verdadeiramente pequenina perante elas)
- o Natal (quanto mais não seja quando vejo o meu extracto bancário)

terça-feira, maio 08, 2007

7 coisas que

7 coisas que tenho que fazer antes de morrer:

- Ter pelo menos mais dois filhos ( não me mates querida);
- Escrever um livro ( e esperar que alguém o queira ler);
- Ver os meus filhos realizados em todos os níveis; ( o meu objectivo principal);
- Construir um villa na ilha onde nasci ( Sicília) para ter alguma independência;
- Aprender a pilotar; ( porque o céu é o limite);
- Chegar ao topo ( ou quase) da carreira militar.

7 coisas que eu mais digo:

- Café! ( Quase sempre quando entro no quartel);
- Porra! ( Tenho de melhorar o vocabulário)
- Estás aqui estás a beijar o alcatrão ( tipo eufemismo);
- Amo-te ( há quem diga que até enerva);
- Que Romântico ( quase sempre ironicamente…aprendi com uma amiga minha);
- Estou-me a passar; ( e quando digo isso já estou mesmo chateado);
- Porquê? ( Nunca deixei de ter três anos)

7 coisas que faço bem:
- Conduzir ;
- Contar histórias a criancinhas ( tadinhas, não são exigentes);
- Dormir ;
- Observar;
- Ficar horas deitado no sofá, com uma bebida quente à frente a conversar com a minha mulher ;
- Fazer sorrir as pessoas que gosto ( e vice-versa);
- Meninos loirinhos de olhos azuis! ( Muitos mais virão)

7 coisas que eu não faço:

- Correr atrás de autocarros ( está perdido…está perdido, outros virão);
- Responder a quem me grita ( pessoas que me gritam não têm interesse para mim);
- Perdoar quem me acusou injustamente ( É um principio meu, pode estar errado);
- Fumar ( Não vejo a lógica);
- Ficar quieto quando alguém está a magoar crianças, mulheres, velhotes e animais ( É um dever cívico ajudar nesses casos);
- Abandonar um amigo que precisa de ajuda ( nem comento);
- Trocar um fim de semana com a família por um fim de semana, teoricamente, perfeito ( sem eles nunca seria perfeito!)

7 coisas que me encantam:

- Ouvir o meu filho a dizer “ Calacolinos, clavelos amalelos e olos azulis!” ( Imaginem só);
- Ver a minha mulher a fazer cara de rufia ( Quem a conhece sabe que é algo interessante para se ver);
- Ouvir as gargalhadas dos meus camaradas ao almoço;
- Ver o meu mano a tentar convencer a namorada que gosta mais dela do que da consola ( hilariante);
- Encostar a cabeça à barriguinha da minha mulher e ouvir “ o Júnior” ( =D);
- Ler um bom livro;
- Sentir, ver e ouvir a alegria da família numa reunião familiar

7 coisas que odeio:

- Sentir que estou a ser usado;
- Gritos;
- Choradeiras;
- “Pitinhas histéricas” ( como diz a minha grande amiga);
- Peixe;
- Sargentos;
- Atrasos


Selene...Dás-me o prazer de ler as tuas respostas? Por favor? :D

Sentidos...

Uma vez ouvi alguém dizer que gostaria de escrever um livro sobre os sentidos. Duas pessoas que se amavam porém nenhuma delas tinha um sentido. Será possível? Creio que não. Como saberiam da presença uma da outra se não se ouviam, falavam, tocavam, sentiam, cheiravam e viam??? Hum, parece-me tarefa árdua falar do amor sem sentidos...
Cada vez que penso num homem, como homem, não o imagino sem sentidos bem como não o conheço com todos eles. Eu explico.
- Se um homem é bom ouvinte provavelmente falta-lhe o tacto das situações mais intimistas;
- se um homem é observador com toda a certeza não possuí o gosto das palavras mais doces e fortes;
- se um homem é institivo e sente o “odor” dos vários perigos que o rodeiam então muito provavelmente a sua visão estará limitada a um perimetro muito curto e de fácil alcance...
Mas se, por um dia, eu pudesse criar o homem ideal não seria perfeito porque a perfeição é uma chatice desmedida... teria defeitos, grandes e incomodativos e pequenos e insignificantes. Desenharia as suas qualidades. Mas como o meu forte nunca foi o desenho provavelmente sairia um rabisco pior do existente... No entanto, vou esforçar-me para fazer a receita sem falhar nenhum ingrediente. Sobre a mesa estão 5 taças. Cada uma delas contém um sentido e, como em qualquer cozinhado, é importante escolher a ordem dos condimentos bem como a quantidade. Fá-lo-ei à minha maneira, ao meu gosto e isso, inevitavelmente, não agradará a todos/as.

A minha primeira taça tem escrito “Visão”. Escolho este como o principal porque comparo-o ao “alho”: faz toda a diferença no tempero. Um homem sem poder de observação é como um carro sem velocidade. Aos seus olhos conferia o poder de ver tudo de todas as maneiras: do geral ao particular, do supérfluo ao importante, do grande ao pequeno, da marca ao pormenor. Ser-lhe-ía dada a capacidade de estudar as pessoas e os seus comportamentos, antecipando-lhes, invariavelmente, atitudes e até, quem sabe, pensamentos mais secretos. Como cozinheira tenho consciência que é um poder heróico este. Correria o risco de enfraquecer algumas mulheres que, muitas vezes, preferem passar despercebidas: pela manhã, com o cabelo desalinhado, a cara matinal, as calças que deveriam ficar melhor apesar de terem sido carííííssimas, a maquilhagem que borrou... Porém, esqueço estas pequenas desvantagens e continuo.
Pego na segunda taça. Escrito “Audição”. O alho ganha um sabor especial quando a ele se junta um pouco de azeite. Pois bem, a audição, neste caso, é o azeite. O alho funciona sozinho mas ganha um gosto especial quando tem por aliado o azeite de origem. Pode ser de Trás-os-Montes. Um exímio ouvinte. Que consegue ouvir até a conversa mais parva do mundo, que ouve atentamente as nossas dúvidas existenciais (como achas que devo cortar o cabelo, estou gorda?, esta ruga não estava aqui pois não?, vais gostar sempre de mim?, porque dizes que sim se não sabes?). Que saiba ouvir o nosso coração quando não nos apetece falar.
Parece-vos um cozinhado requintado demais???? Continuando...
A terceira taça não está cheia. “Tacto”. Alho, azeite e agora o vinho branco (vinagre????).Creio que ficam bem todos juntos. Este homem, munido deste ingrediente, teria umas mãos diferentes do comum dos mortais. Não apenas mãos para tocar nem braços para abraçar mas, antes, mãos para descobrir e redescobrir terreno, mãos e braços para emitir sinais de paz, tranquilidade, segurança... mãos e braços esclarecedores do que é o amor, a paixão, a química...
Restam duas taças. São especiarias. Raras. Podemos juntá-las porque os sabores são tão distintos que não se misturam. Distinguem-se. Pimenta da índia e tinta de lulas (dizem que é bom). Gosto e Olfacto respectivamente. Este teria um paladar requintado, saberia distinguir na íntegra os pormenores essenciais da vida, sentiria o cheiro do perigo antecipando-o e precavendo-se automaticamente. Conseguiria vislumbrar na penumbra de um quarto repleto de gente o perfume do meu corpo, bem como reconheceria, como a palma das suas mãos, o sabor dos meus lábios!

Para finalizar, acrescentaria uma mão cheia de sal (o colesterol não é para aqui chamado), uma malagueta do México (não vou explicar o óbvio) e tapava cuidadosamente. Reservava durante uns tempos para ganhar maturidade e...

Tolice, não é? Só escrevo disparates...

domingo, maio 06, 2007

Aquela janela...




Em qualquer história, real ou imaginária, há um espaço, um tempo e uma ou mais personagens que tocam, ao de leve, na virtualidade da vida, no seu lado mais sonhador e escondido.

Naquela casa há sem dúvida uma particularidade: uma janela. É grande, larga e de lá pode-se avistar o verde dos campos em volta... Apesar da proximidade com o bulício da cidade, aqui, neste espaço, ainda se pode respirar com tranquilidade, ainda se pode andar sozinho sem medo, ainda se ouvem os pássaros... Foi de certeza esta janela que a apaixonou naquela casa. Viu nela a sua escapatória para os seus momentos de instropecção, para a sua solidão consciencializada...
...ao lado da janela, estrategicamente colocada, está uma secretária. Nela, o computador... é aqui que ela se senta todos os dias. Coloca um CD na aparelhagem, música calma, e tranquilamente vai tocando no teclado, embalada pela música que escolheu.

O tempo. O tempo é o presente ou um passado muito recente. Tão recente que os dedos das mãos são suficientes para contar os dias... No entanto, caracterizar este tempo torna-se tarefa árdua. Os minutos transformaram-se inevitavelmente em horas, as horas cresceram para dias e estes evoluiram para anos. O tempo perde a sua definição porque na vida que envolve a personagem deixou de ter sentido. E importância...

Acordou cedo. Aliás, ultimamente, devido ao ritmo de trabalho, tem acordado sempre à mesma hora. Mas estava de férias. Depois de ter concluído todas as tarefas a que se propôs fazer, decidiu deitar-se um pouco no sofá, estender as pernas, deitar a cabeça nas almofadas e ficar ali... inerte, a brincar com o comando da televisão. Algumas tentativas falhadas de programas pouco convidativos e rendeu-se ao seu livro... Ela sempre gostou de ler. Diz, frequentemente, que é a sua forma predilecta de viajar. Porém, o livro pesava-lhe mais do que habitual. Lia desconcentradamente sendo obrigada a voltar atrás demasiadas vezes... Pousou o livro. Sobe as escadas e refugia-se na janela.

Os seus olhos ficam naquela casa, abandonada, no meio de nada. Às vezes imagina como terá sido a vida de quem ali viveu. Família numerosa, filhos pequenos, um cão... deviam ser felizes! Fica prostrada no sofá que colocou em frente à janela. Dobra as pernas e acende um cigarro. Permanece imóvel e em silêncio... quase consegue ouvir os batimentos do seu coração acomodado a uma calma que não gosta e que não o preenche. É um coração que nasceu para ser agitado, para chorar e rir com tudo e com quase nada... é um coração de repetidos esforços e de uma longa paciência. E de esperança...

Recolheu-se em si. A música que hoje seleccionou é calma o suficiente para ela fechar os olhos e materializar palavras dentro de si. O vazio ficou de repente a abarrotar de palavras que cumprem imediatamente a sua maior função: harmonizar o espírito de quem as recriou. Se pudesse voltava atrás... Não teria desaparecido sem deixar rasto. Se pudesse voltar umas horas, que seja, atrás, não teria dito o que disse... nem da forma como o fez!
Se os minutos pudessem ser parados ficaria nos braços dele por longos períodos. Adormeceria sentindo a sua respiração no cabelo e o peito nas suas mãos. Se as horas parassem de repente ficaria quieta, imóvel observando-lhe os movimentos: como olha para a televisão, como come, o sorriso, a forma natural com que sai do banho, despenteado e feliz... Se os dias parassem de um momento para o outro escolheria ficar sentada ao seu lado. Deixava que o mundo avançasse com a certeza que ambos o alcançariam quando acordassem do estado de inércia. De todos os motivos que ele tem para não a amar, ela mostrar-lhe-ía apenas aquele que ele tem para amá-la...

Mas, hoje, está simplesmente sentada naquele sofá com vontade de esquecer o mundo, de esquecer o que a boca disse mas o coração não sentiu...

“Assim que se olharam, amaram-se; assim que se amaram, suspiraram; assim que suspiraram, perguntaram-se um ao outro o motivo; assim que descobriram o motivo, procuraram o remédio.”
(Shakespeare)





quinta-feira, maio 03, 2007

As coisas que me irritam ( Take 2)


- Fico irritado quando o computador vai a baixo e eu estou a escrever alguma coisa importante. ( Principalmente quando não me lembro de tudo o que escrevi)

- Pessoas adultas a mascar pastilha elástica com a boca aberta e a fazer balões como as crianças. ( Então aquelas que se sentam à minha frente…parece que estão a gozar com a minha cara)

- Irritam-me os “brancos” que querem a toda a força parecer “ pretos” ( não sou muito racista mas isso irrita-me profundamente)

- Odeio a falta de pontualidade dos transportes públicos ( Se um comboio sai às 14:15 é certo e sabido que não arranca antes das 14:22)

- Fico enervado com os amasses desenfreados dos casais em locais públicos ( Arranjem um quarto…não sou adepto de novelas mexicanas em directo)

- Moedas de um e dois cêntimos ( as máquinas automáticas não aceitam moedas de um e dois cêntimos, os comerciantes não gostam de receber essas moedas…Porque não as tiram de circulação??)

- Mulheres que gritam por tudo e por nada ( Como diz uma amiga minha, as “pitinhas histéricas”… “aiiiiiiii um carro”… “aiiiiiiiii o céu é azul”…por favor…cuidado com os gritos perto de mim)

- Irritam-me os jornalistas, escritores, ou genéricos que assassinam o português diariamente. ( Não os ensinam a falar na Universidade?)

- Irritam-me as pessoas que dizem bófia em vez de polícia ( Fico mesmo ofendido…não percebo qual a razão de tal acto!)

- Fico chateado quando chove e eu não estava à espera ( Ou seja… quando apanho uma molha)

- Pessoas que cancelam os compromissos cinco minutos antes ( Cancelem pelo menos com três horas…posso ter outros planos)

- Irritam-me os fanáticos religiosos ( “ Aiiiiiii minha nossa senhora de Fátima me acuda…caiem os santinhos todos do altar com tal heresia filho! És o anticristo!” ...Ainda por cima são histéricas)

- José Saramago irrita-me ( Só vem a Portugal receber prémios e despejar literatura “massuda”…os lucros são gozados em Espanha)

- Irritam-me as pessoas burras que querem a toda a força dizer alguma coisa…( depois dizem coisas assim : “Lavoisier foi guilhotinado por ter inventado o oxigénio.”)

É melhor parar por aqui…pelo menos por hoje.

segunda-feira, abril 30, 2007

Recuso-me a dar titulo...


Selene?
Andamos trocados...quando eu acordo tu adormeces :D

sexta-feira, abril 20, 2007

Sete horas

Tenho sete horas antes do despertador romper o silêncio com o seu toque estridente…Se olhar novamente já não vou ter as sete horas…menos um minuto.
Também vos acontece?
Deitam-se na cama e sabem que não vão dormir mais que sete horas, aconteça o que acontecer…não dormem mais que sete horas.
Mexem-se na cama, o sono não vem, a impaciência acumula-se e o cansaço faz latejar a cabeça…mas o sono não vem. Olham para o lado, ela dorme calmamente…Viram-se e olham novamente para o relógio, mais dez minutos que se perderam em divagações, mas o sono…esse não vêm. Ouvem o respirar calmo próprio do sono profundo.
No vosso intimo pedem para que vos deixem dormir as sete horas…pronto…as seis horas e quarenta minutos que vos restam…olham para o telemóvel, querem desligá-lo mas não podem…”deixa-me dormir as minhas sete horas” pensam sem parar.
Viram-se e voltam-se a virar, o olhar viaja pelo velho triângulo, o relógio, ela e o telemóvel. Procuram conforto junto à pessoa ao vosso lado…acalmam e adormecem. Sonham com tudo menos com as sete horas de sono.
Acordam…o telemóvel vibra, as luzes brilham..
“ Estou…”, dizem para o telemóvel, do outro lado a voz fala, calma, pausada e profundamente, como se vos quisesse adormecer. “ OK.”, respondem vocês finalmente…sete horas…sete horas, pensam.
Olham para o lado, a respiração calma, o peito a subir e a descer…
“ Querida, tenho de ir…”
Também vos acontece?

quarta-feira, abril 18, 2007

Eu estou grávido!



Nunca pensei dizer tal coisa. Mas agora digo e volto a dizer…eu…estou GRÁVIDO!
No passado, que não é assim tão longínquo embora pareça, encarava as grávidas como mulheres calminhas, necessitadas de carinho e atenção, que facilmente ficavam deprimidas…ok…estava muito, muito, enganado.
Eu fui com minhas ideias preconcebidas, li o manual “ De solteirão para pai de família” de trás para a frente mais de três vezes, fiz sondagens, aceitei sugestões, preparei-me para me tornar sócio da loja de chocolates e da florista…estava muito, muito enganado.
Como já devem ter reparado, quando se vê um casal de futuros papás a mãe vem à frente, linda, esbelta, cabelo todo arranjado, roupa perfeitamente engomada…resumindo perfeita…e o papá vem atrás, imaginem comigo… olheiras do tamanho de rodas de automóvel, cara encovada de quem não consegue dormir só de pensar que alguma coisa pode acontecer, cabelo desalinhado, roupa amarrotada, colado aos pés da mulher como quem amparada uma criança endiabrada…Acabei de vos pintar um retrato de família.
A grávida que eu tanto amo está durona como sempre, aprecia a atenção, é certo…calminha??? NÃO! A minha grávida tem um humor tão oscilante como o mercado do petróleo…varia com o tempo, com as quantidades de atenção oferecida, as quantidades de afecto procurada e com a disponibilidade de negociação. Passo a exemplificar:

(Eu) – Gosto da tua camisola vermelha…fica-te bem!
( Ela) – Pensando melhor…acho que vou vestir a azul…

(Ela) – Não me apetece ficar em casa hoje…está um dia tão bonito!
( Eu) – Podemos ir dar uma volta.
( Passado meia hora, preparados para sair)
( Ela) – Afinal...acho que é melhor deixar-mos o passeio para outro dia. Podíamos ver um filme.

Eu TENTO, Mas a minha amada grávida é uma mulher especial e até neste período de fragilidade tem de ser especial…
Posso esquecer as tardes calmas no sofá ( pés inchados???), as idas apressadas à loja dos chocolates, os elogios constantes…Vamos ao ginásio, compremos iogurtes e…sejamos como sempre.
Estou a adorar estar grávido e partilhar isso com a minha mulher.

domingo, abril 15, 2007

Tempo ( Isto de dar titulos está a dar cabo de mim!)

Há uns anos, quando ainda estava na academia, um instrutor, no primeiro dia de aulas, aproximou-se da turma e disse:
“ O que vocês fizeram, foram ou pensaram antes não me interessa…o que vão fazer, pensar ou ser no futuro não me interessa... Quero saber o que são hoje, ver o que fazem hoje e adivinhar o que estão a pensar agora. O amanhã pode não existir…provem-me hoje que merecem a farda que envergam!”
Naquela altura a frase caiu em saco roto…turma de infantaria, terra à terra…os “sabe tudo, faz tudo” da zona, encaráramos aquela frase como um mero incentivo, algo que nos fizesse correr mais rápido, suar menos e vencer.
Agora, passados alguns anos, faço questão de passar a mensagem.
Tudo o que fazemos hoje vai influenciar o amanhã e foi, de alguma maneira, influenciado pelo que fizemos ontem. A nossa vida não é um mero filme, não podemos carregar no botão de pause cada vez que estamos aborrecidos ou temos algo melhor para fazer…não a podemos acelerar para alcançar os objectivos mais rapidamente…não se saltam os intervalos ou as partes mortas…e, infelizmente, não podemos andar para trás e emendar os nossos erros.
A vida não pode ser planeada…não podemos contabilizar quantas lágrimas vamos verter, quantas dores de cabeça nos vão impedir de avançar, quantos obstáculos vamos ter pela frente…a vida é um sistema aberto, somos influenciados por pessoas que amamos e por pessoas que não conhecemos. Como um soldado que não contabiliza as balas, o homem não contabiliza as alegrias e as tristezas…mas umas balas provocam mais estragos que outras.
Numa maneira rude, aquele militar tentou passar-nos a sua mensagem, uns captaram…outros não. Eu, ainda estou na dúvida.

sexta-feira, abril 13, 2007

Tu sabes que é verdade

Hoje é um dia especial, como vai ser o dia de amanhã, o depois de amanhã e todos os dias depois desse. Para pensar, falar ou escrever a pensar em ti não é preciso ser um dia diferente…basta acordar de manhã, saber, mesmo sem olhar, que estás lá, quase a acordar e a dizer “ Epah! Já é de manhã? Bora fazer greve!”.
Como diz a música “ Não há nenhum amor como o teu amor”, aprendi, não digo que facilmente, todas as tuas rotinas…o que fazes de manhã, a ordem como o fazes, aprendi a distinguir todos os teus sorrisos, todos os teus gestos e, principalmente, todos os teus olhares.
“Tudo o que faço, faço por ti”…mesmo aquelas coisas que tu não gostas que eu faça.
Não gostas que eu te abra a porta, ou que te ajude a pegar na pasta, “ Não sou aleijada, Tenente…”, como disseste a primeira vez que nos vimos…Odeias as crises de ciúmes, infelizmente eu não consigo evitar pegar em alguns moços pelos colarinhos. Também sei que não gostas que te peça para abrandares quando trabalhas de mais…mas faço-o por vocês.
Acredita que todos os dias tento adequar um pouco o meu feitio…tento ser mais calmo, menos ciumento, mais atencioso…não tenho conseguido grandes melhorias, mas tu continuas aqui, agradeço-te por isso ( à minha maneira).
Temos os nossos problemas…atiramos as nossas almofadas, batemos portas, batemos com a cabeça na parede, mas não se pode dizer que não temos tentado, mesmo quando o mundo exterior nos conduz para o “fundo do túnel”.
Será que sabes o quanto te amo? Quando o trabalho me chama, naqueles momentos antes da adrenalina explodir, é essa questão que me vem à cabeça…será que sabes o quanto te amo? Se algo me acontecesse nesses momentos saberias que faria tudo para te manter comigo?

“ Sim…eu lutaria por ti, morreria por ti!”

segunda-feira, abril 09, 2007

Boas!

Estou aqui...

Tenho tido muito trabalho e um novo extra, muito positivo, para me preocupar :D.

Charles Chaplin

"Já perdoei erros quase imperdoáveis,
tentei substituir pessoas insubstituíveis
e esquecer pessoas inesquecíveis.

Já fiz coisas por impulso,
já me decepcionei com pessoas quando nunca pensei me decepcionar, mas também decepcionei alguém.

Já abracei pra proteger,
já dei risadas quando não podia,
fiz amigos eternos,
amei e fui amado,
mas também já fui rejeitado,
fui amado e não amei.

Já gritei e pulei de tanta felicidade,
já vivi de amor e fiz juras eternas,
“quebrei a cara muitas vezes”!

Já chorei ouvindo música e vendo fotos,
já liguei só para escutar uma voz,
me apaixonei por um sorriso,
já pensei que fosse morrer de tanta saudade
e tive medo de perder alguém especial (e acabei perdendo).

Mas vivi, e ainda vivo!
Não passo pela vida…
E você também não deveria passar!

Viva!
Bom mesmo é ir à luta com determinação,
abraçar a vida com paixão,
perder com classe
e vencer com ousadia,
porque o mundo pertence a quem se atreve
e a vida é “muito” pra ser insignificante.

« Charles Chaplin, 1889 - 1977
Quintus Horatius Flaccus »

quinta-feira, abril 05, 2007

O meu Tempo...

Frequentemente me perco nas ruas desta cidade. Não é minha. Não foi aqui que cresci. Ela não me conhece. Muitas vezes me dou conta da minha pequenez quando ando por aí...
No lugar onde cresci era díficil conseguir descortinar este tipo de coisas. Ao virar de uma esquina estava sempre alguém conhecido. Alguém que me perguntasse como estavam as coisas. Alguém que retribuisse o meu sorriso... alguém familiar...
Viver numa cidade grande, viver a correr, viver sem tempo, viver para o trabalho, casa, trabalho, definitivamente... não cabe em mim!!!
Eu gosto do meu tempo. Aquele que é exclusivamente meu e que faço questão de não o partilhar com ninguém. Não é egoísmo. É apenas um preservar de algo construído por mim, à medida certa...
é ficar em silêncio, durante largos minutos, na varanda da minha casa, a olhar para longe e fumar um cigarro calmamente...
é passear o cão, respeitando e seguindo os seus passos, sendo guiada exclusivamente por ele... é chegar a casa, descalçar-me, tirar a roupa, pôr a música alto e dançar até me doerem os pés...
é tomar um banho, demoradooooooo, fechar os olhos e deixar que a água toque suavemente na face...
é ler um livro com as pernas dobradas no sofá e com a cabeça deitada nas almofadas...
é comer chocolate até doer a barriga...
é olhar-me ao espelho com e sem vaidade, tentando perceber o que já mudou no meu corpo...
é beber champanhe sem razão nenhuma, só porque me apetece...
é ouvir uma daquelas músicas que já quase ninguém ouve e chorar porque o coração parece pequenino demais...
é ficar calada. Não dizer uma palavra simplesmente porque não me apetece falar. Quero ouvir apenas a voz que há cá dentro...
é recordar aqueles que já passaram na minha vida e que se foram por esta ou por aquela razão... ou até sem razão nenhuma...
é fazer instrospecções tentando compreender o que poderei fazer melhor com o intuito de me tornar numa pessoa melhor...
é respeitar a minha solidão, conferir-lhe tanta importância como aquela que dou aos momentos em que me encontro rodeada de gente...
No fundo, na nossa relação pessoal, o poder que esta cidade tem é... nenhum. Não me dá minutos para me dedicar a mim própria, não me deixa respirar como gostaria, não me dá espaço, nem liberdade, portanto a sua força é nula...
Só sentimos a força e o poder de alguma coisa ou de alguém quando nos vemos a crescer e a evoluir. E eu sinto-me cada vez mais pequenina...

(Onde andas tu Aquiles??!!)

sexta-feira, março 09, 2007

Porque

'Porque os outros se mascaram e tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos calados
Onde germina calada podridão
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos
Porque os outros calculam mas tu não.'

Sophia de Mello Breyner Andresen


Parece que foi escrito a pensar numa pessoa que eu conheço :D

sábado, março 03, 2007

Destinos...

Momentos há na vida em que pensamos ter tudo sob controle. Está tudo nas nossas mãos. Pois bem, para quem tem os dias equilibrados por rotinas, para quem pensa mil e uma vezes antes de agir, para quem calca cuidadosamente o chão onde pisa, para quem nunca é sobressaltado por precipitações ou actos inusitados, cá vai a bomba...
A VIDA É AREGRADA.
Não adianta. Não vale a pena. Somos levados pura e simplesmente por algo que nos marca e segue: o destino.
Acredito que há um destino para cada uma das vidas que surge todos os dias. Caso contrário porque razão não fui naquele autocarro,(depois de ter esperado horas por ele e, por ter adormecido, não ocupei o meu lugar), que uns kms mais à frente se despistou e foi por uma ribanceira abaixo, ferindo alguns ocupantes??!!
Então e aquela vez que me cruzei na rua contigo, naquela tarde de véspera de Natal, nós os dois atulhados de sacos, e nos olhámos, primeiro seriamente, depois mais descontraidamente para logo a seguir nos “agarrarmos” a uma vida que deixou de ser só tua ou minha, passando inevitavelmente a ser nossa??!
O fado, destino, caminho traçado que todos temos pode, no entanto, ser contornado algumas vezes... Porém, são apenas curvas maldosas, enganadoras, porque o percurso é sempre o mesmo e possui igualmente o mesmo fim...
Somos nós quem constrói o nosso futuro?? Não acredito. Não tivemos interferência no nosso passado mais antigo, temos implicações nas acções do dia a dia do presente embora o façamos de forma quase transparente e indelével. Mas, relativamente ao futuro, é o “esperar e ver”. Escolhemos uma carreira pensando que é o que nos realiza hoje, amanhã não sabemos. Encontramos alguém que nos preenche e completa hoje, amanhã não fazemos a mínima ideia se nos sentiremos vazios novamente.
Decidimos aquilo que entendemos de “melhor” para os nossos... pensamos, estudamos, vemos e analisamos e chegamos a conclusões óbvias, logo viáveis. Pois, mas o que é evidente e claro hoje, amanhã poderá ser subjectivo e obsoleto...
Portanto, só uma coisa a fazer: viver cada minuto, cada segundo, cada inspiração de ar como se fosse a nossa última oportunidade de nos olharmos ao espelho. Viver sem pensar demasiado. Viver de precipitações e impulsos. Aproveitar cada uma das pessoas que nos amam, amá-las e deixar que elas nos amem. Aprender todos dias algo de novo e, no fim do dia, partilhá-lo com alguém porque não sabemos se amanhã cá estaremos para o fazer. Dividir sorrisos, lágrimas, forças e fragilidades sem medo de sermos catalogados.
Viver é tão difícl. Não é só respirar.
Partilho um poema de Alberto Caeiro. Penso que ele seria feliz. Creio que a sua capacidade para não pensar, o tornou num ser mais perto da Natureza, em comunhão perfeita com ela...

“Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar... “

domingo, fevereiro 25, 2007

O meu espaço especial


Inspirado pela música fiquei a pensar no meu “espaço especial”, mais correctamente, o Nosso espaço especial.
Se observar o local diria que é um pouco primitivo, nada, mesmo nada romântico…mas foi ali que, mesmo teatralmente, tudo começou.
A privacidade era inexistente, o ambiente era péssimo ( e Tu sabes), a ocasião era muito aborrecida…estávamos a trabalhar, mal nos conhecíamos…
Quantas vezes depois daquele dia chuvoso lá passei simplesmente para observar.
Passados mais de três anos ainda consigo abstrair-me de tudo e projectar naquela parede o que passamos, como se de um filme se tratasse, consigo visualizar a cor do teu blusão, consigo distinguir os aromas do teu perfume, consigo, facilmente, ouvir o que me disseste, como um sussurro, é certo, mas oiço…
Lembro-me também muito bem que naquele momento não significou muito para mim, é verdade, não conseguimos perceber naquele momento que aquela encenação “privada” ia fazer com que tantas emoções fluíssem.
Mesmo assim, acho que se pudesse recuar no tempo não tinha mudado o local, não tinha pedido um dia de sol, um espaço mais intimo…queria tudo igual.
Quando falamos daquele dia não referimos o que aconteceu depois, não falamos das portas que bateram, dos gritos que se ouviram…só falamos daquela pequena esquina, daquela rua escura, do bairro perigoso, e, claro, do que entre nós se passou…Falamos disso porque é o que importa, como se costuma dizer, gravamos o que mau se passa na areia e o melhor em pedra…Tu estás cravada no meu coração…que não é de pedra porque te conheci….e se de cada vez que penso em ti, em nós me caísse um pedaço…neste momento eu não existia. O resto é história…é privado...mais importante ainda, Tu sabes.