sábado, fevereiro 03, 2007

Procura-se sócia...

Ohhh Selene...Falta de inspiração ou tempo? =D

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Apenas uma ideia

Aqueles que escrevem mil louvores \ de formosura, graça e gentileza \ todos foram, senhora, uns borradores \ de tua perfeitíssima beleza”

Luís de Camões

Proponho que, por momentos, o “senhora” seja substituído por “ amor” ou “ paixão”.
Não sei se já falei neste tema, é natural que tenha, pois é algo que me incomoda.
Incomoda-me que o verbo amar seja usado, nos nossos dias, como um imperativo, ou algo inócuo, básico e fútil. O verbo amar é algo que deve ser usado com moderação…
Dizer uma “amo-te” tem de ser um marco, algo que nos faça acelerar a pulsação, tremer as pernas, brilhar os olhos… Não se pode dizer “ ama!”, não pode ser pedido ou ordenado…tem de ser sentido.
Posso contar pelos dedos da mão as pessoas que realmente amei, amo…delas posso dizer o nome, a idade, a cor preferida…o maior medo, a maior alegria, a cor dos olhos, o cheiro do cabelo…não posso explicar por palavras o que sinto pois nenhum sentimento se repete duas vezes.
Espanto-me com a facilidade com que , ultimamente, se ouve um “amo-te”, se diz “amo-te”, é incrível e, na minha opinião, sem significado. Desde jovem que afirmo que o amor à primeira vista não existe. Não se ama uma pessoa sem saber o nome, a idade, a profissão, sem a ter visto a comer, a vestir…é preciso conhecer a outra pessoa como nos conhecemos a nós, ainda melhor, conhecer cada expressão, cada ponto mais sensível…devemos conhecer. Sem conhecer é impossível amar…por mais que se queira sentir que se ama.
Sei que o que digo ou escrevo não vai mudar nada, mas cá fica…Na próxima vez que pensares em dizer um “amo-te”, pensa em tudo…pensa para não “borrar”, porque amar não é gostar, não é admirar…Amar é viver para estar com aquela pessoa…acordar só para a ver,,,não sejas um “borrador” daquele sentimento utópico que é o Amor…


Obrigado

quinta-feira, janeiro 18, 2007

Até o mais ateu, como eu, baixa a cabeça e a diz ( Já era dia)

Dai-nos, Senhor, tudo aquilo que nunca Vos é pedido.

Não Vos pedimos o descanso

nem a tranquilidade do corpo

nem tão pouco a do espirito.

Não Vos pedimos riqueza,

nem o êxito e as honrarias

nem sequer o reconhecimento dos homens

De tudo isto, que insistentemente Vos pedem, talvez quase nada já Vos reste



Dai-nos, pois, ó Deus, o que ninguém quer, o que todos regeitam:

A insegurança, a incomodidade,

a inquietude, a tormenta e o risco.

A vereda estreita e agreste que vai até Vós.



Concedei-nos isto, nós Vos suplicamos, definitivamente, porque a

fraqueza, fruto do egoísmo humano que em nós existe, talvez nos tire a

coragem de o solicitar de novo

Dai-nos, Senhor, o que Vos sobra, aquilo que ninguém nem sequer Vos

pedem mas, dai-nos, ao mesmo tempo, o valor, a vontade, a força e a fé

que temperam a alma do soldado

na grandeza da sua servidão.

Por ultimo, Vos rogamos, ó Senhor, por aqueles que, de entre nós, em

todos os tempos, caíram no campo da Honra e derramaram o seu sangue

pela Independência e Liberdade da Pátria

Nós Vos pedimos, ó Deus dos Exércitos, que, no Vosso Seio, repousem na paz

eterna as almas destes bravos.

terça-feira, janeiro 16, 2007

Inacreditável

Tenho estado afastado do blog, não é por falta de inspiração mas sim por excesso…de trabalho.

Num destes dias, penso que segunda-feira, quando fui buscar o meu filho ao infantário, presenciei uma situação que me deixou preocupado, não comigo, não com a segurança do meu imperador, mas sim com aquele menino.
Estava eu parado à porta, a ouvir as últimas do nosso país, já que cheguei cedo, quando os meninos da escola ao lado começam a sair. Meninos que deviam andar no primeiro ou segundo ano, apostaria mais do primeiro, que acabado o dia de escola e de actividades extracurriculares falam de tudo e de mais alguma coisa, querem ir para casa descansar e ver os desenhos animados…estou a divagar…Pois bem, os pais, os avós, e familiares que os vinham buscar estavam à espera à porta. As avozinhas com os sacos com o lanche, os avós a pegar nas malas, as mães a arranjar os casacos e os pais a remexer os cabelos…Começo a olhar para eles, uns correm, outros contam aos pais como foi o dia…com aquele menino passava-se algo de semelhante, um menino normal, com pais, aparentemente normais.
O Pai entra no carro, a mãe vai para o lugar do morto…mas o menino decidiu que tinha que se despedir de um amigo…
Um pai competente teria olhado para trás, arranjado o cinto, ou a cadeirinha, como está na lei, teria visto se trazia tudo, se tinha ficado algum objecto na escola…aqueles pais estavam demasiado distraídos.
Até ali nada me tinha parecido estranho, até ao momento em que o carro começa a andar e o menino fica em terra…
Ao inicio pensei, “Bem, deve ir para casa com outra pessoa”, “ Vai ter mais alguma actividade…”… Os meus pensamentos pararam quando aquele menino, de seis anos, sete no máximo, se lançou numa perseguição aberta ao carro dos pais. Ora se punha no meio da estrada, subia para o passeio, gritava, descia para a estrada, arriscando-se a ser atropelado…neste momento já se ouviam umas buzinas que tentavam alertar os pais..algumas tipo todos os pais que assistiram à cena… no final da rua aquele casal lá se lembrou que tinha um filho, parou e a criança lá entrou.
Esta situação fez-me lembrar uma cena de um filme em que a mãe, perturbada, deixava a cadeirinha do bebé no tejadilho do carro e só deu conta quando o policia lhe bateu na janela…
Depois de procurar justificações na minha cabeça para o que aconteceu, comecei a pensar… Onde é que se vão esquecer do menino da próxima vez… por essas e por outros, sou da opinião que se devia fazer um teste de admissão à “profissão” de pai, nem todos merecem essa bênção.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

“Na minha cidade natal, Huambo, podia ouvir, nas noite de vento, o áspero rugido dos leões. Sempre que conto isto a amigos europeus eles ficam muito impressionados. Não lhes conto, é claro, que morava a quinhentos metros do Jardim Zoológico.
Entre a verdade e a mentira, o silêncio dá belas flores.”

Não sei quem escreveu. Esqueci-me de apontar. Mas sempre que leio este excerto lembro-me de mim. Quando fui viver para longe! Aos amigos dizia:
“Sabem, tenho uma casa fantástica, com vista para o mar. Toda ela viradinha para o mar.”
Depois concluí:
“Mas também, na ilha onde estou, toda a gente tem uma casa virada para o mar1”
No entanto, não o disse. Pensei apenas.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

"Um Conselho Antes da Batalha"

"Ao fim e eo cabo, e com todo o progresso da ciência, o resultado depende cada vez mais do carácter do dirigente e do seu poder de resistir «às sensuais sensações do campo de batalha». Finalmente, para aqueles que se querem preperar de avanço para tal responsabilidade, não conheço conselho mais inspirado do que aquele que foi dado há séculos, por Krishna a Arjuna, quando este tremia perante a terrivel responsabilidade de lançar o seu exército contra as hostes de Pandav:


A vida que há em todas as coisas vivas, oh Principe ,
Está protegida de todo o perigo. Por isso, não sofras,
Por aquilo que não pode sofrer. Cumpre o teu papel!
Lembra-te do teu nome, e não temas.
Nada melhor pode acontecer a uma alma marcial
Que uma guerra legítima. Feliz o guerreiro
A quem vem a alegria da batalha...
...Mas se te afastas
Deste campo de honra - tu, um Kshittriya -
Se, conhecendo o teu dever e tarefa, deixares
O teu dever e a tarefa passar - isso será pecado!
E aqueles que hão-de vir falarão de ti com infâmia,
De geração em geração. Mas a infâmia é pior,
Para os homens de sangue nobre. é pior de sofrer que a morte!


Por isso ergue-te, tu Filho de Kunti! Endurece
O teu braço para o combate; prepara o coração para encarar
Como coisas semelhantes a ti, o prazer ou a dor,
O teu lucro ou a ruína, a vitória ou a derrota.
Assim mentalizado, ganha coragem para a luta, pois assim
Não pecarás!"

terça-feira, janeiro 09, 2007

Viagem...

“A verdadeira generosidade para com o futuro consiste em entregar tudo ao presente”
Albert Camus

... Utópico... Mas foi assim, desta forma, que comecei a pensar na viagem da minha vida. As malas estavam feitas, pouca coisa, próprio das mulheres...
Chegára finalmente o dia de partida e fui pensando em tudo o que deixaria para trás. Não queria que ninguém me acompanhasse ao aeroporto. Não gosto de despedidas. São como os presentes de Natal. Embaraçosas. Nunca sei o que dizer, nem o que fazer, nem onde colocar as mãos, nem se devo sorrir... E só me despeço quando alguém que amo, morre. Um doloroso adeus!!Queria ir embora olhando apenas para a frente. O meu tumulto e a minha crise espiritual não me permitiriam ser correcta com ninguém, a não ser comigo mesma.

Entrei no avião, olhei pela janela e, só aí, realmente, me apercebi que a partir daquele momento estaria... só!! Só eu, comigo mesma. Sabia que alguma coisa tinha mudado, portanto comecei a ouvir o meu coração de uma forma drástica.
A minha vida tornou-se tão mais simples e significativa quando abandonei a bagagem do meu passado. Iria reducar-me, aprender o valor dos momentos de instropecção e iria, com toda a certeza, parar de gastar tempo com prazeres mundanos e começar a desfrutar de pequenos deleites: ver as estrelas, olhar para dentro de mim, ouvir o mar, observar os outros e... aprender. Aprender a criar uma vida com mais equilíbrio e encanto...
Durante a viagem, depois de uma refeição que nunca chegou a ser, encostei a cabeça e questionei o “porquê” desta aventura. Tentei encontrar todos os motivos que me levaram até onde fui... e foram tantos meu Deus...
Queria sair dessa cidade, pequena, mesquinha, atrofiadora e abandonar os amigos fúteis, deprimentes, ébrios, ocos de sentido...
Queria saber o que está para além disso tudo. Serão as pessoas assim tão diferentes? Serão esses lugares assim tão misteriosos e apelativos?
Queria abandonar um amor na esperança de não o perder. Arriscar. Deixar um rasto de perfume, de carícias....e mesmo assim, partir!
Queria sol, luz...
E queria o quê mais?? Mais nada??
Houve uma razão que só descobri então... e foi tão forte, tão repentina que se impôs a todas as outras. E foi aí onde falhei.

Queria mostrar-te a ti, Pai, que sou corajosa o suficiente para vos abandonar hoje sem olhar para mais nada, que o desconhecido não me intimida, que já sou uma mulher e não a menina que se sentava no teu colo e pedia histórias, que não me amedrontam as pessoas diferentes, que sei viver com muito pouco, no caso, com quase nada, que sei o valor do trabalho e dos sacrifícios para o conseguir, que já reconheço o valor que davas ao “escuro”, queria que soubesses que a minha ingenuidade foi poderosamente derrotada por MIM e que me desenrasco sozinha sem conhecer as pessoas certas como tu conheces. Queria que sentisses orgulho em mim.
Vá lá, faz comparações agora!? Não me tornei em alguém melhor?
Claro que não, não é pai? Falhei. Só agora o sei porque na altura estava no auge da minha descoberta.
Deixei que sentisses a dor que sentia. Escrevi-te cartas com palavras que me denunciavam. Mostrei-te o mundo onde vivi e permiti que sentisses pena de mim. Não impedi as tuas lágrimas, aliás, provoquei-as. Precisei da tua ajuda uma vez mais. E culpei-me por sentir saudades do teu colo.
Falhei. É dado certo. Mas, sabes, a vida é feita de um leque de escolhas e o nosso destino desenrola-se conforme o caminho que percorremos. E, se não trouxe mais nada na bagagem, pelo menos aprendi que o fracasso, seja de natureza pessoal, profissional ou espiritual, é essencial para o desenvolvimento interior.Permite o crescimento e traz toda uma hoste de recompensas várias.

Não me arrependo do passado.

E deixei de negar o teu colo...

domingo, janeiro 07, 2007

Pensar / Falar / Escrever

...Ando cansada... e sem tempo para me dedicar àquilo que me dá mais prazer: escrever!!
Disse a alguém, um destes dias, que se pudesse comprava uma casa num sítio isolado, com vista exclusiva sobre o mar... seria uma casa praticamente sem paredes, toda ela feita de janelas para deixar entrar a luz natural... Teria igualmente um alprende com vista privilegiada. Aí, dominando o ambiente, apenas uma mesa e uma cadeira. Nada de especial, somente conforto. Quase sempre haveria música.
Todos os dias, mal acordasse, faria questão em sentar-me e ouvir silenciosamente o calmo barulho do mar e do vento... e aí sim, pegava no papel e na caneta e rabiscava até me doerem os dedos. Teria, certamente, o cenário perfeito, contudo, há em mim uma dificuldade inultrapassável no que se refere ao acto de “escrever”...
Pensar e falar e pensar e escrever são duas acções completamente distintas. Explico.
Muitas vezes ouve-se o comentário “falei sem pensar”. Não acredito nesta frase. Sinto antes que é uma forma de desculpa de algo que foi dito e que magoou ou foi incorrecto. Pensa-se sempre antes de proferir qualquer palavra. É um acto consciente embora veloz...
A questão é o acto de “pensar” de cada um de nós. Uns há que reflectem objectivamente, outros fazem-no de forma subjectiva. Há pessoas de “pensamento” rápido e espontâneo, outras cautelosas e recatadas. E tantas outras vezes se confunde o “falar sem pensar” com a sinceridade... Discordo uma vez mais. Sinceridade não é sinónimo de precipitação. Sinceridade é a ponderação do que é real, do que é verdadeiro, do que é correcto e isso, hoje em dia, requer muita reflexão e serenidade.
Pensar e escrever é, talvez, a minha maior frustração.
Tenho um caderno, tal como tu tens Aquiles, onde vou apontando os pensamentos que me vão ocorrendo inesperadamente... Carrego-o comigo para todo o lado porque me sinto despida sem ele! Mas o inevitável acontece com mais frequência do que eu o desejaria. Penso rapidamente e quando tento passar para o papel, já a minha história mental vai uns capítulos à frente... sinto que o meu acto físico de escrita não acompanha o meu acto mental. As palavras escondem-se, retraiem-se e ficam apenas no ar. Não pretendem ser lidas mas sim “pensadas”!
Às vezes, quando a noite já caminha para dia, dou por mim a reflectir sobre isto ou aquilo, com ou sem importância alguma. Sinto que o deveria “imortalizar” no bendito caderno mas, tantas vezes por preguiça, decido seguir o conselho sábio (e útil à minha sonolência) de um antigo professor do liceu... Diria ele que só aprendemos realmente alguma coisa quando a conseguimos repetir três vezes sem qualquer tipo de lacuna. É exactamente o que faço com os pensamenos nocturnos. Repito-os em silêncio. No entanto, durante o dia, sinto que se perdeu uma ou outra palavra que faria toda a diferença naquele texto. Não o faço com a convicção ideal, provavelmente.
Sendo assim, reconhecendo as minhas limitações, aprendendo a contornar os meus obstáculos e vivendo no ambiente perfeito, em plena comunhão com a natureza, sou bem capaz de afirmar que não sairia “literatura” das minhas mãos mas, com certeza, todos os meus textos seriam mais transparentes, explícitos e “directos”... da alma para o papel. Teria certamente a “liberdade” necessária para ser autenticamente momentânea e encontraria o veículo certo e adequado para o transporte das minhas palavras... Como uma fotografia do interior.

... até lá, vivo nesta correria quotidiana, observando, sem a devida atenção, absorvida pela mediocridade gratuita, sem conseguir descortinar a nitidez óbvia do que é comum, sem metáforas, sem subterfúgios... apenas a realidade!!

quinta-feira, janeiro 04, 2007

“Os meus olhos viram o que jamais olhos humanos deveriam poder ver…”

Vi sangue, mortes e cinismos. Vi o emergir e o submergir, quase simultâneo, de uma sociedade degradada. Vi acções sem sentido, cumpri ordens sem olhar para o lado…vi erras e errei e errei, continua e exaustivamente.
Vi sorrisos sobre escombros de orfanatos e escolas, hospitais de campanha a abarrotar, capacetes debaixo do braço, boina na cabeça dos “ pequenos” e o olhar a pairar sobre o que não vemos.
Observei castelos a ser construídos e ouvi o som da onda a aproximar-se. Vi isso e muito mais…vimos e ouvimos calados.
De um lado os gritos do outro as mórbidas gargalhadas, Alás e Cristos armados, com o olhar a inundar de raiva e sede de vingança.
Vi os filhos dos seguidores nas ruas, sem um Deus que os protege-se, sem nada de bom a esperar…Variadas vezes ouvi os passos dos mestres religiosos a espezinhar famílias e a trespassar corpos à muito sem fé…Fugindo e mandando lutar… saltando as barreiras que tinham criado sem olhar para trás, deixando o rasto religioso do sangue a…inundar os castelos….

NÃO PASSARÃO - MIGUEL TORGA

Não desesperes, Mãe!
O último triunfo é interdito
Aos heróis que o não são.
Lembra-te do teu grito:
Não passarão!

Não passarão!
Só mesmo se parasse o coração
Que te bate no peito.
Só mesmo se pudesse haver sentido
Entre o sangue vertido
E o sonho desfeito.

Só mesmo se a raiz bebesse em lodo
De traição e de crime.
Só mesmo se não fosse o mundo todo
Que na tua tragédia se redime.

Não passarão!
Arde a seara, mas dum simples grão
Nasce o trigal de novo.
Morrem filhos e filhas da nação,
Não morre um povo!

Não passarão!
Seja qual for a fúria da agressão,
As forças que te querem jugular
Não poderão passar
Sobre a dor infinita desse não
Que a terra inteira ouviu
E repetiu:
Não passarão!

Miguel Torga in Poemas Ibéricos, 1965

terça-feira, janeiro 02, 2007

Num café...

Numa conversa de mulheres, daquelas que os homens nunca entenderão (pela simples razão de serem homens), surgiu o tema da desconfiança, insegurança, mentira e traição. (O tema compras e saldos foi o seguinte, mas sobre esse não me pronunciarei).
Uma de nós é uma mulher que, vivendo a esperança de uma relação que adia o inevitável, desconfia da própria sombra e sustém a respiração sempre que se fala em traição e mentira. Tenta esconder o fracasso pessoal e, sempre que pode, balbucia qualquer coisa do género “ A mim não me assusta a solidão. Se for necessário dou um passo em frente e nem olho para trás...”
Ambas sabemos que se engana a si própria. Não o dizemos porque somos amigas mas somos mulheres!!
Outra há que vive sozinha, num prédio com demasiados andares... acorda sozinha, vai trabalhar, almoça no local de trabalho, com colegas entediantes e sem “sal” (segundo ela), faz ginástica num local intitulado “in”, regressa a casa, só, come qualquer coisa rápida e senta-se no sofá a ver a(s) novela(s). Não se cansa dizer “Assim é que estou bem! Ninguém me chateia. Sou independente” mas todas sabemos que reserva em si o medo de se relacionar, a insegurança da entrega e da partilha. Ainda não esqueceu o passado. Aliás é lá que vive!! Mais uma vez, ficámos caladas cientes da nossa condição feminina.
E há a L. Chamemos-lhe assim. A L. vive uma vida de sonho. Um trabalho que a preenche, um marido que a idolatra e a presenteia com palavras e actos inesperados, festas sociais nas quais se destaca pela beleza e carisma naturais. Da boca da L. nunca se ouviu uma lamentação, uma queixa, um sentimento menos positivo porque, segundo ela, “ a nossa vida é como uma caverna com eco. Se lá dentro gritarmos exclusivamente coisas boas é isso exactamente o que o eco / vida nos vai devolver.” Admiramos-lhe a força, a confiança e a “sorte”. Mas somos mulheres, caramba. Caladas até ao fim...
Como diria Álvaro de Campos “três tipos de idealistas e eu nenhum deles...”
E enquanto falam, olho para dentro e penso que somos seres relacionais mas, por maior que seja o paradoxo, é-nos muito difícil relacionarmo-nos com os outros. Nem sempre, claro, mas talvez mais vezes do que as que gostaríamos. Seja porque a vida afasta as pessoas, porque há demasiado sofrimento à nossa volta ou porque temos medo de amar e ser magoados, ficamos, muitas vezes, isolados no nosso canto.
Mas... Quanto menos damos, menos recebemos.
Partilhar emoções, confiar nos outros e amar sem medos é a única maneira de crescer e criar laços fortes e seguros... Nada é definitivo na evolução das pessoas, tudo muda, e ,a boa qualidade das relações afectivas que se vão estabelecendo ao longo das nossas vidas, tem a capacidade de mudar profundamente possíveis dificuldades.
A ideia de que são as relações com as pessoas com quem vamos lidando nas mais variadas situações que nos moldam, dá-nos a noção da nossa verdadeira dimensão. Têm o poder de nos revelar. É por estes laços que se correm perigos, vivem alegrias e se conhecem as tristezas que permitem edificar quem realmente somos... levam-nos a uma procura, constante, da perfeição!!
Diariamente temos o desejo de pertencer ou possuir alguém ou alguma coisa... apesar do individualismo, cada vez mais evidente, todos nós procuramos algo ou alguém em quem nos possamos apoiar... no entanto, temos vindo a perder o tempo e a disponibilidade para estar atentos aos que nos rodeiam. Os dias de hoje não promovem a proximidade e paira no ar a ideia de perigo de contágio de sentimentos piegas indesejáveis e sobretudo passados de moda, que nos expõem e enfraquecem... sentimentos que mostram exactamente aquilo que somos...
No fundo, tudo se resume ao facto de alguns de nós se sentirem ansiosos numa vida cujo objectivo principal é encontrar uma “relação ideal”. Nela se investem todos os sonhos e se criam expectativas exageradas, esperando invariavelmente receber o máximo de amor, amizade ou afecto... aquilo a que temos naturalmente direito!
A ideia de perdermos relações significativas torna-nos pessoas deprimidas e até em luto quando as nossas ligações sofrem danos... por outro lado, sentimo-nos profundamente sós quando não as temos.
É absolutamente necessário encontrar um equilíbrio entre intimidade necessária e a expressão de independência e autonomia pessoais, sem cair na desconfiança contínua do exterior, que transforma os elos em pedaços poucos transparentes, defensivos e muito tristes...

“Que conversa deprimente a vossa!! Vamos às compras para desanuviar!!”

Interrompida nos meus pensamentos, paguei o café e preparei-me para a batalha!
Mulheres!!

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Ohhhhhhhh Selene

Selene... Carrega no play =D

Quem não tem uma música própria??
Quem não acha que aquele poeta escreveu aquele poema a pensar na sua pessoa??
Quem não recorda um cheiro específico de alguém, de algum sítio, de uma ocasião qualquer?
Quem não sonha ao ver um filme romântico, daqueles com aquelas histórias quase utópicas, e deseja que essa história se repita na sua vida??
Quem nunca visitou um local pela primeiríssima vez e se “lembrou” de já lá ter estado?
Começo pelo fim:

Vivi no estrangeiro, numa cidade, sozinha, durante um ano. Não precisei de mapas. Sabia exactamente onde estava, para onde ía, e nunca me perdi na imensidão das ruas... senti que já tinha vivido lá. Não faço ideia quando, nem quem era...

Vi atentamente o filme “Jerry Maguire” e sonhei com uma história daquelas para mim... aquela famosa frase “You had me at hello!” fez-me ver que há realmente coisas muito simples. Até no amor...

Há um cheiro que nunca esquecerei de um perfume, já antigo, que o meu avô usava. Aliás, sempre achei que ele exagerava na dose diária. Disse-lhe umas quantas vezes. Nada mudou de qualquer maneira. Há pouco tempo, sentada num banco de um combóio, lia o meu livro calmamente. À minha volta o entra e sai próprio da hora de ponta... entretanto sinto que alguém se senta no banco em frente ao meu. Não tirei os olhos do livro até o meu nariz ter presenciado aquele odor... era o mesmo perfume. As pernas tremeram. Não me contive e pousei o olhar naquela pessoa. Devorei-lhe cada partícula do cheiro que emanava dela. E vi o meu avô. Senti-o claramente...

“Conheci” Fernando Pessoa ainda nova. Cruzámo-nos de forma natural. Uma descoberta entre os milhentos livros religiosamente guardados do meu pai. Não me lembro o porquê dessa minha curiosidade repentina mas recordo-me que me “prendi” ao livro para sempre. Ainda hoje o tenho. Revi-me nos seus textos... senti-me algo nua, despida de alma porque ele a tinha descoberto. Uma empatia perfeita entre um génio da palavra e uma leitora desfasada do tempo...

Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender -
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada
Deixa esquecer
Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz
Não digas nada."

Fernando Pessoa

E chego finalmente ao início do texto. A música. Não referirei uma música minha e de mais alguém. Também as há. Vou antes dar a conhecer uma música que me dedicaram há uns tempos atrás. Marcou-me pela pessoa que a escolheu, pela ocasião de ruptura em que nos encontrávamos e pela analogia simples de uma mulher e do vento... Ninguém fala no vento. Fala-se, escreve-se, canta-se sobre o mar, sobre a lua, sobre o tempo, sobre o amor, sobre o sofrimento... esquecem-se frequentemente das brisas de todos os dias!!
Partilho-a ...

http://www.youtube.com/watch?v=pi7cmNDgCz8

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Mulher!

Não é dia da Mulher, eu sei, mas precisamos de miminhos destes todos os dias...

"Enquanto houver uns olhos que reflectem
outros olhos que os fitam,
enquanto a boca responda a suspirar
aos lábios que suspiram,
enquanto sentir-se possam ao beijar-se
duas almas confundidas,
enquanto exista uma mulher formosa,
haverá poesia!"

Gustavo Adolfo Bécquer

Poema Matemático

Bem, eu vou colocar aqui um poema que li num outro blog...Achei tão estranho o poema, mas tão estranho...que não podia deixar de partilhar...



Um Quociente apaixonou-se um dia doidamente por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável e viu-a, do Ápice à Base...
Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, Boca trapezóide,Corpo ortogonal, Seios esferóides.
Fez da sua uma vida Paralela à dela.
Até que se encontraram No Infinito.
"Quem és tu?" indagou ele
Com ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.Mas podes chamar-me Hipotenusa ."
E de falarem descobriram que eram
O que, em aritmética, corresponde
A alma irmãs Primos-entre-si.
E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz.
Numa sexta potenciação
Traçando ao sabor do momento
E da paixão Rectas, Curvas, Círculos e Linhas Sinusoidais.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidianas
E os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E, enfim, resolveram casar-se.
Constituir um lar.
Mais que um lar. Uma Perpendicular.
Convidaram para padrinhos O Poliedro e a Bissectriz.
E fizeram Planos, Equações e Diagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade Integral
E diferencial.
E casaram-se e tiveram uma Secante e três Cones muito engraçadinhos.
E foram felizes.... Até àquele dia
Em que tudo, afinal, se torna monotonia.
Foi então que surgiu O Máximo Divisor Comum...
Frequentador de Círculos Concêntricos.Viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela, Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum.
Ele, Quociente, percebeu que com ela não formava mais Um Todo.
Uma Unidade.
Era o Triângulo, chamado amoroso.
E desse problema ela era a Fracção Mais Ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade.
E tudo que era espúrio passou a ser Moralidade
Como aliás, em qualquer Sociedade.


Millôr Fernandes

quarta-feira, dezembro 27, 2006

O meu herói


Durante a nossa infância crescemos a ouvir histórias de heróis, príncipes encantados que salvam as belas princesas no castelo longínquo, guardado por dragões, ou bruxas malvadas…ouvimos falar dos grandes conquistadores, dos soldados rebeldes, dos grandes marinheiros e na nossa mente acaba por se estruturar um objectivo, mesmo que de curta duração… queremos ser como eles.
Quem nunca quis ser como o polícia que um dia visitou a sua escola, como o cantor que encanta multidões, o soldado que luta em países distantes, o artista de cinema, que conquista todas as donzelas e elimina os inimigos? Todas as pessoas têm o seu heróis, o seu ídolo.
Lembro-me que durante as férias, quando era pequeno e ia passar as férias grandes com os meus avós paternos, seguia um carabinieri para todo o lado, via como é que ele andava e tentava andar da mesma forma, imitava as expressões faciais, as frases, as acções. Esse carabinieri é o meu avô.
Quando falávamos dos nosso ídolos, uns mencionavam cantores, outros jogadores de futebol, o meu ídolo sempre foi o carabinieri do passo largo, voz grossa, e cavalheiresco, o homem que luta pelo que quer e que, quase sempre, tem.
Sei que ainda agora, quando me chateio, ou tenho um problema, penso “ O que faria o meu avô se estivesse na minha situação?”, tento fazer o que ele faria, tenho-me saído bem.
Por isso e por muito mais … Grazie nonno!


O cabelo loiro, preenchido por caracóis,estava desalinhado... os olhos azúis, grandes e expressivos, observavam-me e a tua boca, perfeitamente desenhada, tinha um rasgo de um sorrido tímido... as tua unhas sujas pertenciam a umas mãos finas e débeis... Pena. Foi o que senti no nosso primeiro contacto. Pena de ti, da tua vida tão curta ainda mas já tão preenchida de infortúnios. Pena das vezes que já deves ter chorado, das vezes que já tiveste fome e frio... Hoje, continuo a sentir pena. Mas de mim. Por não ter sido a primeira pessoa a ver-te quando nasceste...
Os nossos primeiros dias foram de descoberta total e de entrega a cada segundo vivido! Eu interpretava os teus sinais, tu lias os meus olhos. Eu adivinhava a tua dor e os teus medos, tu sabias que o teu lugar estava garantido na minha vida. Eu teimava em vasculhar tudo o que é teu, tu insinuavas um passado esquecido e uma esperança num futuro melhor... como me ensinaste... Conheces o “menos bom” e mesmo assim só sabes ser meiga, grandiosa e sorridente...

- Beatriz, desenha o teu animal preferido!
- Pode ser um cão?
- Pode ser o que tu quiseres desde que seja o teu preferido.
- Vou desenhar um cão. Grande.
- Grande?! Porquê, não gostas de cães pequeninos?
- Gosto mas um cão grande protege-me mais. Além disso podia ensiná-lo a pegar em mim para olhar pela janela pequena. Eu não chego lá.
- Uma janela pequena. Não há portas Beatriz? Para que possas ir brincar com ele lá para fora?
- Há uma mas está sempre trancada. Só posso olhar pela janela...

Viveste sempre enclausurada não foi? Anda cá, deixa-me abraçar-te e dizer-te que vamos as duas abrir outras portas com a mesma mão. Abrimo-las e nunca mais as fechamos...

- Beatriz, tu choras?
- Choro tu não?
- Sim, choro. Mas eu nunca te vi chorar...
- Pois não. Eu escondo-me quando me apetece.
- Escondes-te? Podes dizer-me onde?
- Na almofada...

Quem te ensinou que chorar é uma fraqueza?! Quem te assustou ao ponto de teres um sítio só teu para chorares?? És uma criança. As crianças choram, riem, brincam, fazem asneiras naturalmente. Nós, os adultos, somos os únicos a procurar refúgios porque temos medo de nos mostrarmos...

Desde que te conheço que me tornei em alguém melhor. A ti devo o entendimento perfeito das palavras “perdão” e “sofrimento”. Não me esqueço do nosso primeiro fim de semana juntas. Quando te perguntava se estavas a gostar e tu respondias com abraços... Quero continuar a lutar por ti... e por mim!! Quero continuar a aprender ao teu lado. Quero sentar-me no chão contigo, brincar ao que tu quiseres, tocar-te na cara e nos cabelos loiros e dizer-te que és uma menina linda e que tenho orgulho em ti! Quero que acredites em mim quando digo que podemos confiar nas pessoas. Podemos realmente Beatriz, no entanto, temos de estar sempre preparados para decepcionar e sermos decepcionados. Faz parte da vida...
Quero acordar sabendo-te cá em casa, num quarto que já é teu... Quero dar-te banho, vestir-te a tua roupa preferida, colocar-te os ganchos no cabelo rebelde... quero que me puxes pelas calças e digas que está na altura do colo porque sentes que vais chorar... deixaste a tua almofada e agora sou eu o teu porto de abrigo... quero passear de mãos dadas contigo, mostrar-te ao mundo e deixar que digam que és linda mas que és “minha”... quero não ter de me despedir de ti por mais tempo do que o essencial e não ver as tuas e as minhas lágrimas... quero dar-te o cão grande... quero que preenchas a casa com o teu cheiro, o teu sorriso, os teu sons... quero que abras as portas sem medo, que descubras o que está lá dentro e que não tenhas medo em partilhar...
...quero tanta coisa Beatriz porque és a minha metade...





terça-feira, dezembro 26, 2006

É mentira...

Era muito nova quando me apercebi que os adultos mentiam. Sem vergonha.
A mãe dizia que me dava a boneca na viagem de regresso mas o que é engraçado é que, no regresso, nunca vinhamos pelo mesmo caminho...
- “Mamã, a boneca?!”
- “Agora não vamos por lá. Fica para a próxima!”
O pai ensinava-nos que devíamos respeitar os animaizinhos, tratá-los com respeito, educá-los como se de pessoas se tratassem, no entanto, aquele cãozinho que me deram, aquele que fazia cócó demais no terraço lá de casa, foi “recambiado” para a casa de um amigo...distante
- “O meu cão?”
- “Olha, deixámos o portão aberto e o cão fugiu...”
Chorei. Berrei
- “Não te preocupes. Ele é tão bonito e esperto que já arranjou uma casa quentinha e maior do que esta para brincar à vontade!”
Acreditei, não tinha por que não o fazer. Acreditei e continuei a viver feliz na minha ingenuidade.
E aquela professora que prometeu, solenemente, não castigar quem tinha feito aquela (horrível) asneira?!?! Eu assumi-me, revelei ter sido eu. Fortemente convencida de que nada me aconteceria, claro! Acreditei nela, piamente. Errado. Ainda hoje me dói o rabo só de pensar nisso...
Cambada de mentirosos. Todos. Pior do que eles serem mentirosos é, consciente ou inconscientemente, ensinarem-nos a mentir
- “O que aconteceu ao avô?”
- “O avô foi para longe, achamos que não vem mais. Mas disse que vai estar sempre a pensar em ti...”
- “Ou comes a sopa toda ou vem aí o Papão”
- “Papão?! Não sei quem é mas pelo nome não deve ser como o Noddy. Dá cá a sopa. Marcha tudo”
O que é isto???? É uma verdade, uma meia-verdade, uma mentira ou uma meia-mentira?? Será que há “meias” nestas coisas?!? As crianças podem não entender muito bem enquanto crianças. Mas crescem. Toda a criança cresce mais cedo ou mais tarde... é só aí que vão entender que as fizeram de parvas...

Intimidar para vencer


As coisas que me enviam... A mim... Um Anti-clerical...ateu assumido

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Pormenores!

Às vezes páro um pouco... Olho à volta, observo os que me rodeiam.
Sempre me disseram que era boa observadora... Talvez porque presto demasiada atenção a detalhes que, provavelmente, passam despercebidos ao primeiro contacto. Os pormenores definem as pessoas. De uma maneira geral, à primeira vista e ao primeiro toque, somos todos muito parecidos. O que realmente nos distingue são as pequeninas coisas... aquelas que alguém designou de “pormenores sem a mínima importância”!

Tive um namorado, há alguns anos atrás (como o tempo passa), que me surpreendeu muito com algumas palavras. Quando lhe perguntei o que gostava mais em mim (hoje já não faço perguntas dessas, amadureci e como tal receio a resposta) respondeu-me desta forma: “Gosto da forma como andas e da forma como falas”... Na altura pensei “Este gajo é parvo de certeza!!! Da forma como falo até nem é mau mas... podia dizer que gostava do meu cabelo, podia dizer que gostava dos olhos ou dos lábios, até podia dizer que não gostava de nada... agora da forma como ando??” Bem, lembro-me que, durante uns tempos, antes de sair de casa, me virava de costas para o espelho e andava em direcção à porta com a cabeça virada, observando como era o meu “andar”... Para mim, normal!! Para ele, pelos vistos, não. O que é realmente curioso é que ainda hoje, depois de alguns anos, essas são as palavras que mais me lembro ditas por ele. Já esqueci o cheiro, já não me lembro dos gostos, não sei o que queria ser quando fosse “mais crescido” mas recordo-me perfeitamente daquele comentário... Pormenores!

E o mesmo se passa com os locais que conhecemos... adoro viajar e tenho o privilégio de já ter conhecido alguns pontos interessantes! O que guardo deles são, igualmente, pequenos grandes momentos.
Há um lugar, escondido entre as serras quase inóspitas de Trás os Montes que, de tão natural e simples que é, me transmitiu uma sensação de paz, nunca antes vivida em qualquer outro local. É uma aldeia, daquelas que têm só uma estrada que acaba na Igreja. As casas, meia dúzia, são próximas (não vá o Diabo tecê-las) umas às outras e exalam aquele cheiro a fumo, a quente, a gente que vive em comunhão com o que a terra lhes oferece. Na única rua há bancos de pedra e num deles está um ramo de flores. Soube depois. Uma homenagem singela a alguém que tinha partido recentemente e que se sentava ali. Era dele aquele sítio. Durante uns tempos ninguém tem a coragem de o ocupar. Pormenores! Aqui, enquanto andamos, conseguimos ouvir cada um dos nossos passos (e lá vem o andar novamente, aquele rapaz traumatizou-me) porque o que realmente caracteriza esta aldeia é o silêncio! O silêncio que incomoda tanta gente... o silêncio que muitas vezes é mal compreendido porque se teima em pôr em palavras o que, às vezes, é perceptível apenas com um olhar ou com um simples toque... O silêncio vivia ali! Descobri eu... talvez de mãos dadas com a solidão. Não uma solidão que assusta e que preenche os dias de coisas vazias mas uma solidão consciente, sã... uma solidão que já se tornou aliada contra o tempo! E o tempo, neste sítio, é vivido não em horas, minutos ou segundos mas antes em manhãs, tardes e noites...
Solidão, Silêncio e Tempo. Três palavras fantasmas do corre corre do nosso dia-a-dia: somos exigentes demais para estarmos sós, falamos bem demais para estarmos calados e somos reais demais para sermos efémeros como o tempo...
Pormenores...