sábado, maio 12, 2007

Os meus pais...

Esta é a primeira vez que escrevo um texto deste género. Uma homenagem??
Nunca antes os meus textos tiveram apenas um destinatário... os meus pais!! No entanto, agora, partilho-o convosco...

Amo-os da mesma forma. Com a mesma intensidade, admiração e respeito... mas o meu pai marcou-me, e marca-me, de uma forma especial. É o meu exemplo máximo. Representa aquilo que eu quero ser quando for grande.
Quando olhamos para o meu pai vemos um homem sério, a barba branca, meticulosamente aparada, confere-lhe aquele ar autoritário que nunca perdeu... os olhos são pequenos, castanhos, mas expressivos. Sabia perfeitamente interpretar os seus olhares e todas as mensagens que passavam sem proferir uma única palavra: “estás definitivamente de castigo” (mais vezes do que desejei), “horas de deitar”, “já estudou?”, “esta miúda dá-me cabo dos nervos”... e lembro-me com bastante frequência da frase dita por ele infinitamente: “Devia dar-te os parabéns?! Não. Os resultados são teus, para o teu bem. Fico feliz.” Muitas vezes o achei injusto e mau porque sobre as minhas falhas e os meus erros conversávamos sempre... sobre os meus sucessos nem por isso!!
A minha mãe é muito bonita e fica toda contente quando vamos a alguma loja e, enquanto ela experimenta uma roupa lhe perguntam: “ Quer que vá chamar a sua irmã para dar a sua opinião?”; “É minha filha e sim, pode chamá-la se faz favor.” É vaidosa, herdei isso dela, e diz que nunca tem nada para vestir apesar de ter um casaco para cada dia do mês, se assim o entendesse.
É uma verdadeira dona de casa, uma excelente cozinheira (nunca hei-de saber fazer um arroz como o dela) e, apesar de não ser muito dada a expressar os seus sentimentos, era a primeira a sair do trabalho a correr quando nos acontecia alguma coisa. Nunca me contou histórias, como o pai, mas ensinou-me a ser mulher.

Quando era ainda pequenina tinha medo de ficar sozinha no quarto. A minha irmã, mais valente, ficava sempre na sua cama em dias calmos ou de tempestade. Eu não. Nos dias de trovoada (ainda hoje fico nervosa), nas noites dos pesadelos, nas insónias, lá ía eu, de almofada em punho para a cama dos meus pais. O meu pai abraçava-me, contava-me uma história ao ouvido, adormecia e no dia seguinte acordava sempre na minha cama...
Enquanto adolescente dei-lhe algumas dores de cabeça. Nada de grave, sei-o hoje. Coisas de miúda que, sendo a mais nova, se queria impôr, redefinir e questionar regras antigas, galgar terreno nunca antes conquistado. Como me custou caro esta atitude, às vezes. “Esta miúda vai ser comunista”, brincava o pai... Era boa aluna apesar de não me dedicar como ele gostaria.
(fim do 2º Período Lectivo)
- Pai, hoje tenho treino.
- E?
- Levas-me?
- Qual foi a tua nota a Matemática?
- Mas às outras disciplinas tive 4s e 5s.
- Perguntei: qual foi a tua nota a Matemática.
- 2.
- Não preciso de dizer mais nada, pois não?
- Mas...
- Já devias saber distinguir um Não. (Com aquele ar impávido e sereno. Não valia a pena tentar mais. Era irredutível)
O meu treinador elogiava-me a velocidade de passe, a força, a garra... porém, uma boa andebolista, na opinião do pai, tem de ser boa aluna a Matemática. Esta disciplina destruiu a minha carreira desportista...
Saídas à noite. Pesadelo. Cheguei a escapar-me pela varanda do meu quarto à sucapa... (esqueci-me que ele vai ler isto). As minhas colegas saíam todas, encontravam-se com os rapazes, davam uns beijitos e eu em casa a olhar para a televisão!!??
- Pai, posso sair logo à noite?
- Vai falar com a tua mãe.
- Mãe, posso sair logo à noite?
- Vai falar com o teu pai.
- Posso decidir eu então?
(Nunca resultava!!) Era o jogo do empurra. Nem a minha irmã se chegava à frente. Raios!! Eu não queria propriamente estar colada a ela. Era só para o disfarce caramba!! Mas a minha irmã não ía em cantigas. Sabia que eu não era de confiar. As duas de manhã dela eram as minhas quatro!!
Resultado: varanda. Nunca fui apanhada. E feliz ficou o meu cão “Sebastião” com as bolachinhas extra. No íntimo ele adorava e ansiava pelas noites de sábado.

Hoje, já adulta, reconheço-lhes todas estas precauções e cuidados. Creio que, quando tiver um filho não mudarei muito a educação e as regras que me foram impostas. Cresci feliz, realizada e sei que a pessoa que sou hoje é exclusivamente mérito deles. Prezo todos os valores que me foram incutidos: o respeito pela diferença, a honestidade, a responsabilidade, o poder do sonho e das palavras, o saber chorar, o significado da palavra “ajudar”, os amigos...
- Estás a mentir.
- Não estou.
- Estás.
- Não estou.
- Se disseres a verdade eu vou ficar feliz...
- Pai, menti...
Apesar de abominar a palavra “mentira”, o meu pai nunca me castigou quando, finalmente, contava a verdade. E isso ensinou-me que dá trabalho mentir. É bem mais fácil dizer a verdade de uma vez por todas...

Há uma altura das nossas vidas que os papéis, inevitavelmente, se invertem. Antigamente cuidavam de mim, vigiavam-me os passos, preocupavam-se se comia, se dormia bem, ficavam doentes se me sentia menos bem... Hoje, assumo na plenitude o papel outrora protagonizado por eles. Vejo-os e sinto-os a envelhecer. E o meu coração envia-me sinais de aviso. Agora, o tempo, pode ser quase contabilizado e não consigo passar um dia sem lhes dizer: “Adoro-vos”...

E aquela música que a mãe nos ensinou...

“Quero levar-te para longe
a um lugar
Onde nunca na vida
Pensaste chegar
Construir um abrigo
Onde estejas comigo
E o teu nome ao vento
Bem alto
Gritar!
...”

sexta-feira, maio 11, 2007

Vem comigo


Vem comigo… ensinar-te-ei o que é amar para sempre.
…aprenderás a descodificar cada suspiro, cada palavra…dita ou não dita…a ouvir o sussurro mais longínquo.
Vem comigo e até o mais profundo sonho será realizado, só peço que venhas comigo. Confias em mim?
Dá-me a tua mão, dá-me todo o teu corpo…vou ensinar-te a sentir o que não imaginas ser possível sentir…mas tens de vir comigo.
Larga tudo…tudo o que te afasta de mim…eu tudo largarei, só para fugir contigo.
Que me dizes?
Vem, não precisamos de mais nada…apenas eu de ti…tu de mim, não negues.
Que me dizes?
Vem comigo, vamos abalroar fronteiras, cortar preconceitos, estabelecer novas metas…tu e eu, nada mais.
Prometo que te ensino a respirar o oxigénio dos abraços…a viver apenas de beijos e longas conversas…Mas tens de vir comigo!
Confias em mim?
Não voltaremos…jamais. Fecharemos portas aos sujeitos passados, rasgaremos as fotografias da mesinha de cabeceira…construiremos uma nova história, só nossa. Tu proteges-me, eu protejo-te…Vem comigo.
Levar-te-ei a lugares apenas palmilhados em sonhos…descobriremos as sensações perdidas…ou por descobrir…tu e eu…que me dizes? Vens comigo?
Dá-me a mão, o corpo, o teu ser… dar-te-ei tudo o que tenho e o que terei.
Vem comigo e far-te-ei feliz…sorrirás dia e noite…eu sorrirei só por te ver sorrir.
Confia em mim e ensinar-te-ei o que é amar para sempre.

quinta-feira, maio 10, 2007

Diz-me alguma coisa…


Diz-me alguma coisa…- pediu-me ela fitando o campo infinito à sua frente.
- Que tipo de coisa?
- Qualquer coisa.
- Não sei que te dizer…Que queres ouvir?
- Diz-me o que vez quando olhas para ali. – pediu apontando para a frente, onde o velho celeiro abandonado se erguia e abrangendo de seguida toda a vastidão verde.
Levantei-me ligeiramente e apoiei-me nos cotovelos, captando a paisagem que já sabia de cor.
- Vejo relva, árvores, pássaros…hum…um tronco caído, o ribeiro lá ao longe, vejo o céu azulinho…ah, vejo o celeiro. – Olhei para ela que continuava a olhar para a frente, sorvendo algo mais, algo que a fazia sorrir, não só com os lábios mas também com os olhos…aqueles olhos verdes e brilhantes que me encantavam. – Que vês tu? – perguntei, embevecido pelo seu sorriso.
Olhou para mim e depois apontou para o terreno do celeiro.
- Ali vejo uma casa…branca, de madeira. Pequenina, só tem um piso. – apontou para as “árvores gémeas”, que se erguiam uma em frente da outra. – Ali vejo uma rede para descansar numa tarde solarenga…Não ouves as gargalhadas?
Olhei para ela e novamente para a frente.
- São os meninos…estão a nadar no ribeiro.
Sorri e deitei-me para trás colocando um braço ao longo do corpo e outro na nuca. Ela imitou-me encostando a cabeça ao meu peito.
- Já ouço…- Disse passados uns minutos. – Estava distraído.


Passou-se mais ou menos dez anos.
O celeiro foi restaurado e agora está lá uma casa…branca, muito, muito, simples. Com o tempo vou trabalhar nela…
O ribeiro está mais pequeno e parece ficar mais distante…mas ainda é perfeito para nadar…Depois dos longos banhos nas águas frias, a rede “ olha” para nós como a pedir que nos deitemos…a vontade dela é quase sempre cumprida.
Não é O paraíso…mas é um local que aspira a isso.

quarta-feira, maio 09, 2007

Continuo desta forma:

Coisas que faço muito mal ou pessimamente:
- passar a ferro (por isso gosto mais do Inverno já que me preocupo mais com os colarinhos, afinal de contas a camisola tapa o resto)
- mudar pneus (que nome estranho deram àquela coisa que levanta o carro – macaco – faz-me logo lembrar algo que me irrita)
- esticar o cabelo (aqulas máquinas milagrosas das duas uma: ou são publicidade enganosa ou não funcionam nas minhas mãos. Estico à frente, tudo bem, encaracola atrás. Lindo!!)
- fazer a depilação com cera nas pernas (choro, faço caretas, grito, praguejo e, o resultado final, é quase sempre apenas uma perna depilada)
- feijoada ( não sei porque carga d’água o meu feijão desaparece sempre. E garanto-vos que ponho muito. Fica a carne, os chouriços, arroz... feijão, nem vê-lo!)
- escolher roupa de criança (a última prenda que dei a um bebé está a ser usada nos dias de hoje. Dois anos depois)
- dar indicações a pessoas que andam perdidas ( desconfio que os perdidos que me reencontrassem não me diriam palavras muito bonitas)
- beber vinho maduro (admito, não sei. Ao primeiro copo dá-me logo ganas de cantar o fado)
- maquiar-me (fico sempre com um aspecto duvidoso)


Coisas que me envergonham:
- corar (acontece sempre quando estou a ser observada e a tendência é a intensificar, para mal dos meus pecados) Nota: normalmente o corar acontece quando me maquio!!
- partir tacões e cair (aquela vez que caí aos joelhos de um colega fica para a história)
- ir com a cadela à rua, às seis da manhã, ainda a dormir, e ser “agrafada” por um vizinho no elevador (xiii)
- engasgar-me com água (ridículo)
- cometer gaffes ( como aquela em Cabo Verde. Sala cheia de gente local. Todos sentados. Dirijo-me à secretária e vejo que não tenho cadeira. Digo à minha colega, caboverdiana também, com o ar mais idiota do mundo: “E eu? Sou preta, não me sento?? – ai Jesus)

Coisas que me irritam:
- todas as que referiste Aquiles mais
- gente inconveniente (sem explicação possível)
- ver um homem a cuspir para o chão ( reco!!!!!)
- ouvir uma mulher a dizer palavrões (aos homens também não fica bem)
- sandes de presunto (será que ainda ninguém reparou que à primeira dentada o presunto desaparece?? É que é difícil cortar aquela coisa... depois fica só o pão!)
- praias cheias de gente (tanto espaço mas aquele casal, com dois filhos, um cão, quatro cadeiras, dois guarda-sóis, uma lancheira, e quatro sacos tem mesmo de se encostar à minha toalha. Tudo bem, eu até gosto do convívio mas... quero paz e só ouço roncos!)
- gente que rumina no cinema ( abaixo as pipocas e coca-colas. Aquele ruído tira-me do sério)
- o Pedro (irrita-me ao ponto de, cá no intimo, lhe chamar “pain in the ass”)
- gente que faz crochet (fico sempre com a sensação que sou pouco feminina já que as agulhas daquelas coisas, para mim, são pauzinhos)
- não acertar num único número no Euromilhões ( nem unzinho,nem estrelinha)

Coisas que me comovem:
- uma criança a sorrir (felicidade plena)
- um atleta ou equipa portuguesa a esforçar-se para ser o melhor (chorona até dizer chega durante o Euro, por exemplo)
- um bilhete que me deixaram no carro uma vez (“foi-se o tempo e a oportunidade, permanece o sonho e a saudade)
- o rosto do meu pai (como tem mudado!!!!)
- a força da minha mãe (Mulher!!)
- gente que deixa o conforto de uma vida para se dedicar a causas nobres e pessoas desfavorecidas (sinto-me verdadeiramente pequenina perante elas)
- o Natal (quanto mais não seja quando vejo o meu extracto bancário)

terça-feira, maio 08, 2007

7 coisas que

7 coisas que tenho que fazer antes de morrer:

- Ter pelo menos mais dois filhos ( não me mates querida);
- Escrever um livro ( e esperar que alguém o queira ler);
- Ver os meus filhos realizados em todos os níveis; ( o meu objectivo principal);
- Construir um villa na ilha onde nasci ( Sicília) para ter alguma independência;
- Aprender a pilotar; ( porque o céu é o limite);
- Chegar ao topo ( ou quase) da carreira militar.

7 coisas que eu mais digo:

- Café! ( Quase sempre quando entro no quartel);
- Porra! ( Tenho de melhorar o vocabulário)
- Estás aqui estás a beijar o alcatrão ( tipo eufemismo);
- Amo-te ( há quem diga que até enerva);
- Que Romântico ( quase sempre ironicamente…aprendi com uma amiga minha);
- Estou-me a passar; ( e quando digo isso já estou mesmo chateado);
- Porquê? ( Nunca deixei de ter três anos)

7 coisas que faço bem:
- Conduzir ;
- Contar histórias a criancinhas ( tadinhas, não são exigentes);
- Dormir ;
- Observar;
- Ficar horas deitado no sofá, com uma bebida quente à frente a conversar com a minha mulher ;
- Fazer sorrir as pessoas que gosto ( e vice-versa);
- Meninos loirinhos de olhos azuis! ( Muitos mais virão)

7 coisas que eu não faço:

- Correr atrás de autocarros ( está perdido…está perdido, outros virão);
- Responder a quem me grita ( pessoas que me gritam não têm interesse para mim);
- Perdoar quem me acusou injustamente ( É um principio meu, pode estar errado);
- Fumar ( Não vejo a lógica);
- Ficar quieto quando alguém está a magoar crianças, mulheres, velhotes e animais ( É um dever cívico ajudar nesses casos);
- Abandonar um amigo que precisa de ajuda ( nem comento);
- Trocar um fim de semana com a família por um fim de semana, teoricamente, perfeito ( sem eles nunca seria perfeito!)

7 coisas que me encantam:

- Ouvir o meu filho a dizer “ Calacolinos, clavelos amalelos e olos azulis!” ( Imaginem só);
- Ver a minha mulher a fazer cara de rufia ( Quem a conhece sabe que é algo interessante para se ver);
- Ouvir as gargalhadas dos meus camaradas ao almoço;
- Ver o meu mano a tentar convencer a namorada que gosta mais dela do que da consola ( hilariante);
- Encostar a cabeça à barriguinha da minha mulher e ouvir “ o Júnior” ( =D);
- Ler um bom livro;
- Sentir, ver e ouvir a alegria da família numa reunião familiar

7 coisas que odeio:

- Sentir que estou a ser usado;
- Gritos;
- Choradeiras;
- “Pitinhas histéricas” ( como diz a minha grande amiga);
- Peixe;
- Sargentos;
- Atrasos


Selene...Dás-me o prazer de ler as tuas respostas? Por favor? :D

Sentidos...

Uma vez ouvi alguém dizer que gostaria de escrever um livro sobre os sentidos. Duas pessoas que se amavam porém nenhuma delas tinha um sentido. Será possível? Creio que não. Como saberiam da presença uma da outra se não se ouviam, falavam, tocavam, sentiam, cheiravam e viam??? Hum, parece-me tarefa árdua falar do amor sem sentidos...
Cada vez que penso num homem, como homem, não o imagino sem sentidos bem como não o conheço com todos eles. Eu explico.
- Se um homem é bom ouvinte provavelmente falta-lhe o tacto das situações mais intimistas;
- se um homem é observador com toda a certeza não possuí o gosto das palavras mais doces e fortes;
- se um homem é institivo e sente o “odor” dos vários perigos que o rodeiam então muito provavelmente a sua visão estará limitada a um perimetro muito curto e de fácil alcance...
Mas se, por um dia, eu pudesse criar o homem ideal não seria perfeito porque a perfeição é uma chatice desmedida... teria defeitos, grandes e incomodativos e pequenos e insignificantes. Desenharia as suas qualidades. Mas como o meu forte nunca foi o desenho provavelmente sairia um rabisco pior do existente... No entanto, vou esforçar-me para fazer a receita sem falhar nenhum ingrediente. Sobre a mesa estão 5 taças. Cada uma delas contém um sentido e, como em qualquer cozinhado, é importante escolher a ordem dos condimentos bem como a quantidade. Fá-lo-ei à minha maneira, ao meu gosto e isso, inevitavelmente, não agradará a todos/as.

A minha primeira taça tem escrito “Visão”. Escolho este como o principal porque comparo-o ao “alho”: faz toda a diferença no tempero. Um homem sem poder de observação é como um carro sem velocidade. Aos seus olhos conferia o poder de ver tudo de todas as maneiras: do geral ao particular, do supérfluo ao importante, do grande ao pequeno, da marca ao pormenor. Ser-lhe-ía dada a capacidade de estudar as pessoas e os seus comportamentos, antecipando-lhes, invariavelmente, atitudes e até, quem sabe, pensamentos mais secretos. Como cozinheira tenho consciência que é um poder heróico este. Correria o risco de enfraquecer algumas mulheres que, muitas vezes, preferem passar despercebidas: pela manhã, com o cabelo desalinhado, a cara matinal, as calças que deveriam ficar melhor apesar de terem sido carííííssimas, a maquilhagem que borrou... Porém, esqueço estas pequenas desvantagens e continuo.
Pego na segunda taça. Escrito “Audição”. O alho ganha um sabor especial quando a ele se junta um pouco de azeite. Pois bem, a audição, neste caso, é o azeite. O alho funciona sozinho mas ganha um gosto especial quando tem por aliado o azeite de origem. Pode ser de Trás-os-Montes. Um exímio ouvinte. Que consegue ouvir até a conversa mais parva do mundo, que ouve atentamente as nossas dúvidas existenciais (como achas que devo cortar o cabelo, estou gorda?, esta ruga não estava aqui pois não?, vais gostar sempre de mim?, porque dizes que sim se não sabes?). Que saiba ouvir o nosso coração quando não nos apetece falar.
Parece-vos um cozinhado requintado demais???? Continuando...
A terceira taça não está cheia. “Tacto”. Alho, azeite e agora o vinho branco (vinagre????).Creio que ficam bem todos juntos. Este homem, munido deste ingrediente, teria umas mãos diferentes do comum dos mortais. Não apenas mãos para tocar nem braços para abraçar mas, antes, mãos para descobrir e redescobrir terreno, mãos e braços para emitir sinais de paz, tranquilidade, segurança... mãos e braços esclarecedores do que é o amor, a paixão, a química...
Restam duas taças. São especiarias. Raras. Podemos juntá-las porque os sabores são tão distintos que não se misturam. Distinguem-se. Pimenta da índia e tinta de lulas (dizem que é bom). Gosto e Olfacto respectivamente. Este teria um paladar requintado, saberia distinguir na íntegra os pormenores essenciais da vida, sentiria o cheiro do perigo antecipando-o e precavendo-se automaticamente. Conseguiria vislumbrar na penumbra de um quarto repleto de gente o perfume do meu corpo, bem como reconheceria, como a palma das suas mãos, o sabor dos meus lábios!

Para finalizar, acrescentaria uma mão cheia de sal (o colesterol não é para aqui chamado), uma malagueta do México (não vou explicar o óbvio) e tapava cuidadosamente. Reservava durante uns tempos para ganhar maturidade e...

Tolice, não é? Só escrevo disparates...

domingo, maio 06, 2007

Aquela janela...




Em qualquer história, real ou imaginária, há um espaço, um tempo e uma ou mais personagens que tocam, ao de leve, na virtualidade da vida, no seu lado mais sonhador e escondido.

Naquela casa há sem dúvida uma particularidade: uma janela. É grande, larga e de lá pode-se avistar o verde dos campos em volta... Apesar da proximidade com o bulício da cidade, aqui, neste espaço, ainda se pode respirar com tranquilidade, ainda se pode andar sozinho sem medo, ainda se ouvem os pássaros... Foi de certeza esta janela que a apaixonou naquela casa. Viu nela a sua escapatória para os seus momentos de instropecção, para a sua solidão consciencializada...
...ao lado da janela, estrategicamente colocada, está uma secretária. Nela, o computador... é aqui que ela se senta todos os dias. Coloca um CD na aparelhagem, música calma, e tranquilamente vai tocando no teclado, embalada pela música que escolheu.

O tempo. O tempo é o presente ou um passado muito recente. Tão recente que os dedos das mãos são suficientes para contar os dias... No entanto, caracterizar este tempo torna-se tarefa árdua. Os minutos transformaram-se inevitavelmente em horas, as horas cresceram para dias e estes evoluiram para anos. O tempo perde a sua definição porque na vida que envolve a personagem deixou de ter sentido. E importância...

Acordou cedo. Aliás, ultimamente, devido ao ritmo de trabalho, tem acordado sempre à mesma hora. Mas estava de férias. Depois de ter concluído todas as tarefas a que se propôs fazer, decidiu deitar-se um pouco no sofá, estender as pernas, deitar a cabeça nas almofadas e ficar ali... inerte, a brincar com o comando da televisão. Algumas tentativas falhadas de programas pouco convidativos e rendeu-se ao seu livro... Ela sempre gostou de ler. Diz, frequentemente, que é a sua forma predilecta de viajar. Porém, o livro pesava-lhe mais do que habitual. Lia desconcentradamente sendo obrigada a voltar atrás demasiadas vezes... Pousou o livro. Sobe as escadas e refugia-se na janela.

Os seus olhos ficam naquela casa, abandonada, no meio de nada. Às vezes imagina como terá sido a vida de quem ali viveu. Família numerosa, filhos pequenos, um cão... deviam ser felizes! Fica prostrada no sofá que colocou em frente à janela. Dobra as pernas e acende um cigarro. Permanece imóvel e em silêncio... quase consegue ouvir os batimentos do seu coração acomodado a uma calma que não gosta e que não o preenche. É um coração que nasceu para ser agitado, para chorar e rir com tudo e com quase nada... é um coração de repetidos esforços e de uma longa paciência. E de esperança...

Recolheu-se em si. A música que hoje seleccionou é calma o suficiente para ela fechar os olhos e materializar palavras dentro de si. O vazio ficou de repente a abarrotar de palavras que cumprem imediatamente a sua maior função: harmonizar o espírito de quem as recriou. Se pudesse voltava atrás... Não teria desaparecido sem deixar rasto. Se pudesse voltar umas horas, que seja, atrás, não teria dito o que disse... nem da forma como o fez!
Se os minutos pudessem ser parados ficaria nos braços dele por longos períodos. Adormeceria sentindo a sua respiração no cabelo e o peito nas suas mãos. Se as horas parassem de repente ficaria quieta, imóvel observando-lhe os movimentos: como olha para a televisão, como come, o sorriso, a forma natural com que sai do banho, despenteado e feliz... Se os dias parassem de um momento para o outro escolheria ficar sentada ao seu lado. Deixava que o mundo avançasse com a certeza que ambos o alcançariam quando acordassem do estado de inércia. De todos os motivos que ele tem para não a amar, ela mostrar-lhe-ía apenas aquele que ele tem para amá-la...

Mas, hoje, está simplesmente sentada naquele sofá com vontade de esquecer o mundo, de esquecer o que a boca disse mas o coração não sentiu...

“Assim que se olharam, amaram-se; assim que se amaram, suspiraram; assim que suspiraram, perguntaram-se um ao outro o motivo; assim que descobriram o motivo, procuraram o remédio.”
(Shakespeare)





quinta-feira, maio 03, 2007

As coisas que me irritam ( Take 2)


- Fico irritado quando o computador vai a baixo e eu estou a escrever alguma coisa importante. ( Principalmente quando não me lembro de tudo o que escrevi)

- Pessoas adultas a mascar pastilha elástica com a boca aberta e a fazer balões como as crianças. ( Então aquelas que se sentam à minha frente…parece que estão a gozar com a minha cara)

- Irritam-me os “brancos” que querem a toda a força parecer “ pretos” ( não sou muito racista mas isso irrita-me profundamente)

- Odeio a falta de pontualidade dos transportes públicos ( Se um comboio sai às 14:15 é certo e sabido que não arranca antes das 14:22)

- Fico enervado com os amasses desenfreados dos casais em locais públicos ( Arranjem um quarto…não sou adepto de novelas mexicanas em directo)

- Moedas de um e dois cêntimos ( as máquinas automáticas não aceitam moedas de um e dois cêntimos, os comerciantes não gostam de receber essas moedas…Porque não as tiram de circulação??)

- Mulheres que gritam por tudo e por nada ( Como diz uma amiga minha, as “pitinhas histéricas”… “aiiiiiiii um carro”… “aiiiiiiiii o céu é azul”…por favor…cuidado com os gritos perto de mim)

- Irritam-me os jornalistas, escritores, ou genéricos que assassinam o português diariamente. ( Não os ensinam a falar na Universidade?)

- Irritam-me as pessoas que dizem bófia em vez de polícia ( Fico mesmo ofendido…não percebo qual a razão de tal acto!)

- Fico chateado quando chove e eu não estava à espera ( Ou seja… quando apanho uma molha)

- Pessoas que cancelam os compromissos cinco minutos antes ( Cancelem pelo menos com três horas…posso ter outros planos)

- Irritam-me os fanáticos religiosos ( “ Aiiiiiii minha nossa senhora de Fátima me acuda…caiem os santinhos todos do altar com tal heresia filho! És o anticristo!” ...Ainda por cima são histéricas)

- José Saramago irrita-me ( Só vem a Portugal receber prémios e despejar literatura “massuda”…os lucros são gozados em Espanha)

- Irritam-me as pessoas burras que querem a toda a força dizer alguma coisa…( depois dizem coisas assim : “Lavoisier foi guilhotinado por ter inventado o oxigénio.”)

É melhor parar por aqui…pelo menos por hoje.

segunda-feira, abril 30, 2007

Recuso-me a dar titulo...


Selene?
Andamos trocados...quando eu acordo tu adormeces :D

sexta-feira, abril 20, 2007

Sete horas

Tenho sete horas antes do despertador romper o silêncio com o seu toque estridente…Se olhar novamente já não vou ter as sete horas…menos um minuto.
Também vos acontece?
Deitam-se na cama e sabem que não vão dormir mais que sete horas, aconteça o que acontecer…não dormem mais que sete horas.
Mexem-se na cama, o sono não vem, a impaciência acumula-se e o cansaço faz latejar a cabeça…mas o sono não vem. Olham para o lado, ela dorme calmamente…Viram-se e olham novamente para o relógio, mais dez minutos que se perderam em divagações, mas o sono…esse não vêm. Ouvem o respirar calmo próprio do sono profundo.
No vosso intimo pedem para que vos deixem dormir as sete horas…pronto…as seis horas e quarenta minutos que vos restam…olham para o telemóvel, querem desligá-lo mas não podem…”deixa-me dormir as minhas sete horas” pensam sem parar.
Viram-se e voltam-se a virar, o olhar viaja pelo velho triângulo, o relógio, ela e o telemóvel. Procuram conforto junto à pessoa ao vosso lado…acalmam e adormecem. Sonham com tudo menos com as sete horas de sono.
Acordam…o telemóvel vibra, as luzes brilham..
“ Estou…”, dizem para o telemóvel, do outro lado a voz fala, calma, pausada e profundamente, como se vos quisesse adormecer. “ OK.”, respondem vocês finalmente…sete horas…sete horas, pensam.
Olham para o lado, a respiração calma, o peito a subir e a descer…
“ Querida, tenho de ir…”
Também vos acontece?

quarta-feira, abril 18, 2007

Eu estou grávido!



Nunca pensei dizer tal coisa. Mas agora digo e volto a dizer…eu…estou GRÁVIDO!
No passado, que não é assim tão longínquo embora pareça, encarava as grávidas como mulheres calminhas, necessitadas de carinho e atenção, que facilmente ficavam deprimidas…ok…estava muito, muito, enganado.
Eu fui com minhas ideias preconcebidas, li o manual “ De solteirão para pai de família” de trás para a frente mais de três vezes, fiz sondagens, aceitei sugestões, preparei-me para me tornar sócio da loja de chocolates e da florista…estava muito, muito enganado.
Como já devem ter reparado, quando se vê um casal de futuros papás a mãe vem à frente, linda, esbelta, cabelo todo arranjado, roupa perfeitamente engomada…resumindo perfeita…e o papá vem atrás, imaginem comigo… olheiras do tamanho de rodas de automóvel, cara encovada de quem não consegue dormir só de pensar que alguma coisa pode acontecer, cabelo desalinhado, roupa amarrotada, colado aos pés da mulher como quem amparada uma criança endiabrada…Acabei de vos pintar um retrato de família.
A grávida que eu tanto amo está durona como sempre, aprecia a atenção, é certo…calminha??? NÃO! A minha grávida tem um humor tão oscilante como o mercado do petróleo…varia com o tempo, com as quantidades de atenção oferecida, as quantidades de afecto procurada e com a disponibilidade de negociação. Passo a exemplificar:

(Eu) – Gosto da tua camisola vermelha…fica-te bem!
( Ela) – Pensando melhor…acho que vou vestir a azul…

(Ela) – Não me apetece ficar em casa hoje…está um dia tão bonito!
( Eu) – Podemos ir dar uma volta.
( Passado meia hora, preparados para sair)
( Ela) – Afinal...acho que é melhor deixar-mos o passeio para outro dia. Podíamos ver um filme.

Eu TENTO, Mas a minha amada grávida é uma mulher especial e até neste período de fragilidade tem de ser especial…
Posso esquecer as tardes calmas no sofá ( pés inchados???), as idas apressadas à loja dos chocolates, os elogios constantes…Vamos ao ginásio, compremos iogurtes e…sejamos como sempre.
Estou a adorar estar grávido e partilhar isso com a minha mulher.

domingo, abril 15, 2007

Tempo ( Isto de dar titulos está a dar cabo de mim!)

Há uns anos, quando ainda estava na academia, um instrutor, no primeiro dia de aulas, aproximou-se da turma e disse:
“ O que vocês fizeram, foram ou pensaram antes não me interessa…o que vão fazer, pensar ou ser no futuro não me interessa... Quero saber o que são hoje, ver o que fazem hoje e adivinhar o que estão a pensar agora. O amanhã pode não existir…provem-me hoje que merecem a farda que envergam!”
Naquela altura a frase caiu em saco roto…turma de infantaria, terra à terra…os “sabe tudo, faz tudo” da zona, encaráramos aquela frase como um mero incentivo, algo que nos fizesse correr mais rápido, suar menos e vencer.
Agora, passados alguns anos, faço questão de passar a mensagem.
Tudo o que fazemos hoje vai influenciar o amanhã e foi, de alguma maneira, influenciado pelo que fizemos ontem. A nossa vida não é um mero filme, não podemos carregar no botão de pause cada vez que estamos aborrecidos ou temos algo melhor para fazer…não a podemos acelerar para alcançar os objectivos mais rapidamente…não se saltam os intervalos ou as partes mortas…e, infelizmente, não podemos andar para trás e emendar os nossos erros.
A vida não pode ser planeada…não podemos contabilizar quantas lágrimas vamos verter, quantas dores de cabeça nos vão impedir de avançar, quantos obstáculos vamos ter pela frente…a vida é um sistema aberto, somos influenciados por pessoas que amamos e por pessoas que não conhecemos. Como um soldado que não contabiliza as balas, o homem não contabiliza as alegrias e as tristezas…mas umas balas provocam mais estragos que outras.
Numa maneira rude, aquele militar tentou passar-nos a sua mensagem, uns captaram…outros não. Eu, ainda estou na dúvida.

sexta-feira, abril 13, 2007

Tu sabes que é verdade

Hoje é um dia especial, como vai ser o dia de amanhã, o depois de amanhã e todos os dias depois desse. Para pensar, falar ou escrever a pensar em ti não é preciso ser um dia diferente…basta acordar de manhã, saber, mesmo sem olhar, que estás lá, quase a acordar e a dizer “ Epah! Já é de manhã? Bora fazer greve!”.
Como diz a música “ Não há nenhum amor como o teu amor”, aprendi, não digo que facilmente, todas as tuas rotinas…o que fazes de manhã, a ordem como o fazes, aprendi a distinguir todos os teus sorrisos, todos os teus gestos e, principalmente, todos os teus olhares.
“Tudo o que faço, faço por ti”…mesmo aquelas coisas que tu não gostas que eu faça.
Não gostas que eu te abra a porta, ou que te ajude a pegar na pasta, “ Não sou aleijada, Tenente…”, como disseste a primeira vez que nos vimos…Odeias as crises de ciúmes, infelizmente eu não consigo evitar pegar em alguns moços pelos colarinhos. Também sei que não gostas que te peça para abrandares quando trabalhas de mais…mas faço-o por vocês.
Acredita que todos os dias tento adequar um pouco o meu feitio…tento ser mais calmo, menos ciumento, mais atencioso…não tenho conseguido grandes melhorias, mas tu continuas aqui, agradeço-te por isso ( à minha maneira).
Temos os nossos problemas…atiramos as nossas almofadas, batemos portas, batemos com a cabeça na parede, mas não se pode dizer que não temos tentado, mesmo quando o mundo exterior nos conduz para o “fundo do túnel”.
Será que sabes o quanto te amo? Quando o trabalho me chama, naqueles momentos antes da adrenalina explodir, é essa questão que me vem à cabeça…será que sabes o quanto te amo? Se algo me acontecesse nesses momentos saberias que faria tudo para te manter comigo?

“ Sim…eu lutaria por ti, morreria por ti!”

segunda-feira, abril 09, 2007

Boas!

Estou aqui...

Tenho tido muito trabalho e um novo extra, muito positivo, para me preocupar :D.

Charles Chaplin

"Já perdoei erros quase imperdoáveis,
tentei substituir pessoas insubstituíveis
e esquecer pessoas inesquecíveis.

Já fiz coisas por impulso,
já me decepcionei com pessoas quando nunca pensei me decepcionar, mas também decepcionei alguém.

Já abracei pra proteger,
já dei risadas quando não podia,
fiz amigos eternos,
amei e fui amado,
mas também já fui rejeitado,
fui amado e não amei.

Já gritei e pulei de tanta felicidade,
já vivi de amor e fiz juras eternas,
“quebrei a cara muitas vezes”!

Já chorei ouvindo música e vendo fotos,
já liguei só para escutar uma voz,
me apaixonei por um sorriso,
já pensei que fosse morrer de tanta saudade
e tive medo de perder alguém especial (e acabei perdendo).

Mas vivi, e ainda vivo!
Não passo pela vida…
E você também não deveria passar!

Viva!
Bom mesmo é ir à luta com determinação,
abraçar a vida com paixão,
perder com classe
e vencer com ousadia,
porque o mundo pertence a quem se atreve
e a vida é “muito” pra ser insignificante.

« Charles Chaplin, 1889 - 1977
Quintus Horatius Flaccus »

quinta-feira, abril 05, 2007

O meu Tempo...

Frequentemente me perco nas ruas desta cidade. Não é minha. Não foi aqui que cresci. Ela não me conhece. Muitas vezes me dou conta da minha pequenez quando ando por aí...
No lugar onde cresci era díficil conseguir descortinar este tipo de coisas. Ao virar de uma esquina estava sempre alguém conhecido. Alguém que me perguntasse como estavam as coisas. Alguém que retribuisse o meu sorriso... alguém familiar...
Viver numa cidade grande, viver a correr, viver sem tempo, viver para o trabalho, casa, trabalho, definitivamente... não cabe em mim!!!
Eu gosto do meu tempo. Aquele que é exclusivamente meu e que faço questão de não o partilhar com ninguém. Não é egoísmo. É apenas um preservar de algo construído por mim, à medida certa...
é ficar em silêncio, durante largos minutos, na varanda da minha casa, a olhar para longe e fumar um cigarro calmamente...
é passear o cão, respeitando e seguindo os seus passos, sendo guiada exclusivamente por ele... é chegar a casa, descalçar-me, tirar a roupa, pôr a música alto e dançar até me doerem os pés...
é tomar um banho, demoradooooooo, fechar os olhos e deixar que a água toque suavemente na face...
é ler um livro com as pernas dobradas no sofá e com a cabeça deitada nas almofadas...
é comer chocolate até doer a barriga...
é olhar-me ao espelho com e sem vaidade, tentando perceber o que já mudou no meu corpo...
é beber champanhe sem razão nenhuma, só porque me apetece...
é ouvir uma daquelas músicas que já quase ninguém ouve e chorar porque o coração parece pequenino demais...
é ficar calada. Não dizer uma palavra simplesmente porque não me apetece falar. Quero ouvir apenas a voz que há cá dentro...
é recordar aqueles que já passaram na minha vida e que se foram por esta ou por aquela razão... ou até sem razão nenhuma...
é fazer instrospecções tentando compreender o que poderei fazer melhor com o intuito de me tornar numa pessoa melhor...
é respeitar a minha solidão, conferir-lhe tanta importância como aquela que dou aos momentos em que me encontro rodeada de gente...
No fundo, na nossa relação pessoal, o poder que esta cidade tem é... nenhum. Não me dá minutos para me dedicar a mim própria, não me deixa respirar como gostaria, não me dá espaço, nem liberdade, portanto a sua força é nula...
Só sentimos a força e o poder de alguma coisa ou de alguém quando nos vemos a crescer e a evoluir. E eu sinto-me cada vez mais pequenina...

(Onde andas tu Aquiles??!!)

sexta-feira, março 09, 2007

Porque

'Porque os outros se mascaram e tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos calados
Onde germina calada podridão
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos
Porque os outros calculam mas tu não.'

Sophia de Mello Breyner Andresen


Parece que foi escrito a pensar numa pessoa que eu conheço :D

sábado, março 03, 2007

Destinos...

Momentos há na vida em que pensamos ter tudo sob controle. Está tudo nas nossas mãos. Pois bem, para quem tem os dias equilibrados por rotinas, para quem pensa mil e uma vezes antes de agir, para quem calca cuidadosamente o chão onde pisa, para quem nunca é sobressaltado por precipitações ou actos inusitados, cá vai a bomba...
A VIDA É AREGRADA.
Não adianta. Não vale a pena. Somos levados pura e simplesmente por algo que nos marca e segue: o destino.
Acredito que há um destino para cada uma das vidas que surge todos os dias. Caso contrário porque razão não fui naquele autocarro,(depois de ter esperado horas por ele e, por ter adormecido, não ocupei o meu lugar), que uns kms mais à frente se despistou e foi por uma ribanceira abaixo, ferindo alguns ocupantes??!!
Então e aquela vez que me cruzei na rua contigo, naquela tarde de véspera de Natal, nós os dois atulhados de sacos, e nos olhámos, primeiro seriamente, depois mais descontraidamente para logo a seguir nos “agarrarmos” a uma vida que deixou de ser só tua ou minha, passando inevitavelmente a ser nossa??!
O fado, destino, caminho traçado que todos temos pode, no entanto, ser contornado algumas vezes... Porém, são apenas curvas maldosas, enganadoras, porque o percurso é sempre o mesmo e possui igualmente o mesmo fim...
Somos nós quem constrói o nosso futuro?? Não acredito. Não tivemos interferência no nosso passado mais antigo, temos implicações nas acções do dia a dia do presente embora o façamos de forma quase transparente e indelével. Mas, relativamente ao futuro, é o “esperar e ver”. Escolhemos uma carreira pensando que é o que nos realiza hoje, amanhã não sabemos. Encontramos alguém que nos preenche e completa hoje, amanhã não fazemos a mínima ideia se nos sentiremos vazios novamente.
Decidimos aquilo que entendemos de “melhor” para os nossos... pensamos, estudamos, vemos e analisamos e chegamos a conclusões óbvias, logo viáveis. Pois, mas o que é evidente e claro hoje, amanhã poderá ser subjectivo e obsoleto...
Portanto, só uma coisa a fazer: viver cada minuto, cada segundo, cada inspiração de ar como se fosse a nossa última oportunidade de nos olharmos ao espelho. Viver sem pensar demasiado. Viver de precipitações e impulsos. Aproveitar cada uma das pessoas que nos amam, amá-las e deixar que elas nos amem. Aprender todos dias algo de novo e, no fim do dia, partilhá-lo com alguém porque não sabemos se amanhã cá estaremos para o fazer. Dividir sorrisos, lágrimas, forças e fragilidades sem medo de sermos catalogados.
Viver é tão difícl. Não é só respirar.
Partilho um poema de Alberto Caeiro. Penso que ele seria feliz. Creio que a sua capacidade para não pensar, o tornou num ser mais perto da Natureza, em comunhão perfeita com ela...

“Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar... “

domingo, fevereiro 25, 2007

O meu espaço especial


Inspirado pela música fiquei a pensar no meu “espaço especial”, mais correctamente, o Nosso espaço especial.
Se observar o local diria que é um pouco primitivo, nada, mesmo nada romântico…mas foi ali que, mesmo teatralmente, tudo começou.
A privacidade era inexistente, o ambiente era péssimo ( e Tu sabes), a ocasião era muito aborrecida…estávamos a trabalhar, mal nos conhecíamos…
Quantas vezes depois daquele dia chuvoso lá passei simplesmente para observar.
Passados mais de três anos ainda consigo abstrair-me de tudo e projectar naquela parede o que passamos, como se de um filme se tratasse, consigo visualizar a cor do teu blusão, consigo distinguir os aromas do teu perfume, consigo, facilmente, ouvir o que me disseste, como um sussurro, é certo, mas oiço…
Lembro-me também muito bem que naquele momento não significou muito para mim, é verdade, não conseguimos perceber naquele momento que aquela encenação “privada” ia fazer com que tantas emoções fluíssem.
Mesmo assim, acho que se pudesse recuar no tempo não tinha mudado o local, não tinha pedido um dia de sol, um espaço mais intimo…queria tudo igual.
Quando falamos daquele dia não referimos o que aconteceu depois, não falamos das portas que bateram, dos gritos que se ouviram…só falamos daquela pequena esquina, daquela rua escura, do bairro perigoso, e, claro, do que entre nós se passou…Falamos disso porque é o que importa, como se costuma dizer, gravamos o que mau se passa na areia e o melhor em pedra…Tu estás cravada no meu coração…que não é de pedra porque te conheci….e se de cada vez que penso em ti, em nós me caísse um pedaço…neste momento eu não existia. O resto é história…é privado...mais importante ainda, Tu sabes.

sábado, fevereiro 24, 2007

Uma música...

Caminhar por uma terra vazia,
Conhecer o caminho como as palmas das minhas mãos
Sentir a terra debaixo dos meus pés...
Sentar-me à beira rio e sentir-me completa...

Para onde terás ido??
Estou a envelhecer e preciso de me apoiar em algo...
Diz-me quando me vais deixar entrar porque estou a envelhecer
E preciso de começar de novo por algum lado

Passei por uma árvore caída
e senti os seus ramos...
estarão a olhar para mim??
É este o sítio que amávamos,
é este o sítio com o qual tenho sonhado??

E se tiveres um minuto porque não vamos?!
Falar sobre isso num sítio que só nós conhecemos?!
Pode ser o fim de tudo e então porque não vamos? Porque não vamos?

Para algum sítio que só nós conhecemos???

Será que era isto que ele pretendia transmitir??? É que se era, eu entendi perfeitamente... Todos nós temos lugares especiais como este... O meu realmente está vazio. Está guardado. E visito-o sempre que posso.
Para ouvir e pensar...


http://www.youtube.com/watch?v=Ai-iXXVeuwA&mode=related&search=

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Fernando Pessoa - 70º aniversário da sua morte

"A felicidade exige valentia.
Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes mas, não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo, e posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma. É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um "não". É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."

domingo, fevereiro 18, 2007

Teve de ser...


Desde pequenino, naqueles momentos antes de cair no sono profundo, quando o mínimo ruído nos acorda e o abraço mais terno nos embala, que estipulo objectivos para a minha vida futura. Quando era pequenino queria ir para a escola e jogar futebol, mais tarde, já na Academia Militar pensava em ser o chefe de turma...de ano, ir à frente e controlar a marcha dos meus camaradas…Com a idade os objectivos foram mudando, ganhando consistência...acabaram mesmo por se repetir.
Agora quando me deito penso “ Vou acordar amanhã porque tenho um filho para educar, uma mulher que amo, quero escalar a hierarquia militar.”…É um pensamento constante.
Muitos chamar-lhe-ão sonho…É verdade é um sonho, mas quantos de nós não têm sonhos? Aqueles objectivos que nos fazem acordar de manhã, olhar para o espelho e pensar “ Epah…Acorda para a vida...vive-a!”…
Não sei porque razão me lembrei disto agora, não sei porque estou a escrever sobre algo que nem na minha mente está claro…Talvez tenha pensado nisto ontem, quando me virava na cama a procurar a posição ideal, se calhar estou apenas melancólico… Qualquer que seja a razão…teve de ser.


PS:Para os que me conhecem desde pequenino...
Sim...Ainda penso que um dia...longínquo ou não, vou mudar o mundo...

Labirinto


.... se me pedissem para fazer uma analogia entre a minha vida e outra coisa qualquer seria fácil. A minha vida é como um labirinto. Pauta-se pelo leque de variados caminhos, pelas escolhas múltiplas, pelas decisões difíceis e sem retorno, mas, apenas uma meta...
Quantas vezes já dei por mim a optar pelo caminho da direita, por me parecer mais rápido e menos doloroso, e bater com o nariz num beco sem saída?!
Tantas outras escolhi o caminho da esquerda e percorri, exausta, kms e kms de estrada alcançando no fim a porta almejada devidamente aberta...
Alturas houve em que o labirinto que é a minha vida me colocou tão grandes obstáculos, dissimulados, escondidos entre as pedras, em formas de buracos fundos e escuros, apenas com a certeza que eu cairia neles em momentos de descontracção e de desatenção. A astúcia e até a intuição me alertaram para estes perigos e, de olhos bem abertos, pé ante pé, fui apalpando o terreno sinuoso cuidadosamente. Uma vez, caí. Deixei o corpo dentro do buraco escuro mas os meus braços permaneceram heroicamente do lado de fora... presos à vida! Icei-me, a custo, raspei os joelhos, esfolei as mãos do esforço mas passei ferozmente para o outro lado!! Ofegante limpei as lágrimas de dor, ajeitei o cabelo, sacudi o pó da roupa e ergui a cabeça. Continuei...
Também já aconteceu no final de um longo caminho descobrir duas portas, lado a lado, exactamente iguais. Aproximei-me e espreitei por ambas fechaduras na esperança de encontrar algo que as distinguisse seriamente e que me levasse a tomar a atitude correcta. Nada. Do outro lado das portas a mesma paisagem, o mesmo cheiro, as mesmas perspectivas. Pensei automaticamente: “Abrindo qualquer uma delas usufruirei do mesmo bem estar e conforto”... sim, aconteceu de facto ter tido já a sorte de após a passagem ter iniciado uma caminhada solarenga! Mas já abri uma porta e depois outra e depois outra e depois outra e depois outra...

No labirinto que é a minha vida há frases escritas nas paredes. Frases que marcam o meu percurso. Frases escritas por mim, frases de conhecidos, de pessoas que se cruzaram e me tocaram na minha excursão, de desconhecidos que, sem interpretarem e sentirem o meu corpo, me tatuaram com a simplicidade própria de letras que se unem e formam pensamentos... Cada frase é uma escada e cada escada é uma etapa concluída...
Acompanhando a sombra dos meus passos existe também a música. Em cada compartimento paira no ar uma melodia diferente: nas encruzilhadas e nos caminhos íngremes músicas com mais ritmo, com mais energia. Nas ruelas estreitas, onde normalmente não posso caminhar lado a lado com mais ninguém, músicas suaves impregnadas de metáforas e sentimentos...
No labirinto que é a minha vida há apenas uma certeza: do lugar onde pretendo chegar. Como, quando e com quem pretendo lá chegar são apenas pormenores. Fazem a diferença, obviamente, mas quem abre as portas sou eu...

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Bem re-voltada sejas!

Bem..Bem...e eu que já vinha de arma em punho pronto a destruir o blog...a impedir-me de te ler...
Bravo sócia..continua! =D

Não me perguntes como o fiz... fi-lo! Finalmente!!!!!! E cá estou eu... :)

O que Há...


"O que há em mim é sobretudo cansaço

Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A sutileza das sensações inúteis,

As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,

Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?

Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço..."

Álvaro de Campos – Fernando Pessoa



Pediram-me um poema!! O quê?!! Não, eu não sei escrever poemas. Aliás, não sei escrever coisa nenhuma.
Não, um poema que te toque!!
Fui buscar os dossiers velhos que guardo no sotão. Sabia o que queria, até porque alguns versos vagueavam pela minha mente...

Na altura do liceu alguém o tinha lido, alguém o tinha recitado de tal forma que, por momentos, fechei os olhos e devorei as palavras. Na altura tornou-se incontornável o desejo de saber quem o tinha escrito. Quem quer que o tenha feito conhecia-me... de alguma maneira...
Quando ouvimos uma música que gostamos a tendência é aplicá-la à nossa própria vida. Faz sentido. Gostamos dela porque retrata este ou aquele momento, fala de esta ou daquela pessoa...
A poesia, aprendi eu então, tem esse mesmo dom.
E Fernando Pessoa começou a fazer parte de mim.
O que mais me fascina é que depois de ter lido biografias, descobri que o que é realmente importante nele é a sua poesia. Dedicou-se a inventar pessoas, que fazendo parte dele, tinham vidas paralelas, independentes.

E todos somos um pedaço dele. Não o assumimos, mas somos. Tal como a roupa que vestimos adequada a qualquer situação, possuímos dentro de nós capas. Capas que nos cobrem, protegem e denunciam. E a facilidade com que as vestimos e despimos é a mesma com que ele escrevia poemas.
Raras são as vezes que perdemos o pudor pela nudez e mostramos o nosso corpo tal como ele é. Sem subterfúgios nem capas ilusórias. E quase nunca nos congratulam pelo nú explícito...

sábado, fevereiro 03, 2007

Procura-se sócia...

Ohhh Selene...Falta de inspiração ou tempo? =D

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Apenas uma ideia

Aqueles que escrevem mil louvores \ de formosura, graça e gentileza \ todos foram, senhora, uns borradores \ de tua perfeitíssima beleza”

Luís de Camões

Proponho que, por momentos, o “senhora” seja substituído por “ amor” ou “ paixão”.
Não sei se já falei neste tema, é natural que tenha, pois é algo que me incomoda.
Incomoda-me que o verbo amar seja usado, nos nossos dias, como um imperativo, ou algo inócuo, básico e fútil. O verbo amar é algo que deve ser usado com moderação…
Dizer uma “amo-te” tem de ser um marco, algo que nos faça acelerar a pulsação, tremer as pernas, brilhar os olhos… Não se pode dizer “ ama!”, não pode ser pedido ou ordenado…tem de ser sentido.
Posso contar pelos dedos da mão as pessoas que realmente amei, amo…delas posso dizer o nome, a idade, a cor preferida…o maior medo, a maior alegria, a cor dos olhos, o cheiro do cabelo…não posso explicar por palavras o que sinto pois nenhum sentimento se repete duas vezes.
Espanto-me com a facilidade com que , ultimamente, se ouve um “amo-te”, se diz “amo-te”, é incrível e, na minha opinião, sem significado. Desde jovem que afirmo que o amor à primeira vista não existe. Não se ama uma pessoa sem saber o nome, a idade, a profissão, sem a ter visto a comer, a vestir…é preciso conhecer a outra pessoa como nos conhecemos a nós, ainda melhor, conhecer cada expressão, cada ponto mais sensível…devemos conhecer. Sem conhecer é impossível amar…por mais que se queira sentir que se ama.
Sei que o que digo ou escrevo não vai mudar nada, mas cá fica…Na próxima vez que pensares em dizer um “amo-te”, pensa em tudo…pensa para não “borrar”, porque amar não é gostar, não é admirar…Amar é viver para estar com aquela pessoa…acordar só para a ver,,,não sejas um “borrador” daquele sentimento utópico que é o Amor…


Obrigado

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Até o mais ateu, como eu, baixa a cabeça e a diz ( Já era dia)

Dai-nos, Senhor, tudo aquilo que nunca Vos é pedido.

Não Vos pedimos o descanso

nem a tranquilidade do corpo

nem tão pouco a do espirito.

Não Vos pedimos riqueza,

nem o êxito e as honrarias

nem sequer o reconhecimento dos homens

De tudo isto, que insistentemente Vos pedem, talvez quase nada já Vos reste



Dai-nos, pois, ó Deus, o que ninguém quer, o que todos regeitam:

A insegurança, a incomodidade,

a inquietude, a tormenta e o risco.

A vereda estreita e agreste que vai até Vós.



Concedei-nos isto, nós Vos suplicamos, definitivamente, porque a

fraqueza, fruto do egoísmo humano que em nós existe, talvez nos tire a

coragem de o solicitar de novo

Dai-nos, Senhor, o que Vos sobra, aquilo que ninguém nem sequer Vos

pedem mas, dai-nos, ao mesmo tempo, o valor, a vontade, a força e a fé

que temperam a alma do soldado

na grandeza da sua servidão.

Por ultimo, Vos rogamos, ó Senhor, por aqueles que, de entre nós, em

todos os tempos, caíram no campo da Honra e derramaram o seu sangue

pela Independência e Liberdade da Pátria

Nós Vos pedimos, ó Deus dos Exércitos, que, no Vosso Seio, repousem na paz

eterna as almas destes bravos.

terça-feira, janeiro 16, 2007

Inacreditável

Tenho estado afastado do blog, não é por falta de inspiração mas sim por excesso…de trabalho.

Num destes dias, penso que segunda-feira, quando fui buscar o meu filho ao infantário, presenciei uma situação que me deixou preocupado, não comigo, não com a segurança do meu imperador, mas sim com aquele menino.
Estava eu parado à porta, a ouvir as últimas do nosso país, já que cheguei cedo, quando os meninos da escola ao lado começam a sair. Meninos que deviam andar no primeiro ou segundo ano, apostaria mais do primeiro, que acabado o dia de escola e de actividades extracurriculares falam de tudo e de mais alguma coisa, querem ir para casa descansar e ver os desenhos animados…estou a divagar…Pois bem, os pais, os avós, e familiares que os vinham buscar estavam à espera à porta. As avozinhas com os sacos com o lanche, os avós a pegar nas malas, as mães a arranjar os casacos e os pais a remexer os cabelos…Começo a olhar para eles, uns correm, outros contam aos pais como foi o dia…com aquele menino passava-se algo de semelhante, um menino normal, com pais, aparentemente normais.
O Pai entra no carro, a mãe vai para o lugar do morto…mas o menino decidiu que tinha que se despedir de um amigo…
Um pai competente teria olhado para trás, arranjado o cinto, ou a cadeirinha, como está na lei, teria visto se trazia tudo, se tinha ficado algum objecto na escola…aqueles pais estavam demasiado distraídos.
Até ali nada me tinha parecido estranho, até ao momento em que o carro começa a andar e o menino fica em terra…
Ao inicio pensei, “Bem, deve ir para casa com outra pessoa”, “ Vai ter mais alguma actividade…”… Os meus pensamentos pararam quando aquele menino, de seis anos, sete no máximo, se lançou numa perseguição aberta ao carro dos pais. Ora se punha no meio da estrada, subia para o passeio, gritava, descia para a estrada, arriscando-se a ser atropelado…neste momento já se ouviam umas buzinas que tentavam alertar os pais..algumas tipo todos os pais que assistiram à cena… no final da rua aquele casal lá se lembrou que tinha um filho, parou e a criança lá entrou.
Esta situação fez-me lembrar uma cena de um filme em que a mãe, perturbada, deixava a cadeirinha do bebé no tejadilho do carro e só deu conta quando o policia lhe bateu na janela…
Depois de procurar justificações na minha cabeça para o que aconteceu, comecei a pensar… Onde é que se vão esquecer do menino da próxima vez… por essas e por outros, sou da opinião que se devia fazer um teste de admissão à “profissão” de pai, nem todos merecem essa bênção.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

“Na minha cidade natal, Huambo, podia ouvir, nas noite de vento, o áspero rugido dos leões. Sempre que conto isto a amigos europeus eles ficam muito impressionados. Não lhes conto, é claro, que morava a quinhentos metros do Jardim Zoológico.
Entre a verdade e a mentira, o silêncio dá belas flores.”

Não sei quem escreveu. Esqueci-me de apontar. Mas sempre que leio este excerto lembro-me de mim. Quando fui viver para longe! Aos amigos dizia:
“Sabem, tenho uma casa fantástica, com vista para o mar. Toda ela viradinha para o mar.”
Depois concluí:
“Mas também, na ilha onde estou, toda a gente tem uma casa virada para o mar1”
No entanto, não o disse. Pensei apenas.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

"Um Conselho Antes da Batalha"

"Ao fim e eo cabo, e com todo o progresso da ciência, o resultado depende cada vez mais do carácter do dirigente e do seu poder de resistir «às sensuais sensações do campo de batalha». Finalmente, para aqueles que se querem preperar de avanço para tal responsabilidade, não conheço conselho mais inspirado do que aquele que foi dado há séculos, por Krishna a Arjuna, quando este tremia perante a terrivel responsabilidade de lançar o seu exército contra as hostes de Pandav:


A vida que há em todas as coisas vivas, oh Principe ,
Está protegida de todo o perigo. Por isso, não sofras,
Por aquilo que não pode sofrer. Cumpre o teu papel!
Lembra-te do teu nome, e não temas.
Nada melhor pode acontecer a uma alma marcial
Que uma guerra legítima. Feliz o guerreiro
A quem vem a alegria da batalha...
...Mas se te afastas
Deste campo de honra - tu, um Kshittriya -
Se, conhecendo o teu dever e tarefa, deixares
O teu dever e a tarefa passar - isso será pecado!
E aqueles que hão-de vir falarão de ti com infâmia,
De geração em geração. Mas a infâmia é pior,
Para os homens de sangue nobre. é pior de sofrer que a morte!


Por isso ergue-te, tu Filho de Kunti! Endurece
O teu braço para o combate; prepara o coração para encarar
Como coisas semelhantes a ti, o prazer ou a dor,
O teu lucro ou a ruína, a vitória ou a derrota.
Assim mentalizado, ganha coragem para a luta, pois assim
Não pecarás!"

terça-feira, janeiro 09, 2007

Viagem...

“A verdadeira generosidade para com o futuro consiste em entregar tudo ao presente”
Albert Camus

... Utópico... Mas foi assim, desta forma, que comecei a pensar na viagem da minha vida. As malas estavam feitas, pouca coisa, próprio das mulheres...
Chegára finalmente o dia de partida e fui pensando em tudo o que deixaria para trás. Não queria que ninguém me acompanhasse ao aeroporto. Não gosto de despedidas. São como os presentes de Natal. Embaraçosas. Nunca sei o que dizer, nem o que fazer, nem onde colocar as mãos, nem se devo sorrir... E só me despeço quando alguém que amo, morre. Um doloroso adeus!!Queria ir embora olhando apenas para a frente. O meu tumulto e a minha crise espiritual não me permitiriam ser correcta com ninguém, a não ser comigo mesma.

Entrei no avião, olhei pela janela e, só aí, realmente, me apercebi que a partir daquele momento estaria... só!! Só eu, comigo mesma. Sabia que alguma coisa tinha mudado, portanto comecei a ouvir o meu coração de uma forma drástica.
A minha vida tornou-se tão mais simples e significativa quando abandonei a bagagem do meu passado. Iria reducar-me, aprender o valor dos momentos de instropecção e iria, com toda a certeza, parar de gastar tempo com prazeres mundanos e começar a desfrutar de pequenos deleites: ver as estrelas, olhar para dentro de mim, ouvir o mar, observar os outros e... aprender. Aprender a criar uma vida com mais equilíbrio e encanto...
Durante a viagem, depois de uma refeição que nunca chegou a ser, encostei a cabeça e questionei o “porquê” desta aventura. Tentei encontrar todos os motivos que me levaram até onde fui... e foram tantos meu Deus...
Queria sair dessa cidade, pequena, mesquinha, atrofiadora e abandonar os amigos fúteis, deprimentes, ébrios, ocos de sentido...
Queria saber o que está para além disso tudo. Serão as pessoas assim tão diferentes? Serão esses lugares assim tão misteriosos e apelativos?
Queria abandonar um amor na esperança de não o perder. Arriscar. Deixar um rasto de perfume, de carícias....e mesmo assim, partir!
Queria sol, luz...
E queria o quê mais?? Mais nada??
Houve uma razão que só descobri então... e foi tão forte, tão repentina que se impôs a todas as outras. E foi aí onde falhei.

Queria mostrar-te a ti, Pai, que sou corajosa o suficiente para vos abandonar hoje sem olhar para mais nada, que o desconhecido não me intimida, que já sou uma mulher e não a menina que se sentava no teu colo e pedia histórias, que não me amedrontam as pessoas diferentes, que sei viver com muito pouco, no caso, com quase nada, que sei o valor do trabalho e dos sacrifícios para o conseguir, que já reconheço o valor que davas ao “escuro”, queria que soubesses que a minha ingenuidade foi poderosamente derrotada por MIM e que me desenrasco sozinha sem conhecer as pessoas certas como tu conheces. Queria que sentisses orgulho em mim.
Vá lá, faz comparações agora!? Não me tornei em alguém melhor?
Claro que não, não é pai? Falhei. Só agora o sei porque na altura estava no auge da minha descoberta.
Deixei que sentisses a dor que sentia. Escrevi-te cartas com palavras que me denunciavam. Mostrei-te o mundo onde vivi e permiti que sentisses pena de mim. Não impedi as tuas lágrimas, aliás, provoquei-as. Precisei da tua ajuda uma vez mais. E culpei-me por sentir saudades do teu colo.
Falhei. É dado certo. Mas, sabes, a vida é feita de um leque de escolhas e o nosso destino desenrola-se conforme o caminho que percorremos. E, se não trouxe mais nada na bagagem, pelo menos aprendi que o fracasso, seja de natureza pessoal, profissional ou espiritual, é essencial para o desenvolvimento interior.Permite o crescimento e traz toda uma hoste de recompensas várias.

Não me arrependo do passado.

E deixei de negar o teu colo...

domingo, janeiro 07, 2007

Pensar / Falar / Escrever

...Ando cansada... e sem tempo para me dedicar àquilo que me dá mais prazer: escrever!!
Disse a alguém, um destes dias, que se pudesse comprava uma casa num sítio isolado, com vista exclusiva sobre o mar... seria uma casa praticamente sem paredes, toda ela feita de janelas para deixar entrar a luz natural... Teria igualmente um alprende com vista privilegiada. Aí, dominando o ambiente, apenas uma mesa e uma cadeira. Nada de especial, somente conforto. Quase sempre haveria música.
Todos os dias, mal acordasse, faria questão em sentar-me e ouvir silenciosamente o calmo barulho do mar e do vento... e aí sim, pegava no papel e na caneta e rabiscava até me doerem os dedos. Teria, certamente, o cenário perfeito, contudo, há em mim uma dificuldade inultrapassável no que se refere ao acto de “escrever”...
Pensar e falar e pensar e escrever são duas acções completamente distintas. Explico.
Muitas vezes ouve-se o comentário “falei sem pensar”. Não acredito nesta frase. Sinto antes que é uma forma de desculpa de algo que foi dito e que magoou ou foi incorrecto. Pensa-se sempre antes de proferir qualquer palavra. É um acto consciente embora veloz...
A questão é o acto de “pensar” de cada um de nós. Uns há que reflectem objectivamente, outros fazem-no de forma subjectiva. Há pessoas de “pensamento” rápido e espontâneo, outras cautelosas e recatadas. E tantas outras vezes se confunde o “falar sem pensar” com a sinceridade... Discordo uma vez mais. Sinceridade não é sinónimo de precipitação. Sinceridade é a ponderação do que é real, do que é verdadeiro, do que é correcto e isso, hoje em dia, requer muita reflexão e serenidade.
Pensar e escrever é, talvez, a minha maior frustração.
Tenho um caderno, tal como tu tens Aquiles, onde vou apontando os pensamentos que me vão ocorrendo inesperadamente... Carrego-o comigo para todo o lado porque me sinto despida sem ele! Mas o inevitável acontece com mais frequência do que eu o desejaria. Penso rapidamente e quando tento passar para o papel, já a minha história mental vai uns capítulos à frente... sinto que o meu acto físico de escrita não acompanha o meu acto mental. As palavras escondem-se, retraiem-se e ficam apenas no ar. Não pretendem ser lidas mas sim “pensadas”!
Às vezes, quando a noite já caminha para dia, dou por mim a reflectir sobre isto ou aquilo, com ou sem importância alguma. Sinto que o deveria “imortalizar” no bendito caderno mas, tantas vezes por preguiça, decido seguir o conselho sábio (e útil à minha sonolência) de um antigo professor do liceu... Diria ele que só aprendemos realmente alguma coisa quando a conseguimos repetir três vezes sem qualquer tipo de lacuna. É exactamente o que faço com os pensamenos nocturnos. Repito-os em silêncio. No entanto, durante o dia, sinto que se perdeu uma ou outra palavra que faria toda a diferença naquele texto. Não o faço com a convicção ideal, provavelmente.
Sendo assim, reconhecendo as minhas limitações, aprendendo a contornar os meus obstáculos e vivendo no ambiente perfeito, em plena comunhão com a natureza, sou bem capaz de afirmar que não sairia “literatura” das minhas mãos mas, com certeza, todos os meus textos seriam mais transparentes, explícitos e “directos”... da alma para o papel. Teria certamente a “liberdade” necessária para ser autenticamente momentânea e encontraria o veículo certo e adequado para o transporte das minhas palavras... Como uma fotografia do interior.

... até lá, vivo nesta correria quotidiana, observando, sem a devida atenção, absorvida pela mediocridade gratuita, sem conseguir descortinar a nitidez óbvia do que é comum, sem metáforas, sem subterfúgios... apenas a realidade!!

quinta-feira, janeiro 04, 2007

“Os meus olhos viram o que jamais olhos humanos deveriam poder ver…”

Vi sangue, mortes e cinismos. Vi o emergir e o submergir, quase simultâneo, de uma sociedade degradada. Vi acções sem sentido, cumpri ordens sem olhar para o lado…vi erras e errei e errei, continua e exaustivamente.
Vi sorrisos sobre escombros de orfanatos e escolas, hospitais de campanha a abarrotar, capacetes debaixo do braço, boina na cabeça dos “ pequenos” e o olhar a pairar sobre o que não vemos.
Observei castelos a ser construídos e ouvi o som da onda a aproximar-se. Vi isso e muito mais…vimos e ouvimos calados.
De um lado os gritos do outro as mórbidas gargalhadas, Alás e Cristos armados, com o olhar a inundar de raiva e sede de vingança.
Vi os filhos dos seguidores nas ruas, sem um Deus que os protege-se, sem nada de bom a esperar…Variadas vezes ouvi os passos dos mestres religiosos a espezinhar famílias e a trespassar corpos à muito sem fé…Fugindo e mandando lutar… saltando as barreiras que tinham criado sem olhar para trás, deixando o rasto religioso do sangue a…inundar os castelos….

NÃO PASSARÃO - MIGUEL TORGA

Não desesperes, Mãe!
O último triunfo é interdito
Aos heróis que o não são.
Lembra-te do teu grito:
Não passarão!

Não passarão!
Só mesmo se parasse o coração
Que te bate no peito.
Só mesmo se pudesse haver sentido
Entre o sangue vertido
E o sonho desfeito.

Só mesmo se a raiz bebesse em lodo
De traição e de crime.
Só mesmo se não fosse o mundo todo
Que na tua tragédia se redime.

Não passarão!
Arde a seara, mas dum simples grão
Nasce o trigal de novo.
Morrem filhos e filhas da nação,
Não morre um povo!

Não passarão!
Seja qual for a fúria da agressão,
As forças que te querem jugular
Não poderão passar
Sobre a dor infinita desse não
Que a terra inteira ouviu
E repetiu:
Não passarão!

Miguel Torga in Poemas Ibéricos, 1965

terça-feira, janeiro 02, 2007

Num café...

Numa conversa de mulheres, daquelas que os homens nunca entenderão (pela simples razão de serem homens), surgiu o tema da desconfiança, insegurança, mentira e traição. (O tema compras e saldos foi o seguinte, mas sobre esse não me pronunciarei).
Uma de nós é uma mulher que, vivendo a esperança de uma relação que adia o inevitável, desconfia da própria sombra e sustém a respiração sempre que se fala em traição e mentira. Tenta esconder o fracasso pessoal e, sempre que pode, balbucia qualquer coisa do género “ A mim não me assusta a solidão. Se for necessário dou um passo em frente e nem olho para trás...”
Ambas sabemos que se engana a si própria. Não o dizemos porque somos amigas mas somos mulheres!!
Outra há que vive sozinha, num prédio com demasiados andares... acorda sozinha, vai trabalhar, almoça no local de trabalho, com colegas entediantes e sem “sal” (segundo ela), faz ginástica num local intitulado “in”, regressa a casa, só, come qualquer coisa rápida e senta-se no sofá a ver a(s) novela(s). Não se cansa dizer “Assim é que estou bem! Ninguém me chateia. Sou independente” mas todas sabemos que reserva em si o medo de se relacionar, a insegurança da entrega e da partilha. Ainda não esqueceu o passado. Aliás é lá que vive!! Mais uma vez, ficámos caladas cientes da nossa condição feminina.
E há a L. Chamemos-lhe assim. A L. vive uma vida de sonho. Um trabalho que a preenche, um marido que a idolatra e a presenteia com palavras e actos inesperados, festas sociais nas quais se destaca pela beleza e carisma naturais. Da boca da L. nunca se ouviu uma lamentação, uma queixa, um sentimento menos positivo porque, segundo ela, “ a nossa vida é como uma caverna com eco. Se lá dentro gritarmos exclusivamente coisas boas é isso exactamente o que o eco / vida nos vai devolver.” Admiramos-lhe a força, a confiança e a “sorte”. Mas somos mulheres, caramba. Caladas até ao fim...
Como diria Álvaro de Campos “três tipos de idealistas e eu nenhum deles...”
E enquanto falam, olho para dentro e penso que somos seres relacionais mas, por maior que seja o paradoxo, é-nos muito difícil relacionarmo-nos com os outros. Nem sempre, claro, mas talvez mais vezes do que as que gostaríamos. Seja porque a vida afasta as pessoas, porque há demasiado sofrimento à nossa volta ou porque temos medo de amar e ser magoados, ficamos, muitas vezes, isolados no nosso canto.
Mas... Quanto menos damos, menos recebemos.
Partilhar emoções, confiar nos outros e amar sem medos é a única maneira de crescer e criar laços fortes e seguros... Nada é definitivo na evolução das pessoas, tudo muda, e ,a boa qualidade das relações afectivas que se vão estabelecendo ao longo das nossas vidas, tem a capacidade de mudar profundamente possíveis dificuldades.
A ideia de que são as relações com as pessoas com quem vamos lidando nas mais variadas situações que nos moldam, dá-nos a noção da nossa verdadeira dimensão. Têm o poder de nos revelar. É por estes laços que se correm perigos, vivem alegrias e se conhecem as tristezas que permitem edificar quem realmente somos... levam-nos a uma procura, constante, da perfeição!!
Diariamente temos o desejo de pertencer ou possuir alguém ou alguma coisa... apesar do individualismo, cada vez mais evidente, todos nós procuramos algo ou alguém em quem nos possamos apoiar... no entanto, temos vindo a perder o tempo e a disponibilidade para estar atentos aos que nos rodeiam. Os dias de hoje não promovem a proximidade e paira no ar a ideia de perigo de contágio de sentimentos piegas indesejáveis e sobretudo passados de moda, que nos expõem e enfraquecem... sentimentos que mostram exactamente aquilo que somos...
No fundo, tudo se resume ao facto de alguns de nós se sentirem ansiosos numa vida cujo objectivo principal é encontrar uma “relação ideal”. Nela se investem todos os sonhos e se criam expectativas exageradas, esperando invariavelmente receber o máximo de amor, amizade ou afecto... aquilo a que temos naturalmente direito!
A ideia de perdermos relações significativas torna-nos pessoas deprimidas e até em luto quando as nossas ligações sofrem danos... por outro lado, sentimo-nos profundamente sós quando não as temos.
É absolutamente necessário encontrar um equilíbrio entre intimidade necessária e a expressão de independência e autonomia pessoais, sem cair na desconfiança contínua do exterior, que transforma os elos em pedaços poucos transparentes, defensivos e muito tristes...

“Que conversa deprimente a vossa!! Vamos às compras para desanuviar!!”

Interrompida nos meus pensamentos, paguei o café e preparei-me para a batalha!
Mulheres!!

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Ohhhhhhhh Selene

Selene... Carrega no play =D

Quem não tem uma música própria??
Quem não acha que aquele poeta escreveu aquele poema a pensar na sua pessoa??
Quem não recorda um cheiro específico de alguém, de algum sítio, de uma ocasião qualquer?
Quem não sonha ao ver um filme romântico, daqueles com aquelas histórias quase utópicas, e deseja que essa história se repita na sua vida??
Quem nunca visitou um local pela primeiríssima vez e se “lembrou” de já lá ter estado?
Começo pelo fim:

Vivi no estrangeiro, numa cidade, sozinha, durante um ano. Não precisei de mapas. Sabia exactamente onde estava, para onde ía, e nunca me perdi na imensidão das ruas... senti que já tinha vivido lá. Não faço ideia quando, nem quem era...

Vi atentamente o filme “Jerry Maguire” e sonhei com uma história daquelas para mim... aquela famosa frase “You had me at hello!” fez-me ver que há realmente coisas muito simples. Até no amor...

Há um cheiro que nunca esquecerei de um perfume, já antigo, que o meu avô usava. Aliás, sempre achei que ele exagerava na dose diária. Disse-lhe umas quantas vezes. Nada mudou de qualquer maneira. Há pouco tempo, sentada num banco de um combóio, lia o meu livro calmamente. À minha volta o entra e sai próprio da hora de ponta... entretanto sinto que alguém se senta no banco em frente ao meu. Não tirei os olhos do livro até o meu nariz ter presenciado aquele odor... era o mesmo perfume. As pernas tremeram. Não me contive e pousei o olhar naquela pessoa. Devorei-lhe cada partícula do cheiro que emanava dela. E vi o meu avô. Senti-o claramente...

“Conheci” Fernando Pessoa ainda nova. Cruzámo-nos de forma natural. Uma descoberta entre os milhentos livros religiosamente guardados do meu pai. Não me lembro o porquê dessa minha curiosidade repentina mas recordo-me que me “prendi” ao livro para sempre. Ainda hoje o tenho. Revi-me nos seus textos... senti-me algo nua, despida de alma porque ele a tinha descoberto. Uma empatia perfeita entre um génio da palavra e uma leitora desfasada do tempo...

“Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender -
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada
Deixa esquecer
Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz
Não digas nada."

Fernando Pessoa

E chego finalmente ao início do texto. A música. Não referirei uma música minha e de mais alguém. Também as há. Vou antes dar a conhecer uma música que me dedicaram há uns tempos atrás. Marcou-me pela pessoa que a escolheu, pela ocasião de ruptura em que nos encontrávamos e pela analogia simples de uma mulher e do vento... Ninguém fala no vento. Fala-se, escreve-se, canta-se sobre o mar, sobre a lua, sobre o tempo, sobre o amor, sobre o sofrimento... esquecem-se frequentemente das brisas de todos os dias!!
Partilho-a ...

http://www.youtube.com/watch?v=pi7cmNDgCz8

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Mulher!

Não é dia da Mulher, eu sei, mas precisamos de miminhos destes todos os dias...

"Enquanto houver uns olhos que reflectem
outros olhos que os fitam,
enquanto a boca responda a suspirar
aos lábios que suspiram,
enquanto sentir-se possam ao beijar-se
duas almas confundidas,
enquanto exista uma mulher formosa,
haverá poesia!"

Gustavo Adolfo Bécquer

Poema Matemático

Bem, eu vou colocar aqui um poema que li num outro blog...Achei tão estranho o poema, mas tão estranho...que não podia deixar de partilhar...



Um Quociente apaixonou-se um dia doidamente por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável e viu-a, do Ápice à Base...
Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, Boca trapezóide,Corpo ortogonal, Seios esferóides.
Fez da sua uma vida Paralela à dela.
Até que se encontraram No Infinito.
"Quem és tu?" indagou ele
Com ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.Mas podes chamar-me Hipotenusa ."
E de falarem descobriram que eram
O que, em aritmética, corresponde
A alma irmãs Primos-entre-si.
E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz.
Numa sexta potenciação
Traçando ao sabor do momento
E da paixão Rectas, Curvas, Círculos e Linhas Sinusoidais.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidianas
E os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E, enfim, resolveram casar-se.
Constituir um lar.
Mais que um lar. Uma Perpendicular.
Convidaram para padrinhos O Poliedro e a Bissectriz.
E fizeram Planos, Equações e Diagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade Integral
E diferencial.
E casaram-se e tiveram uma Secante e três Cones muito engraçadinhos.
E foram felizes.... Até àquele dia
Em que tudo, afinal, se torna monotonia.
Foi então que surgiu O Máximo Divisor Comum...
Frequentador de Círculos Concêntricos.Viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela, Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum.
Ele, Quociente, percebeu que com ela não formava mais Um Todo.
Uma Unidade.
Era o Triângulo, chamado amoroso.
E desse problema ela era a Fracção Mais Ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade.
E tudo que era espúrio passou a ser Moralidade
Como aliás, em qualquer Sociedade.


Millôr Fernandes

quarta-feira, dezembro 27, 2006

O meu herói


Durante a nossa infância crescemos a ouvir histórias de heróis, príncipes encantados que salvam as belas princesas no castelo longínquo, guardado por dragões, ou bruxas malvadas…ouvimos falar dos grandes conquistadores, dos soldados rebeldes, dos grandes marinheiros e na nossa mente acaba por se estruturar um objectivo, mesmo que de curta duração… queremos ser como eles.
Quem nunca quis ser como o polícia que um dia visitou a sua escola, como o cantor que encanta multidões, o soldado que luta em países distantes, o artista de cinema, que conquista todas as donzelas e elimina os inimigos? Todas as pessoas têm o seu heróis, o seu ídolo.
Lembro-me que durante as férias, quando era pequeno e ia passar as férias grandes com os meus avós paternos, seguia um carabinieri para todo o lado, via como é que ele andava e tentava andar da mesma forma, imitava as expressões faciais, as frases, as acções. Esse carabinieri é o meu avô.
Quando falávamos dos nosso ídolos, uns mencionavam cantores, outros jogadores de futebol, o meu ídolo sempre foi o carabinieri do passo largo, voz grossa, e cavalheiresco, o homem que luta pelo que quer e que, quase sempre, tem.
Sei que ainda agora, quando me chateio, ou tenho um problema, penso “ O que faria o meu avô se estivesse na minha situação?”, tento fazer o que ele faria, tenho-me saído bem.
Por isso e por muito mais … Grazie nonno!


O cabelo loiro, preenchido por caracóis,estava desalinhado... os olhos azúis, grandes e expressivos, observavam-me e a tua boca, perfeitamente desenhada, tinha um rasgo de um sorrido tímido... as tua unhas sujas pertenciam a umas mãos finas e débeis... Pena. Foi o que senti no nosso primeiro contacto. Pena de ti, da tua vida tão curta ainda mas já tão preenchida de infortúnios. Pena das vezes que já deves ter chorado, das vezes que já tiveste fome e frio... Hoje, continuo a sentir pena. Mas de mim. Por não ter sido a primeira pessoa a ver-te quando nasceste...
Os nossos primeiros dias foram de descoberta total e de entrega a cada segundo vivido! Eu interpretava os teus sinais, tu lias os meus olhos. Eu adivinhava a tua dor e os teus medos, tu sabias que o teu lugar estava garantido na minha vida. Eu teimava em vasculhar tudo o que é teu, tu insinuavas um passado esquecido e uma esperança num futuro melhor... como me ensinaste... Conheces o “menos bom” e mesmo assim só sabes ser meiga, grandiosa e sorridente...

- Beatriz, desenha o teu animal preferido!
- Pode ser um cão?
- Pode ser o que tu quiseres desde que seja o teu preferido.
- Vou desenhar um cão. Grande.
- Grande?! Porquê, não gostas de cães pequeninos?
- Gosto mas um cão grande protege-me mais. Além disso podia ensiná-lo a pegar em mim para olhar pela janela pequena. Eu não chego lá.
- Uma janela pequena. Não há portas Beatriz? Para que possas ir brincar com ele lá para fora?
- Há uma mas está sempre trancada. Só posso olhar pela janela...

Viveste sempre enclausurada não foi? Anda cá, deixa-me abraçar-te e dizer-te que vamos as duas abrir outras portas com a mesma mão. Abrimo-las e nunca mais as fechamos...

- Beatriz, tu choras?
- Choro tu não?
- Sim, choro. Mas eu nunca te vi chorar...
- Pois não. Eu escondo-me quando me apetece.
- Escondes-te? Podes dizer-me onde?
- Na almofada...

Quem te ensinou que chorar é uma fraqueza?! Quem te assustou ao ponto de teres um sítio só teu para chorares?? És uma criança. As crianças choram, riem, brincam, fazem asneiras naturalmente. Nós, os adultos, somos os únicos a procurar refúgios porque temos medo de nos mostrarmos...

Desde que te conheço que me tornei em alguém melhor. A ti devo o entendimento perfeito das palavras “perdão” e “sofrimento”. Não me esqueço do nosso primeiro fim de semana juntas. Quando te perguntava se estavas a gostar e tu respondias com abraços... Quero continuar a lutar por ti... e por mim!! Quero continuar a aprender ao teu lado. Quero sentar-me no chão contigo, brincar ao que tu quiseres, tocar-te na cara e nos cabelos loiros e dizer-te que és uma menina linda e que tenho orgulho em ti! Quero que acredites em mim quando digo que podemos confiar nas pessoas. Podemos realmente Beatriz, no entanto, temos de estar sempre preparados para decepcionar e sermos decepcionados. Faz parte da vida...
Quero acordar sabendo-te cá em casa, num quarto que já é teu... Quero dar-te banho, vestir-te a tua roupa preferida, colocar-te os ganchos no cabelo rebelde... quero que me puxes pelas calças e digas que está na altura do colo porque sentes que vais chorar... deixaste a tua almofada e agora sou eu o teu porto de abrigo... quero passear de mãos dadas contigo, mostrar-te ao mundo e deixar que digam que és linda mas que és “minha”... quero não ter de me despedir de ti por mais tempo do que o essencial e não ver as tuas e as minhas lágrimas... quero dar-te o cão grande... quero que preenchas a casa com o teu cheiro, o teu sorriso, os teu sons... quero que abras as portas sem medo, que descubras o que está lá dentro e que não tenhas medo em partilhar...
...quero tanta coisa Beatriz porque és a minha metade...





terça-feira, dezembro 26, 2006

É mentira...

Era muito nova quando me apercebi que os adultos mentiam. Sem vergonha.
A mãe dizia que me dava a boneca na viagem de regresso mas o que é engraçado é que, no regresso, nunca vinhamos pelo mesmo caminho...
- “Mamã, a boneca?!”
- “Agora não vamos por lá. Fica para a próxima!”
O pai ensinava-nos que devíamos respeitar os animaizinhos, tratá-los com respeito, educá-los como se de pessoas se tratassem, no entanto, aquele cãozinho que me deram, aquele que fazia cócó demais no terraço lá de casa, foi “recambiado” para a casa de um amigo...distante
- “O meu cão?”
- “Olha, deixámos o portão aberto e o cão fugiu...”
Chorei. Berrei
- “Não te preocupes. Ele é tão bonito e esperto que já arranjou uma casa quentinha e maior do que esta para brincar à vontade!”
Acreditei, não tinha por que não o fazer. Acreditei e continuei a viver feliz na minha ingenuidade.
E aquela professora que prometeu, solenemente, não castigar quem tinha feito aquela (horrível) asneira?!?! Eu assumi-me, revelei ter sido eu. Fortemente convencida de que nada me aconteceria, claro! Acreditei nela, piamente. Errado. Ainda hoje me dói o rabo só de pensar nisso...
Cambada de mentirosos. Todos. Pior do que eles serem mentirosos é, consciente ou inconscientemente, ensinarem-nos a mentir
- “O que aconteceu ao avô?”
- “O avô foi para longe, achamos que não vem mais. Mas disse que vai estar sempre a pensar em ti...”
- “Ou comes a sopa toda ou vem aí o Papão”
- “Papão?! Não sei quem é mas pelo nome não deve ser como o Noddy. Dá cá a sopa. Marcha tudo”
O que é isto???? É uma verdade, uma meia-verdade, uma mentira ou uma meia-mentira?? Será que há “meias” nestas coisas?!? As crianças podem não entender muito bem enquanto crianças. Mas crescem. Toda a criança cresce mais cedo ou mais tarde... é só aí que vão entender que as fizeram de parvas...

Intimidar para vencer


As coisas que me enviam... A mim... Um Anti-clerical...ateu assumido