sexta-feira, março 09, 2007

Porque

'Porque os outros se mascaram e tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos calados
Onde germina calada podridão
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos
Porque os outros calculam mas tu não.'

Sophia de Mello Breyner Andresen


Parece que foi escrito a pensar numa pessoa que eu conheço :D

sábado, março 03, 2007

Destinos...

Momentos há na vida em que pensamos ter tudo sob controle. Está tudo nas nossas mãos. Pois bem, para quem tem os dias equilibrados por rotinas, para quem pensa mil e uma vezes antes de agir, para quem calca cuidadosamente o chão onde pisa, para quem nunca é sobressaltado por precipitações ou actos inusitados, cá vai a bomba...
A VIDA É AREGRADA.
Não adianta. Não vale a pena. Somos levados pura e simplesmente por algo que nos marca e segue: o destino.
Acredito que há um destino para cada uma das vidas que surge todos os dias. Caso contrário porque razão não fui naquele autocarro,(depois de ter esperado horas por ele e, por ter adormecido, não ocupei o meu lugar), que uns kms mais à frente se despistou e foi por uma ribanceira abaixo, ferindo alguns ocupantes??!!
Então e aquela vez que me cruzei na rua contigo, naquela tarde de véspera de Natal, nós os dois atulhados de sacos, e nos olhámos, primeiro seriamente, depois mais descontraidamente para logo a seguir nos “agarrarmos” a uma vida que deixou de ser só tua ou minha, passando inevitavelmente a ser nossa??!
O fado, destino, caminho traçado que todos temos pode, no entanto, ser contornado algumas vezes... Porém, são apenas curvas maldosas, enganadoras, porque o percurso é sempre o mesmo e possui igualmente o mesmo fim...
Somos nós quem constrói o nosso futuro?? Não acredito. Não tivemos interferência no nosso passado mais antigo, temos implicações nas acções do dia a dia do presente embora o façamos de forma quase transparente e indelével. Mas, relativamente ao futuro, é o “esperar e ver”. Escolhemos uma carreira pensando que é o que nos realiza hoje, amanhã não sabemos. Encontramos alguém que nos preenche e completa hoje, amanhã não fazemos a mínima ideia se nos sentiremos vazios novamente.
Decidimos aquilo que entendemos de “melhor” para os nossos... pensamos, estudamos, vemos e analisamos e chegamos a conclusões óbvias, logo viáveis. Pois, mas o que é evidente e claro hoje, amanhã poderá ser subjectivo e obsoleto...
Portanto, só uma coisa a fazer: viver cada minuto, cada segundo, cada inspiração de ar como se fosse a nossa última oportunidade de nos olharmos ao espelho. Viver sem pensar demasiado. Viver de precipitações e impulsos. Aproveitar cada uma das pessoas que nos amam, amá-las e deixar que elas nos amem. Aprender todos dias algo de novo e, no fim do dia, partilhá-lo com alguém porque não sabemos se amanhã cá estaremos para o fazer. Dividir sorrisos, lágrimas, forças e fragilidades sem medo de sermos catalogados.
Viver é tão difícl. Não é só respirar.
Partilho um poema de Alberto Caeiro. Penso que ele seria feliz. Creio que a sua capacidade para não pensar, o tornou num ser mais perto da Natureza, em comunhão perfeita com ela...

“Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar... “

domingo, fevereiro 25, 2007

O meu espaço especial


Inspirado pela música fiquei a pensar no meu “espaço especial”, mais correctamente, o Nosso espaço especial.
Se observar o local diria que é um pouco primitivo, nada, mesmo nada romântico…mas foi ali que, mesmo teatralmente, tudo começou.
A privacidade era inexistente, o ambiente era péssimo ( e Tu sabes), a ocasião era muito aborrecida…estávamos a trabalhar, mal nos conhecíamos…
Quantas vezes depois daquele dia chuvoso lá passei simplesmente para observar.
Passados mais de três anos ainda consigo abstrair-me de tudo e projectar naquela parede o que passamos, como se de um filme se tratasse, consigo visualizar a cor do teu blusão, consigo distinguir os aromas do teu perfume, consigo, facilmente, ouvir o que me disseste, como um sussurro, é certo, mas oiço…
Lembro-me também muito bem que naquele momento não significou muito para mim, é verdade, não conseguimos perceber naquele momento que aquela encenação “privada” ia fazer com que tantas emoções fluíssem.
Mesmo assim, acho que se pudesse recuar no tempo não tinha mudado o local, não tinha pedido um dia de sol, um espaço mais intimo…queria tudo igual.
Quando falamos daquele dia não referimos o que aconteceu depois, não falamos das portas que bateram, dos gritos que se ouviram…só falamos daquela pequena esquina, daquela rua escura, do bairro perigoso, e, claro, do que entre nós se passou…Falamos disso porque é o que importa, como se costuma dizer, gravamos o que mau se passa na areia e o melhor em pedra…Tu estás cravada no meu coração…que não é de pedra porque te conheci….e se de cada vez que penso em ti, em nós me caísse um pedaço…neste momento eu não existia. O resto é história…é privado...mais importante ainda, Tu sabes.

sábado, fevereiro 24, 2007

Uma música...

Caminhar por uma terra vazia,
Conhecer o caminho como as palmas das minhas mãos
Sentir a terra debaixo dos meus pés...
Sentar-me à beira rio e sentir-me completa...

Para onde terás ido??
Estou a envelhecer e preciso de me apoiar em algo...
Diz-me quando me vais deixar entrar porque estou a envelhecer
E preciso de começar de novo por algum lado

Passei por uma árvore caída
e senti os seus ramos...
estarão a olhar para mim??
É este o sítio que amávamos,
é este o sítio com o qual tenho sonhado??

E se tiveres um minuto porque não vamos?!
Falar sobre isso num sítio que só nós conhecemos?!
Pode ser o fim de tudo e então porque não vamos? Porque não vamos?

Para algum sítio que só nós conhecemos???

Será que era isto que ele pretendia transmitir??? É que se era, eu entendi perfeitamente... Todos nós temos lugares especiais como este... O meu realmente está vazio. Está guardado. E visito-o sempre que posso.
Para ouvir e pensar...


http://www.youtube.com/watch?v=Ai-iXXVeuwA&mode=related&search=

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Fernando Pessoa - 70º aniversário da sua morte

"A felicidade exige valentia.
Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes mas, não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo, e posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma. É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um "não". É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."

domingo, fevereiro 18, 2007

Teve de ser...


Desde pequenino, naqueles momentos antes de cair no sono profundo, quando o mínimo ruído nos acorda e o abraço mais terno nos embala, que estipulo objectivos para a minha vida futura. Quando era pequenino queria ir para a escola e jogar futebol, mais tarde, já na Academia Militar pensava em ser o chefe de turma...de ano, ir à frente e controlar a marcha dos meus camaradas…Com a idade os objectivos foram mudando, ganhando consistência...acabaram mesmo por se repetir.
Agora quando me deito penso “ Vou acordar amanhã porque tenho um filho para educar, uma mulher que amo, quero escalar a hierarquia militar.”…É um pensamento constante.
Muitos chamar-lhe-ão sonho…É verdade é um sonho, mas quantos de nós não têm sonhos? Aqueles objectivos que nos fazem acordar de manhã, olhar para o espelho e pensar “ Epah…Acorda para a vida...vive-a!”…
Não sei porque razão me lembrei disto agora, não sei porque estou a escrever sobre algo que nem na minha mente está claro…Talvez tenha pensado nisto ontem, quando me virava na cama a procurar a posição ideal, se calhar estou apenas melancólico… Qualquer que seja a razão…teve de ser.


PS:Para os que me conhecem desde pequenino...
Sim...Ainda penso que um dia...longínquo ou não, vou mudar o mundo...

Labirinto


.... se me pedissem para fazer uma analogia entre a minha vida e outra coisa qualquer seria fácil. A minha vida é como um labirinto. Pauta-se pelo leque de variados caminhos, pelas escolhas múltiplas, pelas decisões difíceis e sem retorno, mas, apenas uma meta...
Quantas vezes já dei por mim a optar pelo caminho da direita, por me parecer mais rápido e menos doloroso, e bater com o nariz num beco sem saída?!
Tantas outras escolhi o caminho da esquerda e percorri, exausta, kms e kms de estrada alcançando no fim a porta almejada devidamente aberta...
Alturas houve em que o labirinto que é a minha vida me colocou tão grandes obstáculos, dissimulados, escondidos entre as pedras, em formas de buracos fundos e escuros, apenas com a certeza que eu cairia neles em momentos de descontracção e de desatenção. A astúcia e até a intuição me alertaram para estes perigos e, de olhos bem abertos, pé ante pé, fui apalpando o terreno sinuoso cuidadosamente. Uma vez, caí. Deixei o corpo dentro do buraco escuro mas os meus braços permaneceram heroicamente do lado de fora... presos à vida! Icei-me, a custo, raspei os joelhos, esfolei as mãos do esforço mas passei ferozmente para o outro lado!! Ofegante limpei as lágrimas de dor, ajeitei o cabelo, sacudi o pó da roupa e ergui a cabeça. Continuei...
Também já aconteceu no final de um longo caminho descobrir duas portas, lado a lado, exactamente iguais. Aproximei-me e espreitei por ambas fechaduras na esperança de encontrar algo que as distinguisse seriamente e que me levasse a tomar a atitude correcta. Nada. Do outro lado das portas a mesma paisagem, o mesmo cheiro, as mesmas perspectivas. Pensei automaticamente: “Abrindo qualquer uma delas usufruirei do mesmo bem estar e conforto”... sim, aconteceu de facto ter tido já a sorte de após a passagem ter iniciado uma caminhada solarenga! Mas já abri uma porta e depois outra e depois outra e depois outra e depois outra...

No labirinto que é a minha vida há frases escritas nas paredes. Frases que marcam o meu percurso. Frases escritas por mim, frases de conhecidos, de pessoas que se cruzaram e me tocaram na minha excursão, de desconhecidos que, sem interpretarem e sentirem o meu corpo, me tatuaram com a simplicidade própria de letras que se unem e formam pensamentos... Cada frase é uma escada e cada escada é uma etapa concluída...
Acompanhando a sombra dos meus passos existe também a música. Em cada compartimento paira no ar uma melodia diferente: nas encruzilhadas e nos caminhos íngremes músicas com mais ritmo, com mais energia. Nas ruelas estreitas, onde normalmente não posso caminhar lado a lado com mais ninguém, músicas suaves impregnadas de metáforas e sentimentos...
No labirinto que é a minha vida há apenas uma certeza: do lugar onde pretendo chegar. Como, quando e com quem pretendo lá chegar são apenas pormenores. Fazem a diferença, obviamente, mas quem abre as portas sou eu...

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Bem re-voltada sejas!

Bem..Bem...e eu que já vinha de arma em punho pronto a destruir o blog...a impedir-me de te ler...
Bravo sócia..continua! =D

Não me perguntes como o fiz... fi-lo! Finalmente!!!!!! E cá estou eu... :)

O que Há...


"O que há em mim é sobretudo cansaço

Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A sutileza das sensações inúteis,

As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,

Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?

Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço..."

Álvaro de Campos – Fernando Pessoa



Pediram-me um poema!! O quê?!! Não, eu não sei escrever poemas. Aliás, não sei escrever coisa nenhuma.
Não, um poema que te toque!!
Fui buscar os dossiers velhos que guardo no sotão. Sabia o que queria, até porque alguns versos vagueavam pela minha mente...

Na altura do liceu alguém o tinha lido, alguém o tinha recitado de tal forma que, por momentos, fechei os olhos e devorei as palavras. Na altura tornou-se incontornável o desejo de saber quem o tinha escrito. Quem quer que o tenha feito conhecia-me... de alguma maneira...
Quando ouvimos uma música que gostamos a tendência é aplicá-la à nossa própria vida. Faz sentido. Gostamos dela porque retrata este ou aquele momento, fala de esta ou daquela pessoa...
A poesia, aprendi eu então, tem esse mesmo dom.
E Fernando Pessoa começou a fazer parte de mim.
O que mais me fascina é que depois de ter lido biografias, descobri que o que é realmente importante nele é a sua poesia. Dedicou-se a inventar pessoas, que fazendo parte dele, tinham vidas paralelas, independentes.

E todos somos um pedaço dele. Não o assumimos, mas somos. Tal como a roupa que vestimos adequada a qualquer situação, possuímos dentro de nós capas. Capas que nos cobrem, protegem e denunciam. E a facilidade com que as vestimos e despimos é a mesma com que ele escrevia poemas.
Raras são as vezes que perdemos o pudor pela nudez e mostramos o nosso corpo tal como ele é. Sem subterfúgios nem capas ilusórias. E quase nunca nos congratulam pelo nú explícito...

sábado, fevereiro 03, 2007

Procura-se sócia...

Ohhh Selene...Falta de inspiração ou tempo? =D

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Apenas uma ideia

Aqueles que escrevem mil louvores \ de formosura, graça e gentileza \ todos foram, senhora, uns borradores \ de tua perfeitíssima beleza”

Luís de Camões

Proponho que, por momentos, o “senhora” seja substituído por “ amor” ou “ paixão”.
Não sei se já falei neste tema, é natural que tenha, pois é algo que me incomoda.
Incomoda-me que o verbo amar seja usado, nos nossos dias, como um imperativo, ou algo inócuo, básico e fútil. O verbo amar é algo que deve ser usado com moderação…
Dizer uma “amo-te” tem de ser um marco, algo que nos faça acelerar a pulsação, tremer as pernas, brilhar os olhos… Não se pode dizer “ ama!”, não pode ser pedido ou ordenado…tem de ser sentido.
Posso contar pelos dedos da mão as pessoas que realmente amei, amo…delas posso dizer o nome, a idade, a cor preferida…o maior medo, a maior alegria, a cor dos olhos, o cheiro do cabelo…não posso explicar por palavras o que sinto pois nenhum sentimento se repete duas vezes.
Espanto-me com a facilidade com que , ultimamente, se ouve um “amo-te”, se diz “amo-te”, é incrível e, na minha opinião, sem significado. Desde jovem que afirmo que o amor à primeira vista não existe. Não se ama uma pessoa sem saber o nome, a idade, a profissão, sem a ter visto a comer, a vestir…é preciso conhecer a outra pessoa como nos conhecemos a nós, ainda melhor, conhecer cada expressão, cada ponto mais sensível…devemos conhecer. Sem conhecer é impossível amar…por mais que se queira sentir que se ama.
Sei que o que digo ou escrevo não vai mudar nada, mas cá fica…Na próxima vez que pensares em dizer um “amo-te”, pensa em tudo…pensa para não “borrar”, porque amar não é gostar, não é admirar…Amar é viver para estar com aquela pessoa…acordar só para a ver,,,não sejas um “borrador” daquele sentimento utópico que é o Amor…


Obrigado

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Até o mais ateu, como eu, baixa a cabeça e a diz ( Já era dia)

Dai-nos, Senhor, tudo aquilo que nunca Vos é pedido.

Não Vos pedimos o descanso

nem a tranquilidade do corpo

nem tão pouco a do espirito.

Não Vos pedimos riqueza,

nem o êxito e as honrarias

nem sequer o reconhecimento dos homens

De tudo isto, que insistentemente Vos pedem, talvez quase nada já Vos reste



Dai-nos, pois, ó Deus, o que ninguém quer, o que todos regeitam:

A insegurança, a incomodidade,

a inquietude, a tormenta e o risco.

A vereda estreita e agreste que vai até Vós.



Concedei-nos isto, nós Vos suplicamos, definitivamente, porque a

fraqueza, fruto do egoísmo humano que em nós existe, talvez nos tire a

coragem de o solicitar de novo

Dai-nos, Senhor, o que Vos sobra, aquilo que ninguém nem sequer Vos

pedem mas, dai-nos, ao mesmo tempo, o valor, a vontade, a força e a fé

que temperam a alma do soldado

na grandeza da sua servidão.

Por ultimo, Vos rogamos, ó Senhor, por aqueles que, de entre nós, em

todos os tempos, caíram no campo da Honra e derramaram o seu sangue

pela Independência e Liberdade da Pátria

Nós Vos pedimos, ó Deus dos Exércitos, que, no Vosso Seio, repousem na paz

eterna as almas destes bravos.

terça-feira, janeiro 16, 2007

Inacreditável

Tenho estado afastado do blog, não é por falta de inspiração mas sim por excesso…de trabalho.

Num destes dias, penso que segunda-feira, quando fui buscar o meu filho ao infantário, presenciei uma situação que me deixou preocupado, não comigo, não com a segurança do meu imperador, mas sim com aquele menino.
Estava eu parado à porta, a ouvir as últimas do nosso país, já que cheguei cedo, quando os meninos da escola ao lado começam a sair. Meninos que deviam andar no primeiro ou segundo ano, apostaria mais do primeiro, que acabado o dia de escola e de actividades extracurriculares falam de tudo e de mais alguma coisa, querem ir para casa descansar e ver os desenhos animados…estou a divagar…Pois bem, os pais, os avós, e familiares que os vinham buscar estavam à espera à porta. As avozinhas com os sacos com o lanche, os avós a pegar nas malas, as mães a arranjar os casacos e os pais a remexer os cabelos…Começo a olhar para eles, uns correm, outros contam aos pais como foi o dia…com aquele menino passava-se algo de semelhante, um menino normal, com pais, aparentemente normais.
O Pai entra no carro, a mãe vai para o lugar do morto…mas o menino decidiu que tinha que se despedir de um amigo…
Um pai competente teria olhado para trás, arranjado o cinto, ou a cadeirinha, como está na lei, teria visto se trazia tudo, se tinha ficado algum objecto na escola…aqueles pais estavam demasiado distraídos.
Até ali nada me tinha parecido estranho, até ao momento em que o carro começa a andar e o menino fica em terra…
Ao inicio pensei, “Bem, deve ir para casa com outra pessoa”, “ Vai ter mais alguma actividade…”… Os meus pensamentos pararam quando aquele menino, de seis anos, sete no máximo, se lançou numa perseguição aberta ao carro dos pais. Ora se punha no meio da estrada, subia para o passeio, gritava, descia para a estrada, arriscando-se a ser atropelado…neste momento já se ouviam umas buzinas que tentavam alertar os pais..algumas tipo todos os pais que assistiram à cena… no final da rua aquele casal lá se lembrou que tinha um filho, parou e a criança lá entrou.
Esta situação fez-me lembrar uma cena de um filme em que a mãe, perturbada, deixava a cadeirinha do bebé no tejadilho do carro e só deu conta quando o policia lhe bateu na janela…
Depois de procurar justificações na minha cabeça para o que aconteceu, comecei a pensar… Onde é que se vão esquecer do menino da próxima vez… por essas e por outros, sou da opinião que se devia fazer um teste de admissão à “profissão” de pai, nem todos merecem essa bênção.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

“Na minha cidade natal, Huambo, podia ouvir, nas noite de vento, o áspero rugido dos leões. Sempre que conto isto a amigos europeus eles ficam muito impressionados. Não lhes conto, é claro, que morava a quinhentos metros do Jardim Zoológico.
Entre a verdade e a mentira, o silêncio dá belas flores.”

Não sei quem escreveu. Esqueci-me de apontar. Mas sempre que leio este excerto lembro-me de mim. Quando fui viver para longe! Aos amigos dizia:
“Sabem, tenho uma casa fantástica, com vista para o mar. Toda ela viradinha para o mar.”
Depois concluí:
“Mas também, na ilha onde estou, toda a gente tem uma casa virada para o mar1”
No entanto, não o disse. Pensei apenas.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

"Um Conselho Antes da Batalha"

"Ao fim e eo cabo, e com todo o progresso da ciência, o resultado depende cada vez mais do carácter do dirigente e do seu poder de resistir «às sensuais sensações do campo de batalha». Finalmente, para aqueles que se querem preperar de avanço para tal responsabilidade, não conheço conselho mais inspirado do que aquele que foi dado há séculos, por Krishna a Arjuna, quando este tremia perante a terrivel responsabilidade de lançar o seu exército contra as hostes de Pandav:


A vida que há em todas as coisas vivas, oh Principe ,
Está protegida de todo o perigo. Por isso, não sofras,
Por aquilo que não pode sofrer. Cumpre o teu papel!
Lembra-te do teu nome, e não temas.
Nada melhor pode acontecer a uma alma marcial
Que uma guerra legítima. Feliz o guerreiro
A quem vem a alegria da batalha...
...Mas se te afastas
Deste campo de honra - tu, um Kshittriya -
Se, conhecendo o teu dever e tarefa, deixares
O teu dever e a tarefa passar - isso será pecado!
E aqueles que hão-de vir falarão de ti com infâmia,
De geração em geração. Mas a infâmia é pior,
Para os homens de sangue nobre. é pior de sofrer que a morte!


Por isso ergue-te, tu Filho de Kunti! Endurece
O teu braço para o combate; prepara o coração para encarar
Como coisas semelhantes a ti, o prazer ou a dor,
O teu lucro ou a ruína, a vitória ou a derrota.
Assim mentalizado, ganha coragem para a luta, pois assim
Não pecarás!"

terça-feira, janeiro 09, 2007

Viagem...

“A verdadeira generosidade para com o futuro consiste em entregar tudo ao presente”
Albert Camus

... Utópico... Mas foi assim, desta forma, que comecei a pensar na viagem da minha vida. As malas estavam feitas, pouca coisa, próprio das mulheres...
Chegára finalmente o dia de partida e fui pensando em tudo o que deixaria para trás. Não queria que ninguém me acompanhasse ao aeroporto. Não gosto de despedidas. São como os presentes de Natal. Embaraçosas. Nunca sei o que dizer, nem o que fazer, nem onde colocar as mãos, nem se devo sorrir... E só me despeço quando alguém que amo, morre. Um doloroso adeus!!Queria ir embora olhando apenas para a frente. O meu tumulto e a minha crise espiritual não me permitiriam ser correcta com ninguém, a não ser comigo mesma.

Entrei no avião, olhei pela janela e, só aí, realmente, me apercebi que a partir daquele momento estaria... só!! Só eu, comigo mesma. Sabia que alguma coisa tinha mudado, portanto comecei a ouvir o meu coração de uma forma drástica.
A minha vida tornou-se tão mais simples e significativa quando abandonei a bagagem do meu passado. Iria reducar-me, aprender o valor dos momentos de instropecção e iria, com toda a certeza, parar de gastar tempo com prazeres mundanos e começar a desfrutar de pequenos deleites: ver as estrelas, olhar para dentro de mim, ouvir o mar, observar os outros e... aprender. Aprender a criar uma vida com mais equilíbrio e encanto...
Durante a viagem, depois de uma refeição que nunca chegou a ser, encostei a cabeça e questionei o “porquê” desta aventura. Tentei encontrar todos os motivos que me levaram até onde fui... e foram tantos meu Deus...
Queria sair dessa cidade, pequena, mesquinha, atrofiadora e abandonar os amigos fúteis, deprimentes, ébrios, ocos de sentido...
Queria saber o que está para além disso tudo. Serão as pessoas assim tão diferentes? Serão esses lugares assim tão misteriosos e apelativos?
Queria abandonar um amor na esperança de não o perder. Arriscar. Deixar um rasto de perfume, de carícias....e mesmo assim, partir!
Queria sol, luz...
E queria o quê mais?? Mais nada??
Houve uma razão que só descobri então... e foi tão forte, tão repentina que se impôs a todas as outras. E foi aí onde falhei.

Queria mostrar-te a ti, Pai, que sou corajosa o suficiente para vos abandonar hoje sem olhar para mais nada, que o desconhecido não me intimida, que já sou uma mulher e não a menina que se sentava no teu colo e pedia histórias, que não me amedrontam as pessoas diferentes, que sei viver com muito pouco, no caso, com quase nada, que sei o valor do trabalho e dos sacrifícios para o conseguir, que já reconheço o valor que davas ao “escuro”, queria que soubesses que a minha ingenuidade foi poderosamente derrotada por MIM e que me desenrasco sozinha sem conhecer as pessoas certas como tu conheces. Queria que sentisses orgulho em mim.
Vá lá, faz comparações agora!? Não me tornei em alguém melhor?
Claro que não, não é pai? Falhei. Só agora o sei porque na altura estava no auge da minha descoberta.
Deixei que sentisses a dor que sentia. Escrevi-te cartas com palavras que me denunciavam. Mostrei-te o mundo onde vivi e permiti que sentisses pena de mim. Não impedi as tuas lágrimas, aliás, provoquei-as. Precisei da tua ajuda uma vez mais. E culpei-me por sentir saudades do teu colo.
Falhei. É dado certo. Mas, sabes, a vida é feita de um leque de escolhas e o nosso destino desenrola-se conforme o caminho que percorremos. E, se não trouxe mais nada na bagagem, pelo menos aprendi que o fracasso, seja de natureza pessoal, profissional ou espiritual, é essencial para o desenvolvimento interior.Permite o crescimento e traz toda uma hoste de recompensas várias.

Não me arrependo do passado.

E deixei de negar o teu colo...

domingo, janeiro 07, 2007

Pensar / Falar / Escrever

...Ando cansada... e sem tempo para me dedicar àquilo que me dá mais prazer: escrever!!
Disse a alguém, um destes dias, que se pudesse comprava uma casa num sítio isolado, com vista exclusiva sobre o mar... seria uma casa praticamente sem paredes, toda ela feita de janelas para deixar entrar a luz natural... Teria igualmente um alprende com vista privilegiada. Aí, dominando o ambiente, apenas uma mesa e uma cadeira. Nada de especial, somente conforto. Quase sempre haveria música.
Todos os dias, mal acordasse, faria questão em sentar-me e ouvir silenciosamente o calmo barulho do mar e do vento... e aí sim, pegava no papel e na caneta e rabiscava até me doerem os dedos. Teria, certamente, o cenário perfeito, contudo, há em mim uma dificuldade inultrapassável no que se refere ao acto de “escrever”...
Pensar e falar e pensar e escrever são duas acções completamente distintas. Explico.
Muitas vezes ouve-se o comentário “falei sem pensar”. Não acredito nesta frase. Sinto antes que é uma forma de desculpa de algo que foi dito e que magoou ou foi incorrecto. Pensa-se sempre antes de proferir qualquer palavra. É um acto consciente embora veloz...
A questão é o acto de “pensar” de cada um de nós. Uns há que reflectem objectivamente, outros fazem-no de forma subjectiva. Há pessoas de “pensamento” rápido e espontâneo, outras cautelosas e recatadas. E tantas outras vezes se confunde o “falar sem pensar” com a sinceridade... Discordo uma vez mais. Sinceridade não é sinónimo de precipitação. Sinceridade é a ponderação do que é real, do que é verdadeiro, do que é correcto e isso, hoje em dia, requer muita reflexão e serenidade.
Pensar e escrever é, talvez, a minha maior frustração.
Tenho um caderno, tal como tu tens Aquiles, onde vou apontando os pensamentos que me vão ocorrendo inesperadamente... Carrego-o comigo para todo o lado porque me sinto despida sem ele! Mas o inevitável acontece com mais frequência do que eu o desejaria. Penso rapidamente e quando tento passar para o papel, já a minha história mental vai uns capítulos à frente... sinto que o meu acto físico de escrita não acompanha o meu acto mental. As palavras escondem-se, retraiem-se e ficam apenas no ar. Não pretendem ser lidas mas sim “pensadas”!
Às vezes, quando a noite já caminha para dia, dou por mim a reflectir sobre isto ou aquilo, com ou sem importância alguma. Sinto que o deveria “imortalizar” no bendito caderno mas, tantas vezes por preguiça, decido seguir o conselho sábio (e útil à minha sonolência) de um antigo professor do liceu... Diria ele que só aprendemos realmente alguma coisa quando a conseguimos repetir três vezes sem qualquer tipo de lacuna. É exactamente o que faço com os pensamenos nocturnos. Repito-os em silêncio. No entanto, durante o dia, sinto que se perdeu uma ou outra palavra que faria toda a diferença naquele texto. Não o faço com a convicção ideal, provavelmente.
Sendo assim, reconhecendo as minhas limitações, aprendendo a contornar os meus obstáculos e vivendo no ambiente perfeito, em plena comunhão com a natureza, sou bem capaz de afirmar que não sairia “literatura” das minhas mãos mas, com certeza, todos os meus textos seriam mais transparentes, explícitos e “directos”... da alma para o papel. Teria certamente a “liberdade” necessária para ser autenticamente momentânea e encontraria o veículo certo e adequado para o transporte das minhas palavras... Como uma fotografia do interior.

... até lá, vivo nesta correria quotidiana, observando, sem a devida atenção, absorvida pela mediocridade gratuita, sem conseguir descortinar a nitidez óbvia do que é comum, sem metáforas, sem subterfúgios... apenas a realidade!!

quinta-feira, janeiro 04, 2007

“Os meus olhos viram o que jamais olhos humanos deveriam poder ver…”

Vi sangue, mortes e cinismos. Vi o emergir e o submergir, quase simultâneo, de uma sociedade degradada. Vi acções sem sentido, cumpri ordens sem olhar para o lado…vi erras e errei e errei, continua e exaustivamente.
Vi sorrisos sobre escombros de orfanatos e escolas, hospitais de campanha a abarrotar, capacetes debaixo do braço, boina na cabeça dos “ pequenos” e o olhar a pairar sobre o que não vemos.
Observei castelos a ser construídos e ouvi o som da onda a aproximar-se. Vi isso e muito mais…vimos e ouvimos calados.
De um lado os gritos do outro as mórbidas gargalhadas, Alás e Cristos armados, com o olhar a inundar de raiva e sede de vingança.
Vi os filhos dos seguidores nas ruas, sem um Deus que os protege-se, sem nada de bom a esperar…Variadas vezes ouvi os passos dos mestres religiosos a espezinhar famílias e a trespassar corpos à muito sem fé…Fugindo e mandando lutar… saltando as barreiras que tinham criado sem olhar para trás, deixando o rasto religioso do sangue a…inundar os castelos….

NÃO PASSARÃO - MIGUEL TORGA

Não desesperes, Mãe!
O último triunfo é interdito
Aos heróis que o não são.
Lembra-te do teu grito:
Não passarão!

Não passarão!
Só mesmo se parasse o coração
Que te bate no peito.
Só mesmo se pudesse haver sentido
Entre o sangue vertido
E o sonho desfeito.

Só mesmo se a raiz bebesse em lodo
De traição e de crime.
Só mesmo se não fosse o mundo todo
Que na tua tragédia se redime.

Não passarão!
Arde a seara, mas dum simples grão
Nasce o trigal de novo.
Morrem filhos e filhas da nação,
Não morre um povo!

Não passarão!
Seja qual for a fúria da agressão,
As forças que te querem jugular
Não poderão passar
Sobre a dor infinita desse não
Que a terra inteira ouviu
E repetiu:
Não passarão!

Miguel Torga in Poemas Ibéricos, 1965